{"id":2428,"date":"2010-11-24T19:45:07","date_gmt":"2010-11-24T21:45:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2428"},"modified":"2010-11-24T19:45:07","modified_gmt":"2010-11-24T21:45:07","slug":"memorias-da-revolucao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/memorias-da-revolucao","title":{"rendered":"MEM\u00d3RIAS DA REVOLU\u00c7\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Lembro de tudo, mas posso errar nos detalhes, n\u00e3o importa. O que vale \u00e9 a mem\u00f3ria, o rescaldo daquela \u00e9poca e as conseq\u00fc\u00eancias hoje, pois 2010 \u00e9 o resultado de 1968. Duas tend\u00eancias opostas se digladiavam pela lideran\u00e7a do movimento estudantil naquele ano. Eu \u201cpertencia\u201d \u00e0 AP, como se dizia, a A\u00e7\u00e3o Popular, organiza\u00e7\u00e3o vinda da JEC, JUC e JOC, associa\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas, uma que reunia Estudantes secundaristas, outra Universit\u00e1rios e a outra Oper\u00e1rios. Elas ficaram obsoletas, pois eram do tempo da democracia extinta pelo golpe de 1964 e foram substitu\u00eddas pela AP, sigla mais abrangente, que reunia militantes para \u201cderrubar a ditadura e expulsar o imperialismo\u201d.<\/p>\n<p>Essa era a palavra de ordem de AP, oposto \u00e0 dos outros partidos, tamb\u00e9m clandestinos, como o POC, Partido Oper\u00e1rio Comunista, que pregavam o povo no poder, ou seja, a ditadura do proletariado. A radicaliza\u00e7\u00e3o do processo, com o AI-5, fruto das mobiliza\u00e7\u00f5es de massa bem sucedidas, que balan\u00e7aram o governo, levou a AP para o maoismo (e de quebra o foquismo guevarista) e o POC e cong\u00eaneres para o stalinismo. Combatentes das duas correntes optaram pela luta armada e \u201cca\u00edram\u201d, como Jos\u00e9 Dirceu, enquanto outros partiram para o ex\u00edlio, como Jos\u00e9 Serra.<\/p>\n<p>Esse confronto ideol\u00f3gico se dava na elite hiper-intelectualizada das lideran\u00e7as e seus clones, restando \u00e0 massa as reivindica\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas, usadas at\u00e9 o osso pela esquerda estudantil. As pessoas que n\u00e3o entendiam as diferen\u00e7as entre as duas correntes, queriam apenas mais vagas na universidade, e que ela continuasse p\u00fablica e gratuita, j\u00e1 que o sucateamento da classe m\u00e9dia n\u00e3o permitia a muita gente pudesse arcar com os custos do ensino privado. N\u00e3o atin\u00e1vamos que a diferen\u00e7a de enfoque era fundamental, pois se voc\u00ea quer derrubar a ditadura e expulsar o imperialismo h\u00e1 margem para compor com outras for\u00e7as democr\u00e1ticas, enquanto a palavra de ordem pela ditadura do proletariado restringia o espectro para meia d\u00fazia de militantes.<\/p>\n<p>O que aconteceu? O confronto democr\u00e1tico foi vitorioso, enquanto a guerrilha urbana e rural caiu em desgra\u00e7a. Quando Gabeira, que seq\u00fcestrou embaixador, voltou, era a cara mais vistosa dessa esquerda que vinha participar do Brasil p\u00f3s anistia. Jos\u00e9 Dirceu preferiu se esconder num pseud\u00f4nimo no interior do Paran\u00e1, onde nem a pr\u00f3pria mulher sabia da sua verdadeira identidade. O resto, a massa, estava amargando a ditadura e foi trabalhar porque a vida n\u00e3o faz gra\u00e7a com ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Na campanha eleitoral de 2010, as duas correntes se enfrentaram nas urnas pela primeira vez, mesmo que isso tenha sido mascarado por uma s\u00e9rie de truques de linguagem, desde a religiosidade for\u00e7ada da ex-chefe da Casa Civil quanto a tentativa de esconder FHC por parte do ex-governador paulista. A linha pac\u00edfica e progressista, que comp\u00f4s com outras for\u00e7as do espectro democr\u00e1tico, se digladiou com ex-guerrilheiros aparelhados no Estado, que sabiamente souberam unir as li\u00e7\u00f5es de Stalin com o diagn\u00f3stico de Raymundo Faoro sobre a hegemonia do Estamento no Brasil em Os Donos do Poder (n\u00e3o que mestre Faoro tenha a ver com essa choldra, pois ele fez apenas o diagn\u00f3stico e a den\u00fancia). A esquerda que devora advers\u00e1rios e se livra de parceiros transformou-se na caratonha do Estado desvirtuado por d\u00e9cadas de ditadura.