{"id":2440,"date":"2010-12-06T19:36:41","date_gmt":"2010-12-06T21:36:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2440"},"modified":"2010-12-06T19:36:41","modified_gmt":"2010-12-06T21:36:41","slug":"questao-de-classe","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/questao-de-classe","title":{"rendered":"QUEST\u00c3O DE CLASSE"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Acreditava-se que classe tinha a ver com status social, com o dinheiro que o cidad\u00e3o disp\u00f5e para gastar, com a posi\u00e7\u00e3o que ocupa, com o fato de possuir ou n\u00e3o os meios de produ\u00e7\u00e3o. Trata-se de uma divis\u00e3o baseada na percep\u00e7\u00e3o mais tosca da economia. Mas a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica predat\u00f3ria mostrou que n\u00e3o \u00e9 bem assim.<\/p>\n<p>Vimos como pessoas desqualificadas em todos os sentidos, especialmente os relacionados com a \u00e9tica e os bons costumes, mudaram da base para o topo da pir\u00e2mide, mantendo intacta sua falta de classe. Enquanto isso, gente que n\u00e3o saiu jamais do lugar que herdaram no ber\u00e7o, como \u00e9 o caso de Cartola, nascido no morro carioca, s\u00e3o um exemplo de sofistica\u00e7\u00e3o e sabedoria. N\u00e3o tem a ver com dinheiro, religi\u00e3o, atividade, cor, g\u00eanero, n\u00famero ou grau. Nem mesmo com o fato de ter passado ou n\u00e3o pelos melhores col\u00e9gios. \u00c9 uma esp\u00e9cie de voca\u00e7\u00e3o, de gra\u00e7a herdada, que, encontrando o ambiente adequado, desabrocha e influi diretamente nos contempor\u00e2neos. Se n\u00e3o for estimulado, recolhe-se e pode se afogar no ressentimento.<\/p>\n<p>O alegretense Paulo C\u00e9sar Pereio, o grande ator de tantos pap\u00e9is inesquec\u00edveis e contundentes, e que acaba de completar 70 anos, chamou a aten\u00e7\u00e3o para uma palavra da fronteira que estava em desuso. Ele disse que a \u201cbagacerada\u201d tinha tomado conta do pa\u00eds. Acredito que ele se referia n\u00e3o apenas aos apaniguados que se \u201cnobilitaram\u201d por meio da disputa do dinheiro p\u00fablico. Mas aos advogados, aos pseudointelectuais, aos falsos artistas e outros esp\u00e9cimes que ficam em volta do caixa.<\/p>\n<p>Quando a propaganda eleitoral falava do risco de \u201cvoltarmos ao passado\u201d eu lembrava de Drummond, Guimar\u00e3es Rosa, Graciliano Ramos, Darcy Ribeiro, Tom e Vinicius e comentava: quero voltar mesmo ao Brasil que t\u00ednhamos, culto, de alto n\u00edvel, sens\u00edvel e soberano. Eram pessoas de todas as classes que acorriam para a arena p\u00fablica com a for\u00e7a de seus talentos, criando uma cultura deslumbrante, que por um tempo nos acostumou: ach\u00e1vamos que o Brasil seria assim sempre. Engano total.<\/p>\n<p>Eles se foram e os substitutos s\u00e3o gritalh\u00f5es horrendos, escritores toscos, pol\u00edticos brutos. Voc\u00ea pega qualquer grande pol\u00edtico antigo, como Pandi\u00e1 Cal\u00f3geras, que foi Ministro da Guerra na Rep\u00fablica Velha, ou Macedo Soares, ex-governador paulista. Eles desenvolviam intensa atividade pol\u00edtica e profissional (professores, advogados, engenheiros) e ainda foram autores de in\u00fameros livros, dezenas deles, todos sobre o Brasil e seus rumos. Que exemplo deixaram e como foram desperdi\u00e7ados quando vemos a atual fase da vida nacional, tomado totalmente pela barb\u00e1rie!<\/p>\n<p>Descobrir o verdadeiro sentido da palavra classe n\u00e3o significa justificar a grande defasagem entre o privil\u00e9gio e a mis\u00e9ria, um mal que precisa de tratamento e cura numa na\u00e7\u00e3o t\u00e3o rica. N\u00e3o se deve \u00e9 cometer crimes sob o \u00e1libi de estar fazendo justi\u00e7a social.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da humanidade \u00e9 mesmo a hist\u00f3ria da luta de classes, mas n\u00e3o como queria Marx, o inventor da ilus\u00e3o do oper\u00e1rio no poder (quando ent\u00e3o ele deixaria de ser oper\u00e1rio e viraria tirano, como notou Bakunin). \u00c9 a luta dos que n\u00e3o tem classe nenhuma contra as pessoas de classe que civilizam com suas obras e acabam sendo v\u00edtimas do massacre.<\/p>\n<p><em>Cr\u00f4nica publicada no jornal Momento de Uruguaiana.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Acreditava-se que classe tinha a ver com status social, com o dinheiro que o cidad\u00e3o disp\u00f5e para gastar, com a posi\u00e7\u00e3o que ocupa, com o fato de possuir ou n\u00e3o os meios de produ\u00e7\u00e3o. Trata-se de uma divis\u00e3o baseada na percep\u00e7\u00e3o mais tosca da economia. 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