{"id":2403,"date":"2010-11-11T10:56:22","date_gmt":"2010-11-11T12:56:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2403"},"modified":"2010-11-11T10:57:18","modified_gmt":"2010-11-11T12:57:18","slug":"o-massacre-como-narrativa","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-massacre-como-narrativa","title":{"rendered":"O MASSACRE COMO NARRATIVA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><br \/>\nA primeira edi\u00e7\u00e3o brasileira do cl\u00e1ssico argentino <strong><em>Opera\u00e7\u00e3o Massacre,<\/em><\/strong> de <em>Rodolfo Walsh<\/em> (1927-1977), escrito e lan\u00e7ado sucessivamente a partir de 1957 (teve quase 40 edi\u00e7\u00f5es) , acumula as v\u00e1rias camadas de uma narrativa: a do escritor de romance policial que substituiu a fic\u00e7\u00e3o para investigar um caso concreto, e nele enterrou sua vida, deixando um rastro de testemunhos pessoais sobre o trabalho do escritor e seu objeto. Trata-se da vers\u00e3o final do livro e de seus pr\u00f3logos, ep\u00edlogos e ap\u00eandices publicados ao longo dos anos, que aos poucos recortam o caminho percorrido pelas palavras em busca do inacess\u00edvel, o fato, que sempre \u00e9 capturado como vers\u00e3o.<\/p>\n<p>Costumam lembrar A Sangue Frio, de Truman Capote, escrito dez anos depois. Mas prefiro resgatar Rota 66, de Caco Barcelos, pela proximidade da metodologia: a minuciosa busca de provas e o cruzamento de informa\u00e7\u00f5es e testemunhos para se chegar \u00e0 revela\u00e7\u00e3o de que o Estado policial se move pela injusti\u00e7a e tudo faz para acobertar, justificar e premiar os criminosos, passando ao largo da tradi\u00e7\u00e3o judicial, dos instrumentos civilizat\u00f3rios e at\u00e9 mesmo dos arremedos de democracia.<\/p>\n<p>O livro \u00e9 sobre si mesmo: como compor um texto que traga \u00e0 luz a barb\u00e1rie cometida contra 12 argentinos inocentes, fuzilados no calor de uma contra-revolu\u00e7\u00e3o derrotada, a que tentou restaurar o peronismo nove meses depois do golpe que afastou o l\u00edder do poder. Levados para um lix\u00e3o na periferia de Buenos Aires, no mais completo breu, foram fuzilados \u00e0 luz dos far\u00f3is de uma velha camioneta policial, o que facilitou a fuga de sete sobreviventes. Recompor o evento e seguir os passos de cada um dos personagens, descobrindo como morreram ou conseguiram evitar a morte, foi o trabalho de Walsh, que na \u00e9poca tinha apenas 29 anos.<\/p>\n<p>Apaixonado pela literatura pretensamente fundada por Edgar Alan Poe, Walsh tinha descoberto antecedentes ilustres dos investigadores d crimes, enxergando no Livro de Daniel, da B\u00edblia, a semente do g\u00eanero que no s\u00e9culo 19 virou arte liter\u00e1ria. Era um especialista e tinha j\u00e1 publicado, al\u00e9m de v\u00e1rios contos, uma antologia onde entravam os escritores que levaram para a Argentina as descobertas de Poe, Borges e Bioy Casares. Walsh foi fisgado pelo assunto da mesma forma que Joseph Conrad quando seduzido pelo caso do Agente Secreto: de maneira casual, por meio de uma conversa qualquer. Com Conrad foi na rua, com o argentino foi numa partida de xadrez.<\/p>\n<p>O escritor encontra o mote, o plot de sua hist\u00f3ria e sopra-lhe um cora\u00e7\u00e3o que bate at\u00e9 depois de seu desaparecimento. No caso de Walsh, que a partir dos resultados p\u00edfios dessa investiga\u00e7\u00e3o acabou radicalizando suas posi\u00e7\u00f5es, saindo de uma indiferen\u00e7a pol\u00edtica para um engajamento armado via Montoneros, a obra cresce \u00e0 medida em que o tempo se afasta daquele epis\u00f3dio sinistro, precursor do pior que iria vir com a grande mortandade promovida pelo ciclo dos generais. O que encanta \u00e9 a lucidez do autor, que sabe ser esse caso um defunto, pois ningu\u00e9m mais atenta para meia d\u00fazia de coitados levando tiros de meseric\u00f3rdia na noite gelada. E com o excesso de mortos que vieram depois, quem se importa? Mas \u00e9 essa vis\u00e3o crua do seu trabalho que torna a obra imperec\u00edvel.<\/p>\n<p>Como ele n\u00e3o se ilude, procura manter o prumo da realidade levantando todos os detalhes do crime e fazendo o papel do detetive que n\u00e3o d\u00e1 quartel e assume uma postura \u00e9tica diante do drama, longe da indiferen\u00e7a charmosa que pontua a literatura policial, principalmente com os inovadores Dash Hammet ou Raymond Chandler. Walsh se transforma no seu personagem e morre com ele, quando \u00e9 fuzilado pelas for\u00e7as da repress\u00e3o depois de escrever uma carta aberta \u00e0 ditadura argentina que derrubou Isabelita Per\u00f3n, um texto que \u00e9 um primor de precis\u00e3o e estilo, considerado por Garcia M\u00e1rquez uma das j\u00f3ias da literatura universal.<\/p>\n<p>Talvez n\u00e3o existisse a grande revanche da sociedade argentina hoje contra seus algozes n\u00e3o fossem esses textos de seu ilustre filho e m\u00e1rtir. Foi preciso que ele descesse \u00e0s catacumbas, trouxesse \u00e0 luz n\u00e3o um massacre pol\u00edtico, mas um crime comum mascarado de lei marcial e que foi desmoralizado pelo trabalho paciente do escritor rep\u00f3rter numa saga que \u00e9 uma refer\u00eancia poderosa do melhor jornalismo. E que n\u00e3o faz nenhuma concess\u00e3o nbem para as mais nobres causas: \u201cA gente do povo n\u00e3o morre gritando Viva a p\u00e1tria! como nos romances. Morre vomitando de medo ou maldizendo seu abandono.\u201d<\/p>\n<p>A Companhia das Letras teve a gentileza de me enviar um exemplar para que eu pudesse ler esta grande obra. Agrade\u00e7o \u00e0 editora e espero ter contribu\u00eddo, com esta resenha, para que Walsh atinja mais o p\u00fablico brasileiro, t\u00e3o necessitado de refer\u00eancias nesta quadra asquerosa da imprensa brasileira, quando tudo \u00e9 contaminado pelo interesse pol\u00edtico, a mentira e a linguagem em estado terminal, longe do esplendor da melhor literatura de n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o, que fez a gl\u00f3ria de gera\u00e7\u00f5es passadas, marcadas pela trag\u00e9dia, mas que cumpriram um destino mais condizente com a grandeza humana.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s A primeira edi\u00e7\u00e3o brasileira do cl\u00e1ssico argentino Opera\u00e7\u00e3o Massacre, de Rodolfo Walsh (1927-1977), escrito e lan\u00e7ado sucessivamente a partir de 1957 (teve quase 40 edi\u00e7\u00f5es) , acumula as v\u00e1rias camadas de uma narrativa: a do escritor de romance policial que substituiu a fic\u00e7\u00e3o para investigar um caso concreto, e nele enterrou sua vida, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[10],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2403"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2403"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2403\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2405,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2403\/revisions\/2405"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2403"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2403"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2403"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}