{"id":235,"date":"2005-05-30T16:46:04","date_gmt":"2005-05-30T18:46:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=235"},"modified":"2009-12-20T23:47:45","modified_gmt":"2009-12-21T01:47:45","slug":"o-serao-de-bras-cubas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-serao-de-bras-cubas","title":{"rendered":"O SER\u00c3O DE BR\u00c1S CUBAS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>O filme de Andr\u00e9 Klotzel baseado em Machado de Assis transforma as mem\u00f3rias p\u00f3stumas do anti-her\u00f3i numa sess\u00e3o de slides, num \u00e1lbum de fotografias, narrado por um anfitri\u00e3o brechtiano, que desdramatiza a pr\u00f3pria vida pela t\u00e9cnica do distanciamento, usada de maneira igualmente magistral em outro cl\u00e1ssico do cinema brasileiro, <em>Os Inconfidentes<\/em>, de Joaquim Pedro de Andrade. Como nos ser\u00f5es antigos, o objetivo aparente \u00e9 entreter, mas o resultado \u00e9 cinema de primeira \u00e1gua, inspirado na m\u00e1xima machadiana: \u201cmatamos o tempo, o tempo nos enterra\u201d.<\/p>\n<p><strong>APAR\u00caNCIAS<\/strong> &#8211; O Brasil \u00e9 um milagre cultural. <em>Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas<\/em> tem tudo de \u201canti-cinema\u201d \u2013 o oposto do cinema americano. \u00c9 narrado o tempo todo, os di\u00e1logos vestem a camisa-de-for\u00e7a do velho romantismo, os personagens n\u00e3o trabalham nem movem montanhas, apenas nascem e morrem, enquanto passam a vida numa modorra de sesta. Ou seja, n\u00e3o h\u00e1, aparentemente, \u201ca\u00e7\u00e3o\u201d. \u00c0 parte isso, \u00e9 absolutamente deslumbrante. N\u00e3o pela sucess\u00e3o de imagens maravilhosas, pelo figurino caprichado, pela conten\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica \u2013 e nisso os atores todos s\u00e3o perfeitos, desde Reginaldo Farias, o defunto narrador, at\u00e9 Sonia Braga, a amante cara, uma atriz de presen\u00e7a sempre marcante nos filmes brasileiros e totalmente desperdi\u00e7ada nos estrangeiros, que a submeteram a pap\u00e9is rid\u00edculos ditados pelo preconceito.<\/p>\n<p>O filme \u00e9 primoroso porque inventa sua pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o, promovida pela autocr\u00edtica, pelo desabafo, pelo al\u00edvio de n\u00e3o fazer parte dos vivos. O pa\u00eds que exclui a todos \u00e9 o pa\u00eds exclu\u00eddo. Aceitar o abandono \u00e9 libertar-se. Livre de qualquer injun\u00e7\u00e3o do movimento, Br\u00e1s Cubas volta-se para seu pr\u00f3prio nariz e faz uma pesquisa minuciosa do seu corpo, que denuncia o frio mortal, a palidez, o sufoco. Sua vis\u00e3o antropol\u00f3gica encara cada parte do corpo como um personagem: as m\u00e3os, no ritual lit\u00fargico do humanitismo de Quincas Borba; as pernas, que decidem lev\u00e1-lo para longe; o andar coxo da adolescente, marca da desgra\u00e7a e de mais exclus\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse mural humano, a coletividade se identifica pela contrafa\u00e7\u00e3o. As partes originais do corpo s\u00e3o substitu\u00eddas por suas representa\u00e7\u00f5es &#8211; roupas e outras apar\u00eancias: as botas francesas, os coletes, os casacos, as j\u00f3ias, os penteados, as costeletas. E por efeito domin\u00f3, os cargos, a orat\u00f3ria, a pompa. Tudo isso des\u00e1gua na melancolia incur\u00e1vel, que obriga Br\u00e1s Cubas a ter a id\u00e9ia fixa do emplasto que ir\u00e1 salvar a si e ao resto da humanidade da qual faz parte.<\/p>\n<p><strong>MATO CERRADO<\/strong> &#8211; O filme aborda a indiferen\u00e7a como segunda natureza de uma na\u00e7\u00e3o em desuso, composta de ru\u00ednas, de ruas sujas e paredes feias, de escravos por toda a parte, de ostenta\u00e7\u00e3o como verniz da mis\u00e9ria. A radiografia de Machado serve ainda para nosso tempo, afirma cinematograficamente Klotzel. Somos indiferentes profissionais, da\u00ed a ciclotimia. Ou ficamos euf\u00f3ricos, ou melanc\u00f3licos. N\u00e3o h\u00e1 normalidade no pa\u00eds, apenas a prorroga\u00e7\u00e3o da sesta e a v\u00e9spera do esc\u00e2ndalo. Esse \u00e9 o perfil que Sergio Buarque de Holanda batizou de cordialidade, ou seja, o comportamento ditado pelo cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A falta de solidez no tr\u00f3pico \u00famido, onde um vento encanado mata em pleno ver\u00e3o, reflete-se na nossa cultura totalmente \u00e0 merc\u00ea do que vem de fora. Br\u00e1s Cubas, o filme, recupera essa vis\u00e3o cr\u00edtica num clima de vig\u00edlia, aquele estado intermedi\u00e1rio entre o despertar e o sono, porta de entrada para a magia, as vis\u00f5es, os mundos paralelos, conforme ensinou Juan Mattus para Carlos Ara\u00f1a Casta\u00f1eda. Nos movimentamos em mundos inventados para n\u00e3o despertar totalmente.<\/p>\n<p>O filme assim, sem pretens\u00e3o de ser vanguarda, utiliza metodologia inovadora para, didaticamente, encher a paci\u00eancia do caro espectador. A toda hora, o narrador lembra que estamos na poltrona, acomodados, im\u00f3veis. \u00c9 a nossa imobilidade que se projeta no filme, que nos devolve uma obra que \u00e9 um desfile de fantasias, pontuado pela compet\u00eancia rigorosa de um cineasta maior, que dirige grandes atores. Estes, concentram a verdadeira a\u00e7\u00e3o do filme: o da arte como desbravadora da consci\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O filme de Andr\u00e9 Klotzel baseado em Machado de Assis transforma as mem\u00f3rias p\u00f3stumas do anti-her\u00f3i numa sess\u00e3o de slides, num \u00e1lbum de fotografias, narrado por um anfitri\u00e3o brechtiano, que desdramatiza a pr\u00f3pria vida pela t\u00e9cnica do distanciamento, usada de maneira igualmente magistral em outro cl\u00e1ssico do cinema brasileiro, Os Inconfidentes, de Joaquim Pedro de Andrade.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/235"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=235"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/235\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":237,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/235\/revisions\/237"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=235"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=235"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=235"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}