{"id":2335,"date":"2010-09-29T10:48:14","date_gmt":"2010-09-29T13:48:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2335"},"modified":"2010-09-29T10:48:14","modified_gmt":"2010-09-29T13:48:14","slug":"geraldo-vandre-e-o-brasil-assassinado","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/geraldo-vandre-e-o-brasil-assassinado","title":{"rendered":"GERALDO VANDR\u00c9 E O BRASIL ASSASSINADO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Nos debates dos candidatos, a toda hora aparece a express\u00e3o \u201c\u00e9 fundamental\u201d, com seus clones \u201c\u00e9 essencial, \u00e9 crucial\u201d. Pela arenga adotada, ficamos sabendo que a \u00fanica coisa considerada realmente importante pelos aspirantes ao cargo de guarda do butim \u00e9 o poder puro e simples. N\u00e3o se fala no pa\u00eds, como do Brasil fala Geraldo Vandr\u00e9 em sua entrevista, esta sim, fundamental, para o jornalista Geneton Moraes Neto na Globo News, a primeira que ele d\u00e1 em 40 anos de reclus\u00e3o e sil\u00eancio. Sob todos os aspectos, e principalmente nesta quadra da vida nacional, a fala de Vandr\u00e9 \u00e9, sen\u00e3o a mais importante manifesta\u00e7\u00e3o cultural da nossa \u00e9poca, seu discurso mais importante.<\/p>\n<p>Pelo que enfeixa em seu carisma e biografia, e pela manipula\u00e7\u00e3o que sofre at\u00e9 hoje a mem\u00f3ria e presen\u00e7a de sua obra, o depoimento de Vandr\u00e9 \u00e9 uma cole\u00e7\u00e3o de aparentes paradoxos. Um deles \u00e9 sua rela\u00e7\u00e3o com as For\u00e7as Armadas. Considerado um paradigma da luta anti-ditadura \u201cmilitar\u201d (que, como se sabe, era civil-militar), Vandr\u00e9 diz n\u00e3o ser um militarista, mas nunca foi anti-militarista. \u201cTodo pa\u00eds soberano tem suas For\u00e7as Armadas. O que vamos fazer com as nossas? Entregar para os estrangeiros? Acho que n\u00e3o\u201d. Eis o ponto focal de seu enredo, jamais compreendido pelos que o usaram quando comp\u00f5s e apresentou e fez sucesso nos festivais com suas m\u00fasicas \u00edcone, como a urbana Caminhando (com seu verso decisivo \u201cquem sabe faz a hora\u201d) ou a rural Disparada (feita em parceria com o m\u00fasico Theo de Barros).<\/p>\n<p>Ele deu a entrevista para Geneton num hotel, de direito privado, ligado ao \u201cex\u00e9rcito azul\u201d, como ele denomina a For\u00e7a A\u00e9rea Brasileira. O cantor e compositor que marcou seu tempo mostra sua liga\u00e7\u00e3o com um sonho de inf\u00e2ncia, o mais louco da experi\u00eancia humana, segundo sua avalia\u00e7\u00e3o, o de voar (aos 4 anos, quando explodiu a 2\u00aa Guerra Mundial, ele gostava de imitar o v\u00f4o de ca\u00e7as).<\/p>\n<p>A letra de Fabiana, o hino que comp\u00f4s para a FAB, demonstra esse amor de inspira\u00e7\u00e3o camoniana, em que, como \u00e9 a marca registrada de sua cria\u00e7\u00e3o, o enxugamento das palavras ganha grande intensidade po\u00e9tica pela m\u00fasica do texto e a sugest\u00e3o de suas poderosas imagens. \u201cPorque s\u00f3 tu soubeste enquanto infante\/ As luzes do luzir mais reluzente\/ Pertencer ao meu ser mais permanente\u201d s\u00e3o os versos finais de \u201cFabiana\u201d. \u201cMusicalmente \u00e9 uma valsa\u201d, disse ele em entrevista ao jornal paulistano Di\u00e1rio Popular (atual Di\u00e1rio de S\u00e3o Paulo) em 26 de julho de 1991.