{"id":238,"date":"2005-05-30T16:52:06","date_gmt":"2005-05-30T18:52:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=238"},"modified":"2009-12-21T01:01:09","modified_gmt":"2009-12-21T03:01:09","slug":"aquele-cinema-oculto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/aquele-cinema-oculto","title":{"rendered":"AQUELE CINEMA OCULTO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>A arte da luz entra no buraco negro do tempo. Aos cinco anos, me levam para um lugar escuro, onde apareciam rostos gigantescos, que tomavam conta de uma parede. Fui informado antes: &#8220;vais te assustar!&#8221; Cumpri a advert\u00eancia e tiveram que me tirar no meio da sess\u00e3o. Aconteceu no cine-theatro Carlos Gomes, que me ofereceu, na placa comemorativa, o primeiro desafio da linguagem: &#8220;a Carlos Gomes&#8221;, dizia a homenagem. Como aquele bigode todo do maestro poderia ter um substantivo feminino na frente? A estranha preposi\u00e7\u00e3o, que vestia a roupa da primeira letra do alfabeto, assim como os filmes que sumiram no espa\u00e7o, permaneceram misteriosos por muito tempo.<\/p>\n<p><strong>A BOBAGEM NO PODER<\/strong> -Quando falei em Maciste aqui em casa, a meninada achou gra\u00e7a. Nem acreditavam que existira um H\u00e9rcules italiano que puxava um navio, a partir da praia, s\u00f3 com os dentes. &#8220;\u00c9 muita bobagem&#8221;, diziam, diante dessa s\u00fabita apari\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria. Meu segundo filme, o primeiro colorido, aconteceu no cinema vizinho, o &#8220;novo&#8221; &#8211; para diferenciar do Carlos Gomes, teatro que existia desde o s\u00e9culo 19 e nos anos 40 foi reformado para se adaptar aos tempos cinematogr\u00e1ficos. O Novo ganhou o apelido do dono, Corbacho.<\/p>\n<p>Esse filme foi basicamente uma cena &#8211; entrei no meio da sess\u00e3o &#8211; em que uma carro\u00e7a da cavalaria americana era empurrada pelos soldados em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 areia movedi\u00e7a. Entrei na hora do ataque dos \u00edndios. Lembro dos bravos rapazes genocidas ca\u00edrem como moscas, apertando no peito flechas rid\u00edculas, que pareciam penas de ganso &#8211; \u00e9 pura verdade. Descobri assim, de cara, que era tudo mentira no cinema. Nosso senso cr\u00edtico da fronteira jamais poderia aceitar semelhante excentricidade.<\/p>\n<p>Mas o incr\u00edvel foi que ao longo daqueles anos, aceitei de tudo &#8211; e reproduzia junto com a gurizada as principais cenas, especialmente as do ataque a carruagens, que tinha o pr\u00eamio extra, s\u00f3 no cinema, da mocinha agradecida. Crescido, assisti a todas as asneiras que passavam, de filmes argentinos, mexicanos, franceses, italianos, espanh\u00f3is, brasileiros e at\u00e9 mesmo americanos.<\/p>\n<p>Vi Rastros de \u00f3dio, a obra-prima absoluta, aos 14 anos e fiquei acachapado na cadeira com a cena em que John Wayne abre a porta para retirar-se para sempre no deserto, naquele andar capenga que fez hist\u00f3ria. S\u00f3 depois em Porto Alegre, quando aderi momentaneamente \u00e0 moda da cinefilia, descobri que era de Ford.