{"id":2437,"date":"2010-12-06T19:35:18","date_gmt":"2010-12-06T21:35:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2437"},"modified":"2010-12-06T19:35:18","modified_gmt":"2010-12-06T21:35:18","slug":"aulas-de-politica","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/aulas-de-politica","title":{"rendered":"AULAS DE POL\u00cdTICA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nN\u00e3o acredito que existam formadores de opini\u00e3o. Conhe\u00e7o meus compatriotas. Todos nascem com convic\u00e7\u00f5es extremas e ai de quem se atravesse no caminho. No ber\u00e7o, j\u00e1 levantamos o dedinho para expressar as certezas que trazemos do Outro Lado. N\u00f3s, brasileiros, viemos todos da mesma origem: de um Limbo que \u00e9 praticamente uma escola de pol\u00edtica. L\u00e1, estudamos por toda a eternidade os grandes temas que ficam em roda dos vivos. Quando encarnamos, j\u00e1 chegamos cal\u00e7ados.<\/p>\n<p>Lembro dos embates nos gr\u00eamios estudantis do gin\u00e1sio. T\u00ednhamos brizolistas de nascen\u00e7a e Lacerdas em carne e osso. \u201cCala boca comunista\u201d \u201cdeixa de ser rea\u00e7a\u201d eram os improp\u00e9rios mais amenos que se ouviam nos debates. Os argumentos eram lapidares. Para quem achava ser a pobreza uma op\u00e7\u00e3o dos perdedores, os conscientes brandiam com um \u201ctemos de cortar o mal pela raiz\u201d. Os conservadores deitavam e rolavam, brandindo os conceitos de Deus, P\u00e1tria e Fam\u00edlia, que eram comuns, como se fossem propriedades deles. J\u00e1 havia o medo de uma reforma agr\u00e1ria desastrada, um tema que at\u00e9 hoje assombra o pa\u00eds com terra de sobra, assunto institucionalizado e ainda sem solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Reproduz\u00edamos em classe o que ouv\u00edamos em casa. Na minha, as discuss\u00f5es eram febris, principalmente na hora da sobremesa. Amigos da fam\u00edlia participavam. Tinha gente que sa\u00eda correndo do pr\u00f3prio almo\u00e7o para vir participar da contenda. No r\u00e1dio, pontificavam as arengas, as campanhas, as acusa\u00e7\u00f5es. \u00c0s vezes, um l\u00edder importante nos visitava e havia uma grande mobiliza\u00e7\u00e3o, com centenas de carros e caminh\u00f5es fazendo estrondo pelas ruas.<\/p>\n<p>Quando veio o golpe de 1964, houve surpresa geral. Est\u00e1vamos acostumados \u00e0 liberdade. Era estranho ver alunos de outros col\u00e9gios vir passar uma temporada na nossa classe para admoestar, aconselhar e amea\u00e7ar sutilmente. Procuravam culpados, mas s\u00f3 encontravam cdfs. \u201cVoc\u00ea \u00e9 um aluno estudioso, n\u00e3o v\u00e1 na onda desses comunistas\u201d, diziam, meio decepcionados com a \u201ccolheita\u201d. Aos poucos, fomos perdendo aquele empuxo, aquela for\u00e7a. A campanha presidencial para 1965, que prometia, ficou apenas na inten\u00e7\u00e3o. Depois, os l\u00edderes tentaram costurar alguma coisa em Montevid\u00e9u, mas o fosso entre eles era muito profundo. N\u00f3s tamb\u00e9m, colegas que agora se afastavam para a vida adulta, romp\u00edamos antigas amizades e nos recolh\u00edamos ao sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Ensaiamos algo em 1968, com as passeatas, mas o AI-5 jogou \u00e1gua na fervura. Houve ent\u00e3o, at\u00e9 1979, uma longa fase de surdez e ringir de dentes. S\u00f3 muito tempo depois, quando tudo parecia voltar ao normal com o fim dos anos de chumbo, nos reencontramos, veteran\u00edssimos, e nos abra\u00e7amos. Lacerda e Brizola tinham ficado para tr\u00e1s. Est\u00e1vamos intactos, n\u00f3s, conterr\u00e2neos de uma fronteira m\u00edtica. De todas as classes sociais, nos reunimos em torno da viv\u00eancia em comum, do privil\u00e9gio de sermos contempor\u00e2neos.<\/p>\n<p>Rimos agora de nossas brigas. Talvez at\u00e9 ressuscitemos algo, na campanha de 2010, plebiscit\u00e1ria. Mas desta vez, mais maduros, fazemos escolhas fora das certezas trazidas do ber\u00e7o. Adquirimos o poder da reflex\u00e3o, fruto de tanta dor e tanta vida.<\/p>\n<p><em>Cr\u00f4nica publicada no jornal Momento de Uruguaiana, coluna Jornalismo Liter\u00e1rio <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s N\u00e3o acredito que existam formadores de opini\u00e3o. Conhe\u00e7o meus compatriotas. Todos nascem com convic\u00e7\u00f5es extremas e ai de quem se atravesse no caminho. No ber\u00e7o, j\u00e1 levantamos o dedinho para expressar as certezas que trazemos do Outro Lado. 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