{"id":2340,"date":"2010-09-29T10:51:18","date_gmt":"2010-09-29T13:51:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2340"},"modified":"2010-09-29T10:51:18","modified_gmt":"2010-09-29T13:51:18","slug":"sunshine-cleaning-depois-da-perda","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/sunshine-cleaning-depois-da-perda","title":{"rendered":"SUNSHINE CLEANING: DEPOIS DA PERDA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>O que acontece depois de uma trag\u00e9dia, uma perda importante, que deixa marcas profundas? O sofrimento continua e pode condenar os sobreviventes. \u00c9 preciso limpar o ferimento, cicatriz\u00e1-lo e seguir em frente. Miss\u00e3o t\u00e3o \u00f3bvia quanto quase imposs\u00edvel. Qual o caminho encontrado por duas irm\u00e3s \u00f3rf\u00e3s de m\u00e3e suicida, desempregadas, uma delas m\u00e3e solteira, com um pai vi\u00favo que hoje \u00e9 um av\u00f4 exc\u00eantrico? A solu\u00e7\u00e3o que o destino colocou nas suas m\u00e3os foi fundar uma empresa de limpeza para a pol\u00edcia, tirar as manchas de assassinatos e suic\u00eddios. Por mais \u00e1rduo que fosse o trabalho, era uma sa\u00edda, por ser bem pago.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o tema de Sunshine Cleaning (2008), da cineasta neozelandeza Christine Jeffs (a mesma de Sylvia, de 2003, o drama do casal de poetas ingleses), com roteiro da escritora (revela\u00e7\u00e3o desde 2005) Megan Holleyu. O filme faz parte da sele\u00e7\u00e3o do Sundance, o grande evento do cinema alternativo criado por Robert Redford, e est\u00e1 sendo apresentado atualmente no Festival do Rio 2010.<\/p>\n<p>A narrativa \u00e9 uma busca da outra metade, interpretada por um elenco da pesada: a m\u00e3e solteira (Amy Adams) que procura um marido, o menino (Jason Spevack) que sonha em ter um pai, a do vi\u00favo (Alan Arkin) que procura uma ocupa\u00e7\u00e3o rent\u00e1vel e lamenta a dureza de criar duas filhas sozinho, a do policial (Steve Zahn )em busca de uma sa\u00edda para a rotina do casamento, a do propriet\u00e1rio de uma loja de limpeza (Clifton Collins Jr.), que perdeu o bra\u00e7o esquerdo e quer fazer do seu hobby de aeromodelismo (a outra metade, sufocada, da sua personalidade) uma atividade remunerada, a irm\u00e3 desastrada (Emily Blunt) que procura, em v\u00e3o, identificar-se com algu\u00e9m com a mesma experi\u00eancia da sua dor (a mulher que tenta ajudar levando o retrato da m\u00e3e morta n\u00e3o queria nada com a mem\u00f3ria dessa liga\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>Mas a busca principal, a ess\u00eancia dessa trama, est\u00e1 relacionada com o cinema. As irm\u00e3s pesquisam nos filmes apresentados na televis\u00e3o a participa\u00e7\u00e3o da m\u00e3e, que se matou numa banheira, como coadjuvante de um filme rodado na cidade onde moravam. \u00c9 s\u00f3 uma fala, de uma gar\u00e7onete que oferece torta de nozes para um cliente. Um detalhe que elas n\u00e3o conseguem localizar na grande massa da produ\u00e7\u00e3o audiovisual que toma conta de tudo. Nessa oferta abundante, elas fazem quest\u00e3o apenas de um minuto de filme, l\u00e1 onde a m\u00e3e desaparecida aparece em sua juventude e beleza, falando uma frase para a posteridade.<\/p>\n<p>O encontro emocionante das filhas com a cena enfim localizada revela a grandeza de quem perdeu algo importante demais e passou a vida buscando uma compensa\u00e7\u00e3o, uma pista, um rastro da pessoa amada, para que aquele sentimento, aquela responsabilidade da liga\u00e7\u00e3o afetiva e familiar, n\u00e3o se perca no universo hostil, onde predominam as profiss\u00f5es partidas, os casamentos desfeitos, os empregos alienantes, as acomoda\u00e7\u00f5es, o preconceito, a falta de solidariedade e a viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Ficar ao lado da idosa que perdeu o marido que tamb\u00e9m se suicidou \u00e9 mais uma cena tocante protagonizada pela empreendedora da limpeza, que no seu trabalho encontra a miss\u00e3o de consolar as v\u00edtimas, ela que por tanto tempo amargou sua perda sem sentido.<\/p>\n<p>Essa capacidade de recupera\u00e7\u00e3o que o cinema americano exibe em todas as suas produ\u00e7\u00f5es, que \u00e9 o tema recorrente da segunda chance, com final sen\u00e3o feliz pelo menos mais positivo em rela\u00e7\u00e3o ao in\u00edcio, \u00e9 que enche a alma do espectador, que vive num mundo de perdas indissol\u00faveis. Na fic\u00e7\u00e3o podemos rearrumar a casa, reencontrar o que se foi, nos consolar, sem obrigatoriamente nos alienar. Precisamos inventar as solu\u00e7\u00f5es para que possamos morar nelas. \u00c9 o que fazem os personagens deste filme admir\u00e1vel.<\/p>\n<p>Todos os atores e atrizes est\u00e3o \u00f3timos, mas os destaques s\u00e3o para Emily Blunt (desesperadamente talentosa), Alan Arkin (o genail veterano de Wait Until Dark, de 1967, quando fez um vil\u00e3o que atormentava Audrey Hepburn) e Clifton Collins Jr., que brilhou em Capote, de 2005, como o assassino que conta sua hist\u00f3ria. Collins brilhou tamb\u00e9m em Traffic, de 2000, e \u00e9 neto do ator, humorista e dan\u00e7arino mexicano Pedro Gonz\u00e1les Gonz\u00e1les, por sua vez c\u00e9lebre em pontas de filmes famosos, como Rio Bravo, de 1959.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s O que acontece depois de uma trag\u00e9dia, uma perda importante, que deixa marcas profundas? 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