{"id":2378,"date":"2010-10-26T19:29:59","date_gmt":"2010-10-26T21:29:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2378"},"modified":"2010-10-26T19:29:59","modified_gmt":"2010-10-26T21:29:59","slug":"privilegio","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/privilegio","title":{"rendered":"PRIVIL\u00c9GIO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nO tempo \u00e9 o privil\u00e9gio da mem\u00f3ria. O rel\u00f3gio de pl\u00e1stico, redondo, com tr\u00eas pequenos p\u00e9s em cima do criado-mudo. Ou o de p\u00eandulo, a tocar gravemente as horas em salas pontuadas por sof\u00e1s ancestrais, onde descansam croch\u00eas, almofadas de tecido fosco, e cortinas como velas de navio. As venezianas onde chispas de luz escapavam nas tardes de ver\u00e3o. Tetos de pinturas desmaiadas, manchas que encardiam o olhar quando n\u00e3o havia mais sono. E a solid\u00e3o das primaveras hostis batendo nos portais.<\/p>\n<p>Depois da chuva, barcos encharcados de papel jaziam nas sarjetas, impossibilitados de continuar viagem at\u00e9 o pedregulho das ruas pr\u00f3ximas, onde morava a popula\u00e7\u00e3o ribeirinha, a mesma que nos recebia com festa quando desov\u00e1vamos sacos enormes de peixes, que a rede de tr\u00eas panos tinha colhido em excesso. Havia aqueles cinamomos, e eucaliptos mais antigos do que a inf\u00e2ncia dos av\u00f3s, que jamais conheci.<\/p>\n<p>\u00c9 um privil\u00e9gio n\u00e3o porque nos torna diferentes dos outros, de viv\u00eancias mais curtas e talvez n\u00e3o t\u00e3o intensas. Mas porque hoje, quando se debru\u00e7am sobre \u00e9pocas e tocam objetos sem valor, temos essa liga\u00e7\u00e3o profunda com os detalhes da cidade t\u00e3o real que evaporou conforme evoluiu a idade. Ficamos longe desse barro original, e do sopro que a emo\u00e7\u00e3o nos insuflou enquanto cresc\u00edamos como palmeiras ambulantes.<\/p>\n<p>Nossos cabelos rebeldes soltavam tufos de espirais projetadas pela cabe\u00e7a raspada a m\u00e1quina zero. Arrast\u00e1vamos nossas primeiras cal\u00e7as compridas de brim coringa e lev\u00e1vamos pentes de osso para aprimorarmos penteados inexistentes para nos preparar diante da proximidade, sempre remota, das gurias.<\/p>\n<p>Quando me perguntam sobre o passado, disfar\u00e7o. N\u00e3o posso falar sobre o confort\u00e1vel carro Austin que tinha estribo e enorme r\u00e1dio a bordo. Dos fiambres devorados nas temporadas de ca\u00e7a, enquanto os mais velhos miravam em perdizes que matraqueavam os segundos desesperadas. N\u00e3o posso aperfei\u00e7oar mais a maneira de falar das coisas que me fizeram como sou antes da tampa voar como panela cozinhando no fogo esquecido pelos maus elementos das pescarias.<\/p>\n<p>Ela rolou l\u00e1 para baixo, onde moram as piavas, que fazem zigue zague na lembran\u00e7a, como os cabelos da mo\u00e7a ao vento, que enfim nos olha. E isso sim era o verdadeiro privil\u00e9gio.<\/p>\n<p><em>Cr\u00f4nica publicada no dia 26 de outubro de 2010, no caderno Variedades, do Di\u00e1rio Catarinense<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s O tempo \u00e9 o privil\u00e9gio da mem\u00f3ria. O rel\u00f3gio de pl\u00e1stico, redondo, com tr\u00eas pequenos p\u00e9s em cima do criado-mudo. Ou o de p\u00eandulo, a tocar gravemente as horas em salas pontuadas por sof\u00e1s ancestrais, onde descansam croch\u00eas, almofadas de tecido fosco, e cortinas como velas de navio. As venezianas onde chispas de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2378"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2378"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2378\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2380,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2378\/revisions\/2380"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2378"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2378"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2378"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}