{"id":2347,"date":"2010-10-10T13:26:09","date_gmt":"2010-10-10T16:26:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2347"},"modified":"2010-10-10T13:26:09","modified_gmt":"2010-10-10T16:26:09","slug":"half-moon-a-morte-na-outra-metade","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/half-moon-a-morte-na-outra-metade","title":{"rendered":"HALF MOON: A MORTE NA OUTRA METADE"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\n\u201cSe eu aceitasse a censura do governo, seria um funcion\u00e1rio, n\u00e3o um cineasta\u201d, diz Bahman Ghobadi, diretor do filme <em>Half Moon <\/em>(2006), ou Meia Lua, mais um filme seu banido pelo regime de Teer\u00e3 (id\u00eantico ao &#8220;Ningu\u00e9m sabe sobre os gatos Persas&#8221;, j\u00e1 comentado aqui). Na mesma entrevista ele lamenta ter podado sua obra para tentar passar pela censura. Em v\u00e3o. Perdeu seu tempo e deixou o filme com menos intensidade do que deveria. N\u00e3o importa. Half Moon \u00e9 um assombro de S\u00e9tima Arte.<\/p>\n<p>S\u00f3 a cena em que Mamo, o compositor e cantor do Curdist\u00e3o banido pelo Iraque, chega na aldeia das montanhas em busca da a voz feminina para a apresenta\u00e7\u00e3o que far\u00e1 junto com os filhos, numa celebra\u00e7\u00e3o da m\u00fasica perdida de sua na\u00e7\u00e3o, vale um s\u00e9culo de cinema. Centenas de mulheres com seus vestidos coloridos empunham enormes tambores redondos, que vibram \u00e0 passagem do mestre que veio de longe resgatar a outra metade, a que lhe falta, sem a qual n\u00e3o ser\u00e1 completo. Ele ent\u00e3o passa com a eleita pelo meio da multid\u00e3o feminina, que deixa qualquer timbalada no chinelo com seu ritmo de gala. \u00c9 de fazer chorar as pedras. Nada h\u00e1 o que se compare a esse momento cinematogr\u00e1fico.<\/p>\n<p>A metade que falta \u00e9, dada as circunst\u00e2ncias, uma representa\u00e7\u00e3o da morte. \u00c9 a garota chamada Meia Lua que o leva para o meio da neve para enfim morrer, sem ter chegado ao seu destino, que n\u00e3o se cumpre. Sua cultura pode acabar com ele, mas h\u00e1 uma chance: abra\u00e7ado ao pap\u00e9is onde est\u00e3o registradas suas composi\u00e7\u00f5es, ele deixa o legado para os filhos instrumentistas. Eles levar\u00e3o adiante esse recado de um mundo perdido. Mamo n\u00e3o se conforma com o sil\u00eancio a que foi confinado e por isso grita para os vales e montanhas da estrada que n\u00e3o desistir\u00e1 da viagem, apesar de todos as profecias amea\u00e7adoras.<\/p>\n<p>\u00c9 um road movies onde todos os problemas assomam para a troupe que precisa esconder seus instrumentos musicais, pois o Ir\u00e3 pro\u00edbe a m\u00fasica, e a mulher que vai com eles, pois o Ir\u00e3 pro\u00edbe que mulheres se apresentem em p\u00fablico. Trata-se uma civiliza\u00e7\u00e3o doente (apoiada por nossa ditadura atual), que confina o som da emo\u00e7\u00e3o e da ancestralidade e deixa de lado exatamente a metade da humanidade, a mulher. Assim como fazemos por aqui: matamos nossos talentos na inf\u00e2ncia e se sobreviverem ficar\u00e3o \u00e0 margem para que a mediocridade gritante sufoque a melodia, a harmonia, a maestria e a grandeza. Somos hoje o ru\u00eddo e nossa m\u00fasica medra nas catacumbas, enquanto os espertalh\u00f5es broncos fingem que s\u00e3o artistas.<\/p>\n<p>Ghobadi sente medo da morte, presente em sua terra (ele \u00e9 curdo, da minoria massacrada), do seu pa\u00eds (que frauda elei\u00e7\u00f5es, como estamos cansados de saber) e da sua regi\u00e3o (o \u00f3dio m\u00fatuo entre \u00e1rabes e judeus). Sente-se exausto com esse medo, que transparece em sua obra, principalmente neste filme, que versa sobre a morte. O velho Mamo cospe sangue na neve enquanto \u00e9 levado para seu caix\u00e3o, implorando para ser levado at\u00e9 onde o p\u00fablico, em v\u00e3o, o espera. Na sua viagem, ele viu como o povo o idolatra e como ele \u00e9 recebido como um her\u00f3i nacional por expressar a identidade perdida de uma cultura que se supera pela voz e alma de filhos ilustres.<\/p>\n<p>Half Moon, filme do cineasta que luta contra os poderes opressivos onde vive, com a coragem poss\u00edvel e necess\u00e1ria, \u00e9 uma li\u00e7\u00e3o para n\u00f3s, desfalcados tamb\u00e9m de nossa outra metade: o Brasil soberano , que nos falta e nos escapa pelos dedos como areia fina do deserto.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso dizer tamb\u00e9m que Half Moon \u00e9 sobre cinema. Pois o filme registra o que escapa \u00e0 c\u00e2mara de um dos filhos de Mamo, que est\u00e1 descarregada. Ele tentou filmar a viagem, mas n\u00e3o conseguiu. Fica a obra de Ghobadi, den\u00fancia e arte suprema, para encanto dos espectadores e esperan\u00e7a de que o cinema continua vivo, apesar de tudo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s \u201cSe eu aceitasse a censura do governo, seria um funcion\u00e1rio, n\u00e3o um cineasta\u201d, diz Bahman Ghobadi, diretor do filme Half Moon (2006), ou Meia Lua, mais um filme seu banido pelo regime de Teer\u00e3 (id\u00eantico ao &#8220;Ningu\u00e9m sabe sobre os gatos Persas&#8221;, j\u00e1 comentado aqui). Na mesma entrevista ele lamenta ter podado sua [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2347"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2347"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2347\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2348,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2347\/revisions\/2348"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2347"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2347"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2347"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}