\u201cLiterariamente, comp\u00f5e de tr\u00eas estrofes de seis decass\u00edlabos e um refr\u00e3o de tr\u00eas versos de seis s\u00edlabas\u201d.<\/p>\n<p>O entrevistador insistiu em algumas perguntas chave, acumuladas em quatro d\u00e9cadas de sil\u00eancio. As respostas foram econ\u00f4micas, incisivas. \u201cFiquei fora dos acontecimentos\u201d, diz. \u201cAnistia \u00e9 para criminoso. Eu continuo no ex\u00edlio. Moro aqui, mas n\u00e3o voltei\u201d. Expulso do servi\u00e7o p\u00fablico devido \u00e0 sua can\u00e7\u00e3o considerada \u201cde protesto\u201d (o que ele contesta, pois protesto \u00e9 para quem n\u00e3o tem poder), ele recomp\u00f4s sua vida depois de ter voltado do ex\u00edlio. Deu em 1974 um depoimento imposto pela Pol\u00edcia Federal, um epis\u00f3dio que ele que prefere esquecer, j\u00e1 que, dizemos agora n\u00f3s, antes de ser um esqueleto no arm\u00e1rio, \u00e9 mais um ponto a favor da sua sobreviv\u00eancia f\u00edsica.<\/p>\n<p>Todos n\u00f3s nos adaptamos para ficarmos vivos. Os jornalistas trafegaram na estreita margem da censura e da auto-censura. Os artistas ou fora embora ou dan\u00e7aram conforme a m\u00fasica. Por que Vandr\u00e9 seria o \u00fanico a se insurgir contra a possibilidade de manter-se vivo? Deu seu depoimento falando a verdade (que foi editado e ele nunca viu a transmiss\u00e3o), pois nunca se considerou um pol\u00edtico nem fez parte de partido nenhum, apesar de ter sido usado at\u00e9 o osso por in\u00fameros partidos, principalmente os que depois alcan\u00e7aram o poder e o acesso ao tesouro nacional. Ele continuou mudo, conseguiu sua aposentadoria e vive dela dignamente, recusando-se a seguir uma carreira comercial.<\/p>\n<p>Para Vandr\u00e9, n\u00e3o existe no Brasil de hoje algo parecido com 40 anos atr\u00e1s, quando havia a possibilidade de algu\u00e9m ser um artista. Hoje tudo \u00e9 massificado. Vivemos em megal\u00f3poles que s\u00e3o a express\u00e3o de um genoc\u00eddio, segundo suas pr\u00f3prias palavras, pois expulsaram o povo do campo e o amontoaram em cidades invi\u00e1veis. \u201cQuando cheguei em S\u00e3o Paulo em 1961 (ele nasceu em Jo\u00e3o Pessoa, na Para\u00edba) existiam 4 milh\u00f5es de pessoas. Hoje s\u00e3o 16 milh\u00f5es. Tiraram o povo do interior para exportar alimento\u201d. Na sua can\u00e7\u00e3o Caminhando ele fala da \u201cfome em grandes planta\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Onde mora Vandr\u00e9 atualmente? pergunta Geneton. \u201cMoro no Brasil de 40 anos atr\u00e1s&#8221;, diz Vandr\u00e9. O entrevistador n\u00e3o entende e acha que se trata do \u00fanico habitante desse pa\u00eds que ele teria inventado. Engana-se. Vandr\u00e9 mora no mesmo pa\u00eds onde vivem milh\u00f5es de brasileiros, o Brasil assassinado. Quem n\u00e3o viu esse pa\u00eds n\u00e3o sabe do que se trata, avisa. Posso garantir, compatriota e conterr\u00e2neo Geraldo Vandr\u00e9: moro nesse mesmo lugar. N\u00e3o no passado, n\u00e3o na saudade, mas na real possibilidade da exist\u00eancia de um pa\u00eds soberano, orgulhoso de sua ra\u00edzes e cultura e que n\u00e3o se abaixava de maneira desavergonhada para o mercado, como acontece hoje.