{"id":244,"date":"2005-05-31T22:10:52","date_gmt":"2005-06-01T00:10:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=244"},"modified":"2010-08-08T22:00:01","modified_gmt":"2010-08-09T01:00:01","slug":"a-palavra-bate-um-bolao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-palavra-bate-um-bolao","title":{"rendered":"A PALAVRA BATE UM BOL\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>O futebol tem tudo para dar errado. Colocam 22 marmanjos num espa\u00e7o limitado para trabalhar uma esfera que escapa dos p\u00e9s. O objetivo \u00e9 acertar o n\u00facleo do reduto advers\u00e1rio, mais limitado ainda. S\u00f3 se deve usar as m\u00e3os em casos excepcionais. \u00c9 l\u00f3gico que esse jogo tende a ser irregular pela pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o e natureza. S\u00f3 existe algum equil\u00edbrio se houver sintonia total entre os jogadores de cada time, alguns craques que sabem o que fazem em campo, o esp\u00edrito de luta que n\u00e3o deve diminuir em nenhum segundo, a compet\u00eancia dos t\u00e9cnicos. Ainda deve-se levar em considera\u00e7\u00e3o o que rola fora desse esquema, como o gramado, o est\u00e1dio, as torcidas, os dirigentes, os \u00e1rbitros. O que resta para o jornalismo, diante desse monstro rebelde? Apenas a palavra usada com maestria e precis\u00e3o. A paix\u00e3o, no caso, deve ser pela linguagem, e n\u00e3o pelas camisetas.<\/p>\n<p>SANTOSX FLAMENGO &#8211; Houve um milagre ontem neste cl\u00e1ssico. Se durasse at\u00e9 cinco minutos antes de terminar, seria um brilhante zero a zero. Estava em disputa dois advers\u00e1rios que lutavam por motivos opostos. Um, o Santos, queria a lideran\u00e7a, conseguida depois da vit\u00f3ria por dois a zero. O outro, o Flamengo, n\u00e3o queria a lanterna, onde acabou ficando, depois da derrota. O jogo remou contra todas as expectativas. Tinha tudo para ser mais uma sonolenta e burocr\u00e1tica obedi\u00eancia \u00e0 tabela, mas o que vimos foi o verdadeiro futebol do Brasil, ofensivo a maior parte do tempo, t\u00e3o disputado que resultou inclusive na fratura da perna de um dos jogadores o Flamengo.<\/p>\n<p>Um empate sem gols seria o retrato de um jogo perfeito, onde a aus\u00eancia no marcador refletiria a garra dos dois times. Havia grandes craques em campo, como Robinho e Bas\u00edlio (que decidiu a partida, dando passe para o primeiro gol e fazendo o segundo). Mas o importante foi a supera\u00e7\u00e3o demonstrada pelos dois times. Desconfio que a aus\u00eancia da transmiss\u00e3o da Globo, que a tudo reduz a um d\u00e8ja vu, j\u00e1 que ele dejaviram tudo e tudo sabem e prev\u00eaem, foi fundamental para o sucesso da partida. Vi o jogo pela Record e sintonizei um pouco sem a m\u00ednima esperan\u00e7a. Descobri ent\u00e3o o futebol como texto.<\/p>\n<p>Sem querer cair na tenta\u00e7\u00e3o de dividir em dois grandes par\u00e1grafos um jogo t\u00e3o complexo, que equivaleriam aos dois tempos do jogo, propus que o drible seja a solu\u00e7\u00e3o de linguagem mais ousada, a que consegue vencer o advers\u00e1rio (o branco da tela ou do papel) e deixa o gosto bom de coisa bem feita; o tranco no advers\u00e1rio seria o momento em que se deve reescrever aquela parte do texto; a falta \u00e9 um falso ponto final, n\u00e3o planejado; o chap\u00e9u \u00e9 a met\u00e1fora mais bem sucedida, o carrinho \u00e9 o lugar comum. Um t\u00e9cnico como Luxemburgo, que acertou o Santos depois de um per\u00edodo ruim do treinador que o antecedeu, pode ser encarado como o editor de texto que precisamos ter dentro de n\u00f3s. Ele azeita os jogadores-palavras, os seduz, convoca e grita na hora certa. Abel, que passa por p\u00e9ssima fase, tamb\u00e9m teve seus m\u00e9ritos, pois conseguiu peitar o time branco resgatando a tradi\u00e7\u00e3o rubro-negra, a que n\u00e3o entrega-se diante de qualquer dificuldade.