{"id":24,"date":"2005-05-13T21:12:45","date_gmt":"2005-05-13T23:12:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=24"},"modified":"2009-12-20T20:40:20","modified_gmt":"2009-12-20T22:40:20","slug":"donaldo-schuller-as-armadilhas-de-um-professor-de-vanguarda","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/donaldo-schuller-as-armadilhas-de-um-professor-de-vanguarda","title":{"rendered":"Donaldo Sch\u00fcller: As armadilhas de um professor de vanguarda"},"content":{"rendered":"<p><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/icons\/donald.jpg\" alt=\"revista Rep\u00fablica\" \/><br \/>\nO professor de vanguarda Donaldo Sch\u00fcler, quando anda nas ruas da sua linguagem, cai em in\u00fameras armadilhas. Uma delas \u00e9 &#8220;celebrar a morte do autor&#8221;, como diz num dos seus textos-manifesto (&#8221; Fim do s\u00e9culo: espanto, p\u00e2nico, pane&#8221;, de 1996) enquanto entrega-se ao resgate de James Joyce, o irland\u00eas que &#8221; despeda\u00e7a a frase inglesa, a l\u00edngua do dominador&#8221;. Sua tradu\u00e7\u00e3o dos primeiros quatro cap\u00edtulos de Finnegans Wake, que est\u00e1 sendo lan\u00e7ado nesta primavera pela pequena editora Ateli\u00ea, de S\u00e3o Paulo, \u00e9 pura celebra\u00e7\u00e3o do mais not\u00f3rio esp\u00e9cime do grande terremoto cultural das primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo, quando um punhado de autores, a exemplo dos renascentistas, incendiaram a cultura a partir da fric\u00e7\u00e3o com todos os cl\u00e1ssicos.<\/p>\n<p>Ulisses, her\u00f3i m\u00edtico que est\u00e1 na raiz do nome de Lisboa (como lembrou Lu\u00eds Fernando Ver\u00edssimo em recente cr\u00f4nica), virou s\u00edmbolo da palavra despeda\u00e7ada e fisgou o ent\u00e3o jovem professor de Porto Alegre. Pegando carona na viagem dos concretistas de S\u00e3o Paulo, navegou na tradu\u00e7\u00e3o que Antonio Houaiss fez da obra maior de Joyce, nos abcs de Ezra Pound e na prega\u00e7\u00e3o dos irm\u00e3os Campos. Lecionando Literatura Grega e Teoria Liter\u00e1ria nos anos 60, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, engajou-se ent\u00e3o no estudo comparado desses trabalhos e hoje, j\u00e1 aposentado, carrega uma nuvem de alunos semin\u00e1rios afora, disseminando o desconforto que \u00e9 aliar-se \u00e0s rupturas da vanguarda e, ao mesmo tempo, a uma tradi\u00e7\u00e3o brasileira que a seu ver \u00e9 muito pouco reconhecida.<\/p>\n<p>Fincado nessa regi\u00e3o nebulosa conhecida pelos paulistas como &#8220;Sul&#8221; (inven\u00e7\u00e3o que aproxima o norte do Paran\u00e1 com a fronteira ga\u00facha e coloca Gramado como capital de um territ\u00f3rio que possivelmente come\u00e7a um pouco adiante do rio Pinheiros), ele atua nas bordas polares \u2013 e revolucion\u00e1rias &#8211; de um pa\u00eds que se enxerga totalmente tropical. Donaldo Sch\u00fcler se coloca como aliado de uma linhagem anti-rom\u00e2ntica que vem desde a boca aterradora de Greg\u00f3rio de Matos, passa pelas Cartas Chilenas de Tom\u00e1s Ant\u00f4nio Gonzaga, depura-se na ef\u00edgie machadiana e ganha impulso com Oswald de Andrade e a educa\u00e7\u00e3o pela pedra do engenheiro Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto.<\/p>\n<p>\u00c9 essa l\u00f3gica cultural que ele carrega nos estudos que promove, enquanto caminha para a tradu\u00e7\u00e3o do resto de Finnegans Wake &#8211; um livro que tem 628 p\u00e1ginas e 17 cap\u00edtulos \u2013 e que ser\u00e1 lan\u00e7ado por partes nos pr\u00f3ximos quatro anos. \u00c9 diferente, no seu entender, dos trechos traduzidos por Haroldo de Campos, mais po\u00e9ticos. No seu trabalho, Sch\u00fcler procura manter-se fiel \u00e0 narrativa do texto original.