{"id":2333,"date":"2010-09-29T10:46:02","date_gmt":"2010-09-29T13:46:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2333"},"modified":"2010-09-29T10:46:02","modified_gmt":"2010-09-29T13:46:02","slug":"rito-de-passagem-em-hayao-miyazaki","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/rito-de-passagem-em-hayao-miyazaki","title":{"rendered":"RITO DE PASSAGEM EM HAYAO MIYAZAKI"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nA passagem para a vida adulta n\u00e3o se faz sem dor. Nos filmes de Hayao Miyazaki (uma cole\u00e7\u00e3o assombrosa e inacredit\u00e1vel de obras-primas ao longo de 30 anos) esse rito \u00e9 assumido por suas personagens (a maioria meninas ) de maneira destemida. A garota enfrenta monstros e pesadelos para garantir a sobreviv\u00eancia de um sentimento, achar um lugar na vida pr\u00e1tica e colocar-se \u00e0 prova, pois s\u00f3 assim poder\u00e1 ter direito ao sonho e a uma vida plena. Vemos isso em Nausicaa (1984), Kiki (1989), Mononoke (1997) ou Chihiro (2001). E est\u00e1 presente tamb\u00e9m Totoro (1988) ou Ponyo (2008). S\u00e3o filmes, em forma de anima\u00e7\u00e3o, que arrebatam pela suprema arte do g\u00eanio, que sobra na narrativa em todas as formas visuais, liter\u00e1rias, dramat\u00fargicas ou musicais.<\/p>\n<p>Por que esses filmes n\u00e3o est\u00e3o nas escolas, nas redes de televis\u00e3o, nas resid\u00eancias e nos cinemas de maneira permanente? A brutaliza\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, por meio de uma ind\u00fastria audiovisual sinistra, n\u00e3o abre guarda para o trabalho de Miyazaki, que faz sucesso, sim, que coloca seus filmes no mundo todo, sim, mas, diante da burrifica\u00e7\u00e3o geral, est\u00e1 em desvantagem absoluta. Posso falar com propriedade: nunca tinha prestado aten\u00e7\u00e3o nesse trabalho primoroso, at\u00e9 que aqui em casa fomos presenteados com a cole\u00e7\u00e3o completa. Mas basta ligar a TV para vermos cenas de sadismo, viol\u00eancia sexual, chantagem, falsidade ou ass\u00e9dio em qualquer hor\u00e1rio.<\/p>\n<p>H\u00e1 terror nos filmes de Miyazaki. H\u00e1 impiedade. Pais s\u00e3o transformados em porcos, meninas selvagens chupam sangue, fantasmas devoram outras criaturas, crian\u00e7as s\u00e3o seq\u00fcestradas, fam\u00edlias enfrentam a morte, amores se revelam imposs\u00edveis. H\u00e1 uma ins\u00e2nia geral na explos\u00e3o de criatividade, onde o detalhe funciona como uma enciclop\u00e9dia de obras de arte, os cen\u00e1rios perfeitos s\u00e3o postos \u00e0 prova por borrascas devastadoras, algu\u00e9m em algum lugar voa, trens andam sobre as \u00e1guas, e h\u00e1 uma floresta cheia de maus esp\u00edritos, uma cidade amea\u00e7adora onde cai a noite e a chuva. A doen\u00e7a espreita os fracos e tudo parece irremediavelmente perdido e sem sa\u00edda.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o h\u00e1 pedofilia, nem racismo, nem abuso, nem maldade de qualquer tipo. H\u00e1 apenas uma obra focada na forma\u00e7\u00e3o da cidadania, sem encher o saco de ningu\u00e9m e sendo, ao contr\u00e1rio, uma fonte emocionante de sedu\u00e7\u00e3o e alegria, pois o talento faz com que nosso esp\u00edrito fique habitado. Somos animados pelo que vemos e sa\u00edmos de cada filme plenamente convicto de que ali est\u00e1 algo insuper\u00e1vel&#8230;at\u00e9 vermos o filme seguinte. Voc\u00ea n\u00e3o fica imune \u00e0 saga de popula\u00e7\u00f5es em luta contra o Mal em todas as formas, que procuram preservar os deuses e protetores da Natureza, sem nada soar a ecochatice, \u00e9 apenas a sintonia entre o trabalho art\u00edstico e as demandas do nosso tempo sem passar pelo crivo do falso moralismo.