{"id":2362,"date":"2010-10-26T19:12:53","date_gmt":"2010-10-26T21:12:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2362"},"modified":"2010-10-26T19:13:31","modified_gmt":"2010-10-26T21:13:31","slug":"supernova","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/supernova","title":{"rendered":"SUPERNOVA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nA literatura s\u00e3o janelas abertas para mundos que sobrevivem na mem\u00f3ria dos que j\u00e1 foram. \u00c9 como raio que incide no interior de uma bolha isolada de todas as outras. Vemos cadeiras em varanda, c\u00e3es em quintal, cavalos no horizonte, latas velhas empilhadas num canto, crian\u00e7as em volta de algu\u00e9m, uma cidade inteira olhando para o alto para ver uma estrela de dia, numa \u00e9poca em que sat\u00e9lite artificial era novidade. Vemos bandeiras sendo carregadas em desfile e uma prosa no balc\u00e3o de pedra, em armaz\u00e9m encardido, l\u00e1 onde todos perderam as botas.<\/p>\n<p>Mas nem tudo \u00e9 ancestralidade. Vemos viagens animadas de m\u00e9dicos mo\u00e7os a trabalhar em situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia, plugados em aplicativos de alta tecnologia, a compartilhar decis\u00f5es sobre pandemias e salva\u00e7\u00f5es enquanto o clima ou o desgoverno empurra multid\u00f5es de um lado para outro, na terra cada vez mais prenhe de desertos. Somos capazes de ouvir o grito das mulheres alertando sobre a chegada de provimentos num reduto de ex\u00edlios.<\/p>\n<p>Somos assim, vistos pela literatura, habitantes de uma cidade s\u00f3, de um continente \u00fanico, caminhando por cal\u00e7adas que se ligam entre uma parte e outra do sistema planet\u00e1rio. \u00c9 assim que nos transformamos pela m\u00e3o dos narradores: somos rastros luminosos no tempo a costurar espa\u00e7os que n\u00e3o se conhecem.<\/p>\n<p>Por isso quando abrimos um livro bom de ler nos encontramos como Borges naquele sub\u00farbio long\u00ednquo, imut\u00e1vel durante um s\u00e9culo, que l\u00e1 estava \u00e0 revelia do observador. Este, poderia sumir com sua desimport\u00e2ncia, que a vida daquela parte da cidade de muros derrubados, batida pelo vento e a chuva, e o sol que trafegava em sil\u00eancio em liquens e portais, nem se mexeria. Talvez a vida seja essa percep\u00e7\u00e3o de que vivemos \u00e0 margem de algo maior que n\u00e3o nos enxerga e por isso carregamos esse ar triste, como se f\u00f4ssemos arlequins em ressaca tardia depois de um baile onde conhecemos finalmente o primeiro amor.<\/p>\n<p>Esse amor se foi junto com a alvorada e arrastamos a in\u00fatil fantasia por entre passantes indiferentes ao sofrimento dos trespassados pela noite. Aportamos saudosos de uma \u00e9poca vivida e temos de recome\u00e7ar cada segundo, com a cara lavada e o sonho cerzido na alma pobre. N\u00e3o possu\u00edmos essa pose que faz a gl\u00f3ria das imagens estampadas nas m\u00eddias de luxo, mas aspergimos alguma gra\u00e7a como p\u00e1ssaros assustados numa primavera que enfim chegou.<\/p>\n<p>No fundo era sobre isso que eu queria falar: a chegada da esta\u00e7\u00e3o mais bela, quando temos enfim uma tr\u00e9gua entre o frio que nos castigou e o ver\u00e3o que ir\u00e1 nos sobressaltar. \u00c9 o momento de olhar para o c\u00e9u, como faziam os antigos. Procuramos um sinal de que o universo \u00e9 algo id\u00eantico ao que criamos em nossa literatura. Pois ele se divide entre muitas moradas, para que todas usufruam do amor correspondido de uma divindade que sabia bem o que estava fazendo quando decidiu sair daquela semente que explodiu como uma supernova. Foi quando ele inventou a tarde clara diante do pampa ou do mar, esses irm\u00e3os g\u00eameos da nossa alegria.<br \/>\n<em><br \/>\nCr\u00f4nica publicada originalmente no jornal Momento de Uruguaiana<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s A literatura s\u00e3o janelas abertas para mundos que sobrevivem na mem\u00f3ria dos que j\u00e1 foram. \u00c9 como raio que incide no interior de uma bolha isolada de todas as outras. 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