{"id":2345,"date":"2010-10-10T13:24:11","date_gmt":"2010-10-10T16:24:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2345"},"modified":"2010-10-10T13:24:11","modified_gmt":"2010-10-10T16:24:11","slug":"republicas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/republicas","title":{"rendered":"REP\u00daBLICAS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nDepois que sa\u00ed de Uruguaiana, longe da casa paterna, morei em v\u00e1rias rep\u00fablicas. Todas elas deixam marcas e lembran\u00e7as. Na primeira, em Porto Alegre, eu era uma esp\u00e9cie de agregado, j\u00e1 que a turma n\u00e3o pertencia \u00e0 minha gera\u00e7\u00e3o. Estavam todos formados ou no \u00faltimo ano da faculdade, enquanto eu ainda era um pr\u00e9-vestibulando. Estava l\u00e1 por obra de parentes, que se condoeram da minha situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria de novato em vida adulta.<\/p>\n<p>Entre as personalidades que trafegavam pelo grande apartamento, normalmente vazio o dia todo, tinha cantor de \u00f3pera que treinava no chuveiro e um advogado nordestino eloq\u00fcente que estudava com afinco para juiz. Na sexta-feira da Paix\u00e3o, o caus\u00eddico enrolava-se num cobertor e chorava copiosamente em homenagem a Jesus Cristo. O cantor procurava um espa\u00e7o nas raras montagens oper\u00edsticas da capital e normalmente ficava nervoso com interfer\u00eancias e exigia respeito pelo vozeir\u00e3o que atravessava as paredes e batia nos paralelep\u00edpedos da rua.<\/p>\n<p>Na segunda rep\u00fablica onde morei, os personagens n\u00e3o ficavam atr\u00e1s. Tinha marxista militante bamba no viol\u00e3o, com quem compus algumas can\u00e7\u00f5es (que ele, 30 anos depois, esqueceu!), um ex-banc\u00e1rio trint\u00e3o que jogara o emprego para o alto e curtia um 1968 b\u00e1sico junto com a mo\u00e7ada, um futuro romancista avesso a badala\u00e7\u00f5es e uma fauna variada de visitantes, vindos primeiro da faculdade e depois da periferia da capital, gente que trazia o rock and roll para dentro de um templo bossanovista. A MPB era hegem\u00f4nica, gra\u00e7as ao marxismo pregado todas as horas do dia, em conversas intermin\u00e1veis em que eu boiava solenemente.<\/p>\n<p>Mais tarde, j\u00e1 fora da universidade, participei de uma rep\u00fablica de jornalistas em Blumenau, situada num casar\u00e3o decadente que apelidamos de Mans\u00e3o, bem ao lado do jornal onde trabalh\u00e1vamos. Era uma misturada s\u00f3 de fechamentos e refei\u00e7\u00f5es. Claro que, j\u00e1 taludos, nos aborrecemos mutuamente e cada um foi procurar um novo acampamento. Uma parte da turma conseguiu escapar para outro im\u00f3vel grande, de dois pisos, com espa\u00e7o aumentado pelo fato de n\u00e3o ter m\u00f3vel algum. Nosso senhorio era um distinto senhor negro criado por alem\u00e3es, que conversava com aquele sotaque carregado de Berlim oriental. Ach\u00e1vamos normal. Sempre estivemos no Brasil.<\/p>\n<p>Naqueles idos, em que o regime pol\u00edtico significava tortura, morte e ex\u00edlio e onde viv\u00edamos de escrever, algo bizarro no pa\u00eds que se tornava cada vez mais \u00e1grafo e intolerante, as rep\u00fablicas tinham um pacto de sobreviv\u00eancia. Perseguidos aportavam na madrugada trazendo panfletos e novidades das mobiliza\u00e7\u00f5es. Estrangeiros vindos da Am\u00e9rica e Europa compartilhavam o mesmo terror de ser muito mo\u00e7o num tempo mau (Nixon era presidente e havia o Vietn\u00e3!).<\/p>\n<p>Devido aos longos per\u00edodos de desemprego, nunca t\u00ednhamos dinheiro e sa\u00edamos em bandos a tentar viver at\u00e9 o pr\u00f3ximo amanhecer. Na fila dos restaurantes universit\u00e1rios, caprich\u00e1vamos na sugest\u00e3o de investimento em nossa refei\u00e7\u00e3o, no que seriam amplamente recompensados mais tarde. Quando pintava sal\u00e1rio, t\u00ednhamos conta em restaurante caro e praticamente receb\u00edamos para honrar esse compromisso absurdo para p\u00e9s rapados convictos.<\/p>\n<p>Foi bom? T\u00ednhamos 20 anos de idade! \u00d4 tempo.<\/p>\n<p><em>Cr\u00f4nica publicada na edi\u00e7\u00e3o 310 do jornal Momento de Uruguaiana na coluna Jornalismo Liter\u00e1rio <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Depois que sa\u00ed de Uruguaiana, longe da casa paterna, morei em v\u00e1rias rep\u00fablicas. Todas elas deixam marcas e lembran\u00e7as. Na primeira, em Porto Alegre, eu era uma esp\u00e9cie de agregado, j\u00e1 que a turma n\u00e3o pertencia \u00e0 minha gera\u00e7\u00e3o. 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