<\/p>\n<p><strong>TIROS EM GRANDE OTELO<\/strong> &#8211; Os filmes eram divididos em g\u00eaneros bem espec\u00edficos. Existiam os filmes dos lenhadores canadenses, sempre de camisas quadriculadas &#8211; de flanela ou l\u00e3 &#8211; n\u00e3o estou brincando. Havia uma s\u00e9rie de filmes ingleses em preto e branco em que o Alec Guiness era o anti-her\u00f3i permanente. Vi todos e s\u00f3 lembro o ator maravilhoso tropicando pelas ruas londrinas, mais nada. Nos faroestes, havia um g\u00eanero em que aparecia sempre o mesmo her\u00f3i (interpretado por um jovem Jim Davis, o do sorriso maroto), que usava uma farda toda cheia de bot\u00e3o, dividido em duas hist\u00f3rias completamente diferentes uma da outra. Cham\u00e1vamos esse g\u00eanero de &#8220;o abotoado dos dois filmes&#8221;. Para quem, como n\u00f3s, n\u00e3o dispunha de nenhuma informa\u00e7\u00e3o sobre o que v\u00edamos, adapt\u00e1vamos a ind\u00fastria do cinema ao nosso vasto mundo da cidade isolada do pampa. O pior \u00e9 que at\u00e9 hoje nada sei sobre a maioria do que vi na \u00e9poca.<\/p>\n<p>Juro que assisti um filme em que o Grande Otelo foi assassinado pelos bandidos. Otelo urrava de dor &#8211; era uma sess\u00e3o vespertina &#8211; e fiquei chocado: nunca mais veria nosso ator favorito na tela. N\u00e3o v\u00ea que o estavam matando? Esse filme tinha tamb\u00e9m Oscarito. Os dois faziam pap\u00e9is duplos. Cada um era bonzinho e mau ao mesmo tempo. Duas duplas opostas. Pois o grande Otelo foi assassinado. Que filme \u00e9 esse? Ningu\u00e9m fala, ningu\u00e9m sabe. E juro que eu vi. O cinema brasileiro atra\u00eda p\u00fablicos gigantescos. As filas dobravam a esquina. Multid\u00f5es iam ver as trapalhadas dos comediantes, os beijos das hero\u00ednas, as cantorias carnavalescas. Era uma festa. Nos faroestes, havia sempre um palha\u00e7o a quem cham\u00e1vamos de Bobota. Quem \u00e9 o Bobota de Rex Allen? E o do Roy Rogers? Oscarito e Grande Otelo, ing\u00eanuos mas muito malandros, jamais eram chamados de bobotas. Isso era para americano trouxa. T\u00ednhamos respeito pelos nossos g\u00eanios.<\/p>\n<p><strong>CHAMUCHALEI<\/strong> -A\u00ed um belo dia, os filmes perderam completamente o sentido. Atores de olhos parados, nenhuma a\u00e7\u00e3o. Antonioni, Godard, Glauber. As pessoas sa\u00edam aos berros do cinema. O Processo, de Orson Welles, considerado sem p\u00e9 nem cabe\u00e7a (vi d\u00fazias de vezes) quase provocou uma revolu\u00e7\u00e3o. Como eu j\u00e1 estava querendo me livrar das pris\u00f5es mentais da fronteira, via mais de uma vez, para tentar entender. N\u00e3o entendia. S\u00f3 meu amigo Gilberto Gick, pr\u00edncipe da minha gera\u00e7\u00e3o e que Deus o tenha, sa\u00eda dos filmes do Godard na maior cara de pau fazendo ru\u00eddo com a garganta de &#8220;huh&#8221;, com ag\u00e1s aspirados. &#8220;Huh, entendi&#8221;, dizia ele, sacudindo a cabe\u00e7a afirmativamente e olhando para todos. Era o sarro que tirava dos pseudo, os que achavam que entendiam tudo. Ningu\u00e9m sabia de nada. Mas aquela ruptura nos tirou do buraco negro da sandice divertida. O pa\u00eds e o mundo tinham mudado. Era o in\u00edcio sinistro dos 60. Est\u00e1vamos, sem saber, prontos para o tempo mau que se aproximava. Nele at\u00e9 hoje estamos mergulhados. Aquele cinema oculto \u00e9 o Mundo Perdido. Us\u00e1vamos cal\u00e7as curtas, cabelo escovinha, rev\u00f3lveres e cavalos de madeira. Fal\u00e1vamos uma l\u00edngua intrincada, adaptada dos ru\u00eddos que ouv\u00edamos nas falas dos filmes.<\/p>\n<p>&#8220;Chamuchalei&#8221;, por exemplo, era m\u00e3os-ao-alto. N\u00e3o me perguntem por qu\u00ea. Tamb\u00e9m o Mundo Perdido era dif\u00edcil de entender.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A arte da luz entra no buraco negro do tempo. Aos cinco anos, me levam para um lugar escuro, onde apareciam rostos gigantescos, que tomavam conta de uma parede. 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