{"id":2452,"date":"2010-12-06T19:44:42","date_gmt":"2010-12-06T21:44:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2452"},"modified":"2010-12-06T19:44:42","modified_gmt":"2010-12-06T21:44:42","slug":"primeira-hora","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/primeira-hora","title":{"rendered":"PRIMEIRA HORA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nAlgu\u00e9m jogou farinha na mesa azul do c\u00e9u e raspou com uma palha de a\u00e7o. Deixou a nuvem esgar\u00e7ada, ao som inaud\u00edvel s\u00f3 percebido pelo casal de pombas que se aboletaram no fio para curtir a manh\u00e3. Elas aguardam o levantar supremo do sol, quando partir\u00e3o para outras a\u00e7\u00f5es menos passivas, como voar at\u00e9 os morros pr\u00f3ximos, cobertos pela compacta massa de arbustos. \u00c9 uma esp\u00e9cie de cordilheira em miniatura, esses morros que pontuam os limites da varanda, onde observo o sil\u00eancio que a natureza define neste quadrante extremo da ilha.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe nada demais em compartilhar esse momento em que tudo transparece esperan\u00e7a. Acontece todos os dias, mas poucos se aventuram a depositar nele a aten\u00e7\u00e3o total. Estamos distra\u00eddos pelo compromisso iminente, que se avizinha com suas dificuldades, e pelas demandas do corpo, cada vez mais exigente e escasso. Muita preocupa\u00e7\u00e3o acaba nos afastando de um ato natural que \u00e9 o amanhecer de primavera, em que a umidade est\u00e1 na dose certa, e o frio uma b\u00ean\u00e7\u00e3o diante da lembran\u00e7a dos calor\u00f5es que se aproximam. \u00c9 quando as cores b\u00e1sicas se distribuem irm\u00e3mente pela plataforma constru\u00edda ao nosso redor, feita no capricho por um Deus ainda na ativa.<\/p>\n<p>Decidir-se pelo amanhecer \u00e9 abrir m\u00e3o de ilus\u00f5es noct\u00edvagas. Baladas, ser\u00f5es, ins\u00f4nias, coruj\u00f5es, tudo isso precisa ficar \u00e0 parte quando queremos exercer o dom\u00ednio do despertar na primeira hora. \u00c9 uma quest\u00e3o de compet\u00eancia, como tudo. Transformar uma decis\u00e3o numa ordem que n\u00e3o pode ser transgredida. N\u00e3o ultrapassar a meia noite no jogo di\u00e1rio com as palavras. Concentrar-se para dormir cedo imaginando alguma hist\u00f3ria boa para nos distrair, j\u00e1 que na televis\u00e3o s\u00f3 passa porcaria e n\u00e3o temos mais paci\u00eancia para ver tanta coisa enganosa. H\u00e1 uma cota para suportar a mentira e j\u00e1 atingimos esse n\u00edvel h\u00e1 tempos.<\/p>\n<p>Com o tempo, passamos a encarar a \u00e9poca em que fic\u00e1vamos acordados por for\u00e7a das eletricidades variadas da vida, como uma era distante, um passado remoto demais para sabermos do que se tratava exatamente. Voltar a acordar com a luz do sol, mesmo em dia nublado e com chuva (alguns deles maravilhosos) \u00e9 ainda poss\u00edvel hoje, quando imaginamos ter nos afastando tanto da natureza.<\/p>\n<p>Precisamos mergulhar na manh\u00e3 para que todos possam nos identificar com a claridade. Escolher a palavra certa faz parte do jogo da sobreviv\u00eancia. Pois ela acaba grudando em quem a usa. Sabemos disso principalmente depois da internet, quando os sistemas de busca come\u00e7aram a trazer junto com o nome de cada um tudo o que a pessoa decidiu colocar perto de si. Assim, se voc\u00ea falar muito em \u00f3dio, far\u00e1 parte dele. O tema ficar\u00e1 em sua aura digital. Se atacar demais determinado personagem pol\u00edtico, acabar\u00e1 em seu redil, vai compactuar sem querer do seu curral. Tocou no problema, ele se torna seu. \u00c9 injusto, mas \u00e9 o que acontece.<\/p>\n<p>O grude das palavras \u00e9 como um caso de amor. Ele n\u00e3o te deixa, por mais problemas que surjam. \u00c9 recomend\u00e1vel ent\u00e3o amar a manh\u00e3, j\u00e1 que a rela\u00e7\u00e3o com as palavras tem essa voca\u00e7\u00e3o para a eternidade.<\/p>\n<p><em>Cr\u00f4nica publicada na edi\u00e7\u00e3o 320 do jornal Momento de Uruguaiana.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Algu\u00e9m jogou farinha na mesa azul do c\u00e9u e raspou com uma palha de a\u00e7o. Deixou a nuvem esgar\u00e7ada, ao som inaud\u00edvel s\u00f3 percebido pelo casal de pombas que se aboletaram no fio para curtir a manh\u00e3. 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