<\/p>\n<p>Saiu na lanterna, seu texto talvez tenha ido para o lixo, mas o resgato agora como exemplo de um trabalho invocado, duro como deve ser e brilhante, pois transformou o jogo numa verdadeira aula. Se n\u00e3o de futebol, pelo menos de jornalismo.<\/p>\n<p>CRAQUES &#8211; A defini\u00e7\u00e3o de craque feita por Pel\u00e9 \u00e9 perfeita. \u00c9 aquele que bate um bol\u00e3o em qualquer posi\u00e7\u00e3o, inclusive na de goleiro, como aconteceu com ele, que n\u00e3o deixou o Gr\u00eamio ganhar num torneio, depois de ocupar o gol, tornado vago pela contus\u00e3o do titular. Quando voc\u00ea, por conting\u00eancia, \u00e9 obrigado a encarar desafios que n\u00e3o estavam na sua agenda, aproveite a chance para demonstrar for\u00e7a onde voc\u00ea nem era considerado. Seja um craque na edi\u00e7\u00e3o, no texto, na reportagem, na pauta. E saindo da imprensa, arrebente criando uma revista empresarial, inventando um evento, redirecionando um site.<\/p>\n<p>N\u00e3o imite aqueles jornalistas que s\u00f3 possuem dos grandes profissionais a casca e jamais a compet\u00eancia.\u00a0 Desconfie de quem anda apressadamente na reda\u00e7\u00e3o, que isso \u00e9 o marketing da pressa, s\u00e3o pregui\u00e7osos que gostam de aparecer mas nada sabem fazer. Tamb\u00e9m olhe de vi\u00e9s para os que afrouxam o n\u00f3 da gravata, fecham os punhos e os colocam em cima da mesa, com as mangas arrega\u00e7adas, olhando para o pobre rep\u00f3rter como se ele fosse um criminoso. Tudo isso \u00e9 cabe\u00e7a-de-bagre. O verdadeiro craque \u00e9 aquele que n\u00e3o faz marketing pessoal, que diz que nada sabe, que insiste em querer se aposentar, que te deixa trabalhar, que te elogia quando necess\u00e1rio e te d\u00e1 uma dura quando houver motivo. Esse \u00e9 o cara.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o Pel\u00e9, e esse mestre \u00e9 o que voc\u00ea vai levar no cora\u00e7\u00e3o como o maior tesouro da sua vida profissional. Fique \u00e0 altura do que voc\u00ea sugeriu com sua garra nos treinos. Entre em campo no dia da grande final. E voe como um deus grego em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 bola para fazer aquele gol que estava dentro de voc\u00ea e ningu\u00e9m sabia que existia. Seja craque, seja her\u00f3i.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O futebol tem tudo para dar errado. Colocam 22 marmanjos num espa\u00e7o limitado para trabalhar uma esfera que escapa dos p\u00e9s. O objetivo \u00e9 acertar o n\u00facleo do reduto advers\u00e1rio, mais limitado ainda. S\u00f3 se deve usar as m\u00e3os em casos excepcionais. \u00c9 l\u00f3gico que esse jogo tende a ser irregular pela pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o e natureza. S\u00f3 existe algum equil\u00edbrio se houver sintonia total entre os jogadores de cada time, alguns craques que sabem o que fazem em campo, o esp\u00edrito de luta que n\u00e3o deve diminuir em nenhum segundo, a compet\u00eancia dos t\u00e9cnicos. Ainda deve-se levar em considera\u00e7\u00e3o o que rola fora desse esquema, como o gramado, o est\u00e1dio, as torcidas, os dirigentes, os \u00e1rbitros. O que resta para o jornalismo, diante desse monstro rebelde? Apenas a palavra usada com maestria e precis\u00e3o. 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