<\/p>\n<p>A solidez das hist\u00f3rias vem da solidez da civiliza\u00e7\u00e3o (a japonesa) e das fam\u00edlias (japonesas). Totalmente focado em sua terra e seu povo, nada mais universal do que a obra desse mestre absoluto. Crian\u00e7as de qualquer pa\u00eds adoram. Minha neta chega a ficar exausta de tanto ver. V\u00ea todos, pergunta tudo, pede para traduzirem (recebemos c\u00f3pias na dublagem original, com legendas), elenca seus favoritos e assume sempre, em cada filme, um dos personagens. \u201cEu sou Ponyo, e voc\u00ea?\u201d pergunta. Eu sou o adulto encantado com essa revela\u00e7\u00e3o tardia, em que o g\u00eanio nos salva da TV aberta, esse ninho de pavores indissol\u00faveis, em que nada medra a n\u00e3o ser o vazio provocado pela mediocridade.<\/p>\n<p>Um dos vetores mais maravilhosos de Miyazaki \u00e9 a tecnologia, real ou delirante. O pequeno ve\u00edculo voador movido a vento da princesa em Nausicaa, o gerador na casa-farol em Ponyo, one h\u00e1 tamb\u00e9m um barco movido a vela de cera e chama, o gato-\u00f4nibus de Totoro. Sem falar nas m\u00e1quinas tradicionais, como os avi\u00f5es dos anos 30 neste outro filme genial, Porco Rosso(1992), em que um piloto nos moldes de Humphrey Bogart faz parceria com uma adolescente projetista de avi\u00f5es para enfrentar os piratas do ar no Adri\u00e1tico.<\/p>\n<p>Quem pode com esse japon\u00eas alucinado que fez tudo, desenhou e pintou seus filmes quadro a quadro, levando anos para ultimar cada obra-prima e criou um est\u00fadio onde seu filho e muitos colaboradores multiplicam esse trabalho primoroso em outros lan\u00e7amentos, todos com a marca de qualidade do mestre? Ningu\u00e9m pode com ele. No futuro, vai ter sempre um espertinho que colocar\u00e1 em d\u00favida a capacidade de uma pessoa s\u00f3 fazer tanto. \u00c9 o que dizem hoje de Shakespeare. N\u00e3o sabem que o g\u00eanio n\u00e3o d\u00e1 tr\u00e9gua e \u00e9 completo e que a exist\u00eancia de um s\u00f3 pode redimir todo um s\u00e9culo de sombras.<\/p>\n<p>\u201cGosto de mulher\u201d disse ele certa vez quando lhe perguntaram porque o papel principal \u00e9 sempre feminino nos seus filmes. Gosta mesmo. O p\u00fablico se apaixona por essas garotas imposs\u00edveis, fr\u00e1geis, pequenas, que peitam monstros e situa\u00e7\u00f5es terminais sem blefar com absoluta verossimilhan\u00e7a. E h\u00e1 as menininhas da mais remota inf\u00e2ncia, as mulheres maduras e as velhas, milhares de velhas, trabalhando, protegendo, ou fazendo feiti\u00e7os, perseguindo. Mulher para tudo o que \u00e9 lado, sem o ran\u00e7o do feminismo, corajosas, \u201creais\u201d, absolutamente encantadoras.<\/p>\n<p>\u201cE voc\u00ea, quem \u00e9?\u201d me pergunta a neta diante da hist\u00f3ria, a mais louca e s\u00e1bia poss\u00edvel. A resposta \u00e9 \u00f3bvia: todos queremos ser Hayao Miyazaki e como, felizmente, isso \u00e9 imposs\u00edvel, agradecemos a Deus pela sua fecunda exist\u00eancia. Longa vida aos grandes mensageiros do esp\u00edrito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s A passagem para a vida adulta n\u00e3o se faz sem dor. Nos filmes de Hayao Miyazaki (uma cole\u00e7\u00e3o assombrosa e inacredit\u00e1vel de obras-primas ao longo de 30 anos) esse rito \u00e9 assumido por suas personagens (a maioria meninas ) de maneira destemida. 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