<\/p>\n<p>Para quem continuou fiel \u00e0 sua op\u00e7\u00e3o de apostar na democracia contra o aparelhamento do estado e seu entorno, ou seja, a sovietiza\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica, a perspectiva de censura e a festa do butim, Serra teoricamente enfeixava qualidades de oposi\u00e7\u00e3o. Havia empecilhos, como seu envolvimento visceral com o fisiologismo pessedebista, uma dissid\u00eancia do velho emedebismo, oposi\u00e7\u00e3o consentida da ditadura; e o apoio dado pela direita reunida no DEM, partido que veio da antiga Arena. Mesmo com esses furos, Serra conseguiu 44 milh\u00f5es de votos. Somados aos 32 milh\u00f5es dos votos jogados fora (branco, nulos e absten\u00e7\u00f5es), representam 2\/3 do eleitorado, o que coloca por terra os pretensos 89% de aprova\u00e7\u00e3o ao atual chefe de governo.<\/p>\n<p>Hoje vemos a presidente eleita ligando para Jos\u00e9 Sarney para decidir a parada de uma casa de luxo (funcional) para o senador petista em detrimento do senador goiano. Vemos o estouro do Banco Panamericano, que lan\u00e7a luzes sobre a manipula\u00e7\u00e3o do epis\u00f3dio da agress\u00e3o a Serra. Vemos a ficha de Dilma que organizava assaltos, omitida durante a campanha eleitoral para evitar uso pol\u00edtico, enquanto se sabe que a omiss\u00e3o tamb\u00e9m foi uso pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Para enfrentar bandido, voc\u00ea n\u00e3o pode se transformar num deles. O pessoal do \u201cpovo no poder\u201d n\u00e3o entendeu assim e partiu para o seq\u00fcestro, o assassinato e o roubo. Hoje se beneficia de uma contrafa\u00e7\u00e3o, o pol\u00edtico que veio das lutas sindicais e pegou carona nas reivindica\u00e7\u00f5es populares para permanecer no poder e entregar o pa\u00eds, a exemplo do que foi feito nos oito anos sinistros de FHC, o sujeito que inventou a reelei\u00e7\u00e3o e sucateou o patrim\u00f4nio p\u00fablico (que n\u00e3o foi reestatizado pelo seu continuador, Lula).<\/p>\n<p>Serra agora quer se reconstruir como l\u00edder da oposi\u00e7\u00e3o. Acho dif\u00edcil. A direita descobriu que tem cacife eleitoral e vai querer disputar a presid\u00eancia. Pois isso a esquerda fez: ressuscitou a direita, que tinha sido enterrada depois dos anos de chumbo. H\u00e1 o centrismo, tanto de A\u00e9cio como do PMDB, que s\u00e3o vorazes por poder e que dificilmente v\u00e3o querer compactuar de novo tanto com o petismo quanto com Serra. A perspectiva \u00e9 que o processo se radicalize novamente, com o fisiologismo no poder e a indigna\u00e7\u00e3o popular se intensificando.<\/p>\n<p>Fiz esse texto de mem\u00f3ria. Quem quiser, que pesquise. Eu vivi esse tempo e posso falar. Talvez minha percep\u00e7\u00e3o n\u00e3o tenha se inteirado dos fatos mais importantes, j\u00e1 que sempre fui marginal ao processo. Mas sempre existe algu\u00e9m que fica para contar a hist\u00f3ria. N\u00e3o teve a m\u00ednima import\u00e2ncia, mas eu briguei com todos em 1969, quando percebi, pela reund\u00e2ncia do discurso, que estavam patinando e errando sem parar, o que prenunciava mais trag\u00e9dia (a insensibilidade pol\u00edtica diante das evid\u00eancias). Minha op\u00e7\u00e3o na campanha presidencial veio de longe, teve um link com esse tempo em p\u00e9 de guerra. Foi a primeira em que eu realmente me engajei. Gostei. Se preparem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Lembro de tudo, mas posso errar nos detalhes, n\u00e3o importa. O que vale \u00e9 a mem\u00f3ria, o rescaldo daquela \u00e9poca e as conseq\u00fc\u00eancias hoje, pois 2010 \u00e9 o resultado de 1968. Duas tend\u00eancias opostas se digladiavam pela lideran\u00e7a do movimento estudantil naquele ano. 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