<\/p>\n<p>O que ele pretende, entre outras coisas, \u00e9 celebrar os 500 anos do Brasil destacando essa heran\u00e7a, para se insurgir contra o saudosismo dominante e assim atender \u00e0 demanda do pr\u00f3prio brasileiro. O cultivo da ironia, do sentimento de liberdade, da pol\u00eamica, da luta contra a m\u00e3o pesada do oficialismo, que no seu entender conforma o perfil verdadeiro do habitante do pa\u00eds-continente, \u00e9 que deve ser a flor dessa dilacera\u00e7\u00e3o temporal que \u00e9 a virada do mil\u00eanio. Contra o acomodamento da Hist\u00f3ria, girando fora da roda paradis\u00edaca, ele prop\u00f5e a guerrilha da linguagem, negando assim o esp\u00edrito que, nestas comemora\u00e7\u00f5es, vai cometer o crime de trazer a bordo de uma nau a figura \u00ednclita de um ministro portugu\u00eas \u2013 reitera\u00e7\u00e3o f\u00edsica da submiss\u00e3o diante dos colonizadores.<\/p>\n<p>A reboque dessa convoca\u00e7\u00e3o insurgente, pode-se lembrar que o principal aspecto da obra de S\u00e9rgio Buarque de Holanda \u2013 que denunciou na sua obra maior, &#8220;Vis\u00e3o do Para\u00edso&#8221;, a imposi\u00e7\u00e3o conceitual que o europeu fez das terras ignotas, &#8211; \u00e9 exatamente a contribui\u00e7\u00e3o ind\u00edgena para a sobreviv\u00eancia humana no Brasil. N\u00e3o fosse o \u00edndio, o estrangeiro n\u00e3o teria podido cultivar, achar ouro, andar e viver nesta peda\u00e7o de terra situado al\u00e9m dos limites do mar portugu\u00eas.<\/p>\n<p>A longa disserta\u00e7\u00e3o de Sch\u00fcler sobre a Carta de Pero Vaz de Caminha (&#8220;A ret\u00f3rica da subordina\u00e7\u00e3o e da insubordina\u00e7\u00e3o da carta do achamento&#8221;, de 1998) aponta as ra\u00edzes e desdobramentos da miss\u00e3o fundadora da terra de Santa cruz a favor do estranhamento cultural. Primeiro, ele destaca a import\u00e2ncia do texto seminal \u2013 que manteve-se intacto, ao contr\u00e1rio do que aconteceu com os di\u00e1rios de Colombo e as narrativas de Am\u00e9rico Vesp\u00facio \u2013 ter sido escrito em portugu\u00eas, e n\u00e3o em latim, num v\u00ednculo orat\u00f3rio e quase \u00edntimo do escrevinhador com o Rei D. Manuel. E, sendo do ramo epistolar, o identifica com a fragmenta\u00e7\u00e3o do saber (outra armadilha em que cai o professor de vanguarda, que guarda um saber s\u00f3lido, abrangente e unificador). A carta de Caminha \u00e9 exemplar da &#8220;emerg\u00eancia do indiv\u00edduo contra a cultura an\u00f4nima e coletiva&#8221; do fim da Idade M\u00e9dia. &#8220;A carta de Caminha vem de um outro mundo, de um novo mundo embebido de exotismo, esperan\u00e7a e sonhos. A correspond\u00eancia dos navegadores abala pretens\u00f5es de saber total. Quem atravessa o mar traz informa\u00e7\u00f5es \u00fanicas.&#8221;<\/p>\n<p>As impress\u00f5es pessoais, a linguagem pict\u00f3rica, as informa\u00e7\u00f5es e opini\u00f5es do missivista, a pr\u00f3pria forma da letra desenhada, fazem o professor de vanguarda viajar pelo texto em busca de novos desdobramentos, que passam por Derrida, Foucault e, claro, pelos cl\u00e1ssicos: &#8220;Caminha n\u00e3o elaborou o elenco das nega\u00e7\u00f5es firmado s\u00f3 na observa\u00e7\u00e3o; norteava-se tamb\u00e9m pelo esquema m\u00edtico das Metamorfoses de Ov\u00eddio&#8221;. Sua an\u00e1lise des\u00e1gua no resgate que Oswald de Andrade fez dos descobrimentos e o car\u00e1ter desestabilizador que esta parte do mundo promove em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cultura dos &#8220;descobridores&#8221;.