<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o fa\u00e7o qualquer coisa\u201d, diz Vandr\u00e9, que sonha com uma turn\u00ea pela Am\u00e9rica hisp\u00e2nica, j\u00e1 que no Brasil de hoje, esse massificado, \u00e9 imposs\u00edvel para ele mostrar sua grande arte. Um pa\u00eds que insiste em suas duas m\u00fasicas mais famosas e esquece que ele ama todas. Esse \u00e9 Vandr\u00e9, o cara que levantou o povo contra o Mal que se abateu sobre n\u00f3s e por isso pagou com a pr\u00f3pria vida. Foi sacrificado no altar da politicalha, ele que sempre foi apenas um grande artista e patriota. Duas coisas que hoje nos falta em todos os n\u00edveis e instantes.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o cidad\u00e3o integro, com voz do Brasil profundo, que foi um divisor de \u00e1guas na m\u00fasica brasileira. Ele nos trouxe o bom cantar, aquela express\u00e3o da voz que enche o peito e habita a alma, a mesma que hoje est\u00e1 atirada no ch\u00e3o da p\u00e1tria em ru\u00ednas.<\/p>\n<p>RETORNO &#8211; &#8220;GERALDO VANDR\u00c9: UM HOMEM \u00c0 ALTURA DE SEU MITO&#8221;<\/p>\n<p><em>Coment\u00e1rio de Andr\u00e9 Luiz Pinto<\/em><\/p>\n<p>A entrevista de Geraldo Vandr\u00e9 \u00e9 impressionante. Brilhante, Vandr\u00e9 soube desconcertar Geneton Moraes Neto. Camale\u00f4nico, Vandr\u00e9 n\u00e3o p\u00f4s propriamente as for\u00e7as armadas na berlinda, ainda que tenha confirmado o fato da volta ao Brasil e entrevista ter sido montada, por\u00e9m, antes, ele deixa claro, principalmente quando questiona a Globo de n\u00e3o ter o vt com suas imagens cantando &#8220;pra n\u00e3o dizer que falei das flores&#8221;, o quanto um golpe militar depende de inst\u00e2ncias civis. Sua cr\u00edtica \u00e0 no\u00e7\u00e3o de anistia pol\u00edtica no Brasil \u00e9 uma aula de direito.<\/p>\n<p>As palavras finais que foram postas na edi\u00e7\u00e3o da Globo News para explicar a personalidade de Geraldo Vandr\u00e9, a meu ver, al\u00e9m de demerit\u00f3rias, s\u00e3o p\u00edfias. Pelo contr\u00e1rio, o Brasil de que Vandr\u00e9 tratou fora o nosso, ainda que insuport\u00e1vel, tanto para ele quanto para n\u00f3s. Seja quando o compositor fala de massifica\u00e7\u00e3o, seja quando fala dos amontoados urbanos. Se existe um pa\u00eds de um s\u00f3 habitante, n\u00e3o \u00e9 o de Geraldo, mas daqueles que encobrem o pr\u00f3prio erro.(<em> Andr\u00e9 Luiz Pint<\/em>o)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Nos debates dos candidatos, a toda hora aparece a express\u00e3o \u201c\u00e9 fundamental\u201d, com seus clones \u201c\u00e9 essencial, \u00e9 crucial\u201d. Pela arenga adotada, ficamos sabendo que a \u00fanica coisa considerada realmente importante pelos aspirantes ao cargo de guarda do butim \u00e9 o poder puro e simples. N\u00e3o se fala no pa\u00eds, como do Brasil [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[12],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2335"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2335"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2335\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2336,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2335\/revisions\/2336"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2335"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2335"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2335"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}