{"id":2365,"date":"2010-10-26T19:14:55","date_gmt":"2010-10-26T21:14:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2365"},"modified":"2010-10-26T19:14:55","modified_gmt":"2010-10-26T21:14:55","slug":"texto-e-musica","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/texto-e-musica","title":{"rendered":"TEXTO \u00c9 M\u00daSICA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nEscrever n\u00e3o \u00e9 ter o que dizer, \u00e9 fazer m\u00fasica. N\u00e3o \u00e9 convidar \u00e0 reflex\u00e3o, recordar, exibir malabarismo ou m\u00e1gica. Falo de melodia, harmonia, arranjos, improvisos, e n\u00e3o a barb\u00e1rie do baticum, hip hop, rap ou esse pop esgani\u00e7ado, espichado e intermin\u00e1vel que nos torturam em supermercados. Escrever pode ser barulho, mas n\u00e3o ru\u00eddo. H\u00e1 diferen\u00e7a: barulho tem tambor, pratos, metais; ru\u00eddo \u00e9 porta que range, vibrato de serra el\u00e9trica, distor\u00e7\u00e3o vocal fanha.<\/p>\n<p>Um texto obedece a uma partitura e conecta com a transcend\u00eancia. Lemos porque queremos algo dele e n\u00e3o para admirar o escritor. Portanto, n\u00e3o faz sentido o Vargas Llosa vir para o Brasil fazer pose, como se fosse obriga\u00e7\u00e3o agora achar que ele \u00e9 o m\u00e1ximo. Veio elogiar seus patr\u00f5es, os especuladores financeiros, ao dizer um \u201cbom garoto\u201d para a pol\u00edtica econ\u00f4mica do governo e dar tapinha na cabe\u00e7a dos escritores brasileiros, condescendendo que dever\u00edamos tamb\u00e9m, quenemque ele, ganhar o Nobel de Literatura (ah, a falsidade).<\/p>\n<p>Llosa chupou descaradamente o Euclides da Cunha, roubando-lhe a hist\u00f3ria de Os Sert\u00f5es com A Guerra do Fim do Mundo, e teve a ousadia de cit\u00e1-lo, junto com Jorjamado e Guimar\u00e3es Rosa, como merecedores do pr\u00eamio, como se fossem os \u00fanicos. Esqueceu de Drummond de Andrade e Jo\u00e3o Cabral. Ou Erico Ver\u00edssimo, que \u00e9 infinitamente superior a ele, Llosa.<\/p>\n<p>Escrever n\u00e3o \u00e9 contar hist\u00f3rias, isso at\u00e9 o Z\u00e9 das Couves faz como ningu\u00e9m. Por n\u00e3o ser do ramo, Llosa acha que escritor escreve e fica deitando prosa sobre isso, sentado em suas celebradas obras, quando se sabe que quem escreve \u00e9 escriba, redator, escriv\u00e3o ou escrevente. O escritor \u00e9 um compositor como Verdi, um inventor de mundos sonoros representados pela palavra oral ou escrita. Escritores geniais como Homero ou Cristo nunca escreveram nada. Deixaram isso para os que fazem cara de produ\u00e7\u00e3o de pensamento diante da folha ou tela em branco, ou ditam confer\u00eancias pelo mundo afora defendendo os pa\u00edses ricos, esses modelos da Democracia Pura.<\/p>\n<p>Basta ver o trabalho de um ator. Ele busca a sonoridade e interpreta o texto de ouvido. Muito ator nem l\u00ea o script, ele fareja a m\u00fasica que h\u00e1 nele. N\u00e3o adianta, portanto, ficar pontificando sobre essa coisa fant\u00e1stica que \u00e9 ser um oper\u00e1rio das palavras, para pobres estudantes que nada tem a ver com isso. Depois se queixam que a meninada n\u00e3o quer saber de ler. Claro, ensinam tudo errado. Voc\u00ea n\u00e3o fica falando como voc\u00ea tecla e como desde criancinha voc\u00ea tem teclado. Isso \u00e9 absolutamente aborrecido. Voc\u00ea d\u00e1 Terra dos Homens, de Saint-Exupery, ou Causos do Romualdo, de Sim\u00f5es Lopes Neto, ou Ca\u00e7adas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, para ele ler. Para Proust e Conrad, \u00e9 um pulo.<\/p>\n<p>Mas se voc\u00ea d\u00e1 abobrinha em forma de literatura infantil, livrecos comerciais metidos a besta, os deslumbra com porcarias, ele desova em auto-ajuda e acha que a sabedoria est\u00e1 numa frase falsa de Einstein. Voc\u00ea d\u00e1 Mark Twain, o Lobato original (o publicado na Era Vargas, n\u00e3o esse desvirtuado pela Globo) e todos aqueles livros para crian\u00e7as, que os grandes escritores, de Mario Quintana a Cec\u00edlia Meirelles, inventaram. N\u00e3o d\u00e1 escribazinho de \u00faltima categoria para o guri ler, d\u00e1 logo o Sonho de Uma Noite de ver\u00e3o ou Romeu e Julieta.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que est\u00e3o mais preocupados agora em ensinar as crian\u00e7as a n\u00e3o ter preconceito de g\u00eanero do que ser alfabetizadas ou dominar as quatro opera\u00e7\u00f5es. Querem formar um pa\u00eds de palha\u00e7os e n\u00e3o cidad\u00e3os de vida plena. As pessoas procuram nos livros de literatura n\u00e3o o que eles precisam saber, mas o que neles podem encant\u00e1-los. Para saber tem de estudar \u00e1lgebra, Hist\u00f3ria, Geografia. Para mergulhar num conto, cr\u00f4nica, poema ou romance \u00e9 preciso que o autor seja de primeira grandeza.<\/p>\n<p>Autores verdadeiros s\u00e3o raros e est\u00e3o sufocados pela brutalidade geral. Temos engolidores de fogo, vendeiros, domadores de feras, trapezistas, mas poucos escritores de verdade. Eles s\u00e3o escassos, como estrelas em dia de tempestade. Precisamos colh\u00ea-los abaixo de chuva, guiados pelo instinto de sobreviv\u00eancia, ouvindo o canto que se desprende das esferas. L\u00e1, onde a coruja pia e a serenidade do talento bebe \u00e1gua.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Escrever n\u00e3o \u00e9 ter o que dizer, \u00e9 fazer m\u00fasica. N\u00e3o \u00e9 convidar \u00e0 reflex\u00e3o, recordar, exibir malabarismo ou m\u00e1gica. Falo de melodia, harmonia, arranjos, improvisos, e n\u00e3o a barb\u00e1rie do baticum, hip hop, rap ou esse pop esgani\u00e7ado, espichado e intermin\u00e1vel que nos torturam em supermercados. 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