{"id":2351,"date":"2010-10-10T13:29:57","date_gmt":"2010-10-10T16:29:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2351"},"modified":"2010-10-10T13:29:57","modified_gmt":"2010-10-10T16:29:57","slug":"robin-hood-de-ridley-scott-anacronismo-e-legitimidade","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/robin-hood-de-ridley-scott-anacronismo-e-legitimidade","title":{"rendered":"ROBIN HOOD, DE RIDLEY SCOTT: ANACRONISMO E LEGITIMIDADE"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>A liberdade de cria\u00e7\u00e3o ilumina tudo, n\u00e3o apenas os assuntos que aborda, mas principalmente sua pr\u00f3pria narrativa. Em Robin Hood (2010), de Ridley Scott, o roteiro e os componentes visuais est\u00e3o dispostos para que a estrutura e a a\u00e7\u00e3o da saga atinjam a ess\u00eancia da arte de contar uma hist\u00f3ria por meio do cinema. O tema \u00e9 a origem do mito, do ladr\u00e3o que se dedica \u00e0 nobreza do car\u00e1ter ao tirar dos ricos para distribuir entre os pobres. Mas num gesto de anacronismo (ver o passado com os olhos do presente) o objeto \u00e9 a base da sociedade democr\u00e1tica, que tenta conquistar na luta contra o inimigo comum o direito de limitar os poderes do rei.<\/p>\n<p>Vale tudo na compet\u00eancia do script, a cargo de um craque, Brian Helgeland, o mesmo de O Menino com Lobos, de Clint Eastwood, Zona Verde, de Paul Greengrass, Los Angeles &#8211; Cidade Proibida, de Curtis Hanson, entre outros. Vale imitar O Mais Longo dos Dias ou O Resgate do Soldado Ryan, filmando um desembarque na Normandia em plena Idade M\u00e9dia, com direito a grandes barcos que despejam soldados, como nesses filmes de Segunda Guerra Mundial. Vale transformar as festas da ro\u00e7a numa rave urbana, com direito \u00e0 anima\u00e7\u00e3o visigoda dos atuais baticuns. E vale colocar o amor rom\u00e2ntico do s\u00e9culo 19 alguns s\u00e9culos antes, desde que os excepcionais Russel Crowe, no papel de Robin Hood, e Cate Blanchet, no de Marion, possam repassar alguma autenticidade no relacionamento entre estranhos, que aprendem a se aproximar no meio da carnificina geral.<\/p>\n<p>E vale, principalmente, para denunciar o massacre de civis no Oriente M\u00e9dio, na cena em que o futuro proscrito peita o rei Ricardo Cora\u00e7\u00e3o de Le\u00e3o (interpretado por Danny Huston) apontando a mortandade de inimigos desarmados como a fonte da ilegitimidade do poder e da trai\u00e7\u00e3o a um destino que poderia ser de gl\u00f3rias. Tentar fazer do trono uma fonte legitima de poder \u00e9 a luta desenvolvida no filme, n\u00e3o apenas no front de batalhas cheias de truques armamentistas falsos, mas eficientes, s\u00f3 compar\u00e1veis em inventividade com o \u00e9pico chin\u00eas Confucius, de Mei Hu, mas tamb\u00e9m no exerc\u00edcio da pol\u00edtica, a cargo dos amigos William Hurt, no papel do chanceler, e Max Von Sydow (presen\u00e7a marcante, como sempre e, pela idade avan\u00e7ada, emocionante) no do castel\u00e3o que perdeu o filho na cruzada e est\u00e1 em busca de um herdeiro substituto.<\/p>\n<p>Robin assume uma identidade falsa e se passa como cavaleiro para poder voltar com riquezas e prest\u00edgio, mas essa sua artimanha \u00e9 apenas a casca de uma obra verdadeira, a de recuperar a vida na terra abandonada e de engrossar as fileiras da resist\u00eancia inglesa, sob as ordens do trono manchado de sangue pelo novo rei John, diante da invas\u00e3o francesa. Sabemos assim, pela fic\u00e7\u00e3o delirante de Scott, algo sobre a disputa da Normandia por duas na\u00e7\u00f5es, al\u00e9m das origens do mito. O hero\u00edsmo \u00e9 apenas a met\u00e1fora de algo maior, a grandeza de personagens comuns que, pelas circunst\u00e2ncias, transcendem suas biografias ao se colocarem no miolo do grande drama nacional.<\/p>\n<p>Quem nos dera dispormos dessa liberdade de cria\u00e7\u00e3o para abordar nosso hero\u00edsmo, t\u00e3o abandonado e sepultado por outro anacronismo, mais nefasto. Pois ao deixarmos de lado o acervo das lutas contra os inimigos da na\u00e7\u00e3o, fazemos com que os palha\u00e7os do circo hist\u00f3rico, os desconstrutores da auto-estima coletiva, amealhem fortunas contando anedotas como se fossem verdades, sobre o sacrif\u00edcio de gera\u00e7\u00f5es na constru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Scott sabe que uma guerra errada no Iraque fere profundamente o sentimento de perten\u00e7a tanto nos Estados Unidos quanto na Inglaterra. Por isso usa a lenda para dar um recado atual, a de que se deve encarar de frente o erro para n\u00e3o perder o principal que \u00e9 a unidade da na\u00e7\u00e3o, garantia de sobreviv\u00eancia dos cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>Ms \u00e9 tudo s\u00f3 espet\u00e1culo!, dir\u00e3o. Poderia ser, se n\u00e3o fosse Ridley Scott, que jamais brinca em servi\u00e7o. Ele \u00e9 um cineasta brilhante e competente. Pode cometer erros, mas sua dire\u00e7\u00e3o garante normalmente um grande filme. \u00c9 o caso de Robin Hood. Apaixone-se pela guerreira Marion, que tenta vingar o pai vestindo elmo e armadura. E admire o l\u00edder que acabou sendo marginalizado por um rei insano. Lute com o velho cego diante do vil\u00e3o e engrosse a fileira de arqueiros que brindam os invasores com uma chuva de flechas. Seja espectador da S\u00e9tima Arte, seja her\u00f3i.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s A liberdade de cria\u00e7\u00e3o ilumina tudo, n\u00e3o apenas os assuntos que aborda, mas principalmente sua pr\u00f3pria narrativa. Em Robin Hood (2010), de Ridley Scott, o roteiro e os componentes visuais est\u00e3o dispostos para que a estrutura e a a\u00e7\u00e3o da saga atinjam a ess\u00eancia da arte de contar uma hist\u00f3ria por meio do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2351"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2351"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2351\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2352,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2351\/revisions\/2352"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2351"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2351"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2351"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}