<\/p>\n<p>Invertendo assim o enfoque do ato de descobrir, Sch\u00fcler revela-se um agente da descentraliza\u00e7\u00e3o cultural. \u00c9 esse caos gerador de novas linguagens que pode ser comparado a Finnegans Wake. Sua explica\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo do livro \u00e9 um exemplar desse met\u00f3dico del\u00edrio, de fundas ra\u00edzes eruditas: &#8220;wake&#8221; pode estar relacionado tanto ao ato de acordar quanto ao de morrer. O despertar e o funeral d\u00e3o-se aos m\u00e3os para acompanhar o m\u00faltiplo significado de Finnegans. Este, \u00e9 nome de um pedreiro, personagem de can\u00e7\u00f5es populares da Irlanda, e tamb\u00e9m uma combina\u00e7\u00e3o do her\u00f3i m\u00edtico Finn, da Irlanda, mais a palavra &#8220;again&#8221; (de novo). O her\u00f3i renova-se na alma popular quando o autor fricciona o acordar da vanguarda com a morte da tradi\u00e7\u00e3o. O her\u00f3i reencarna depois que a tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 assassinada. A vanguarda nasce quando algu\u00e9m visita a cultura cl\u00e1ssica e dela arranca o fogo sagrado.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso f\u00edgado para aguentar o repuxo: todos os dias, a oposi\u00e7\u00e3o vem comer o autor amarrado que roubou a luz da morada dos deuses. Donaldo Sch\u00fcler, felizmente, vive num pa\u00eds que, ao submeter -se ao lixo cultural, costuma dar sempre sinais de vitalidade antropof\u00e1gica. Basta ver o fasc\u00ednio que desperta seu trabalho, tanto entre seus alunos, quanto na m\u00eddia e na comunidade intelectual de todo o Pa\u00eds.<\/p>\n<p>Ao fazer desse tempo de armadilhas e paradoxos a sua morada, ele habita o n\u00e3o-lugar da cultura que desengajou-se para renascer. A exemplo dos her\u00f3is m\u00edticos, ele fica \u00e0 deriva no mar de an\u00e1lises a que seu trabalho \u00e9 submetido. Inclusive da abordagem que a imprensa pode fazer dessa rebeldia. Esse \u00e9 um ataque que costuma ser traum\u00e1tico, feito \u00e0 sua revelia, apesar da boa vontade demonstrada nas paisagens sugeridas pelo telefone, quando deu suas entrevistas para este texto. E tamb\u00e9m apesar das imagens que gerou ao caminhar pelas ruas da uma cidade que \u00e9 tamb\u00e9m pura linguagem e que procura saciar sua fome de renascimento.<\/p>\n<p>Na sua vis\u00e3o, \u00e9 obriga\u00e7\u00e3o dos intelectuais brasileiros atender \u00e0 demanda desse despertar cr\u00edtico que assola surdamente o Brasil, nos por\u00f5es do acomodamento fict\u00edcio da cultura e da comunica\u00e7\u00e3o amorda\u00e7adas. Ele prop\u00f5e a retomada dos cl\u00e1ssicos citando os serm\u00f5es de Vieira, incentiva o embate contra o romantismo e solicita a mesma for\u00e7a que um dia fez os navegadores lan\u00e7arem-se ao mar. Seu del\u00edrio \u00e9 feito de in\u00fameras cordas. E suas armadilhas s\u00e3o generosamente repartidas entre todos.<\/p>\n<p><em>publicado originalmente na revista &#8220;REB\u00daBLICA&#8221; , n\u00ba 36, em outubro de 1999<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Donaldo Sch\u00fcler, com sua tradu\u00e7\u00e3o de Finnegans Wake, de James Joyce, prop\u00f5e a insubordina\u00e7\u00e3o da linguagem, para fazer justi\u00e7a a uma linhagem da cultura brasileira, que pulsa nos por\u00f5es da cultura amorda\u00e7ada.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[10],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1398,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24\/revisions\/1398"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}