{"id":2394,"date":"2010-11-11T10:47:30","date_gmt":"2010-11-11T12:47:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2394"},"modified":"2010-11-11T10:47:30","modified_gmt":"2010-11-11T12:47:30","slug":"paz-e-chao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/paz-e-chao","title":{"rendered":"PAZ \u00c9 CH\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nQuando morava no ru\u00eddo, no ronco da megal\u00f3pole, toda vez que escapava para o litoral eu conseguia dormir horas seguidas como se estivesse raspando o ch\u00e3o com as m\u00e3os, enquanto o corpo ficava suspenso numa atmosfera l\u00edquida e ritmada. Acordava novo, em paz. N\u00e3o era um sonho, mas uma sensa\u00e7\u00e3o. Quem mora fora da brutalidade urbana intumescida por d\u00e9cadas de pol\u00edtica econ\u00f4mica ruim, que atraiu o pa\u00eds inteiro para algumas manchas urbanas doentes, sabe do que se trata. A terra guarda um abismo de serenidade perdida para sempre. Busc\u00e1-la por meio da trilha, do acampamento, da pescaria, da temporada na praia ou mesmo da mudan\u00e7a definitiva para lugares remotos, \u00e9 uma forma de recuperar o que existe por direito e que foi usurpado. Pelo menos, esse direito n\u00e3o pode ser contestado.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma capa de asfalto e brita impedindo que a planta do p\u00e9 encontre sua base. A ansiedade que isso provoca produz sequelas. Quando milh\u00f5es de pessoas saem \u00e0s ruas portando rel\u00f3gio no pulso para contar minutos ou batimentos card\u00edacos, envergando roupas industriais e cal\u00e7ando inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas, me limito a lembrar os quintais, que faziam parte das casas e que hoje foram erradicados pela especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, que toma conta de parques, orlas, montanhas, planaltos, cal\u00e7adas.<\/p>\n<p>Aqui onde eu moro, a tend\u00eancia \u00e9 construir min\u00fasculos apartamentos amontoados, tendo ao redor uma farta e generosa natureza. Em tese, existe espa\u00e7o de sobra, mas providenciaram para que n\u00e3o haja nada para pedestres, n\u00e3o apenas nas avenidas (com algumas exce\u00e7\u00f5es), mas principalmente nas ruas e ruelas, ou servid\u00f5es, como s\u00e3o chamadas. Sair de casa tem sido um transtorno, pois os carros se amontoam no espa\u00e7o que sobrou. N\u00e3o fosse o autom\u00f3vel algo t\u00e3o poderoso e precioso para a sociedade do espet\u00e1culo e do arrocho, at\u00e9 mesmo onde eles trafegam seria tomado pela trena carn\u00edvora da metragem quadrada vendida a ouro. Num prai\u00e3o como este, n\u00e3o h\u00e1 um s\u00f3 play-ground. Mas existem bairros-cemit\u00e9rios aguardando os turistas que chegam aqui disputando a areia cada vez mais escassa.<\/p>\n<p>Neste ano o mar avan\u00e7ou em toda a ilha. A faixa que existia entre a rua e o mar diminuiu brutalmente. As ondas mastigam a praia com apetite. Colocam a culpa na gan\u00e2ncia de dominar a beira, enchendo de biroscas e privatizando o que deveria ser de uso geral. Outros dizem que as \u00e1guas salgadas aumentaram seu volume em todo o mundo gra\u00e7as ao tal aquecimento global, e que aqui \u00e9 s\u00f3 um reflexo. Tenho outra percep\u00e7\u00e3o, mas sempre acusam teorias fora do esquema como sendo de conspira\u00e7\u00e3o. Desconfio que o uso sistem\u00e1tico de armas clim\u00e1ticas, que desestabilizou o clima definitivamente desde o terremoto (provocado?) do Haiti, fez com que tudo ficasse anormal. Desandou, como se tivessem mexido nos fundamentos dessa harmonia a que me refiro quando nos retiramos para o ermo em busca de descanso.<\/p>\n<p>Somado com a viol\u00eancia disseminada, h\u00e1 grandes chances de n\u00e3o reatarmos com o cosmo, como costum\u00e1vamos fazer. Mas ontem a estrela V\u00e9sper surgiu solit\u00e1ria num entardecer dourado e azul. Fiz um pedido. Quem sabe poderemos retomar a vida saud\u00e1vel que foi perdida?<\/p>\n<p><em>Cr\u00f4nica publicada no jornal Momento de Uruguaiana, edi\u00e7\u00e3o n\u00famero 314<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Quando morava no ru\u00eddo, no ronco da megal\u00f3pole, toda vez que escapava para o litoral eu conseguia dormir horas seguidas como se estivesse raspando o ch\u00e3o com as m\u00e3os, enquanto o corpo ficava suspenso numa atmosfera l\u00edquida e ritmada. Acordava novo, em paz. N\u00e3o era um sonho, mas uma sensa\u00e7\u00e3o. Quem mora fora [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2394"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2394"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2394\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2396,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2394\/revisions\/2396"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2394"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2394"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2394"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}