{"id":2454,"date":"2010-12-06T19:46:05","date_gmt":"2010-12-06T21:46:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2454"},"modified":"2010-12-06T19:46:05","modified_gmt":"2010-12-06T21:46:05","slug":"os-segredos-de-helena","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/os-segredos-de-helena","title":{"rendered":"OS SEGREDOS DE HELENA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nO romance de estr\u00e9ia <strong>Helena de Uruguaiana <\/strong>( Dublinense, 109 pgs.), de<strong> Maria da Gra\u00e7a Rodrigues,<\/strong> conta alguns segredos. Primeiro, da personagem, a adolescente que seduziu o primo rico, por ele sofreu a vida toda, foi m\u00e3e solteira e correu o mundo antes de se decidir pelo que realmente queria. Segundo, da cidade que escondia as rela\u00e7\u00f5es fora da r\u00edgida sociedade da fronteira, a elite que acobertava os conflitos pol\u00edticos da ditadura e viu a di\u00e1spora dos seus filhos nos anos de chumbo (principalmente do final dos anos 60 at\u00e9 a anistia).<\/p>\n<p>E terceiro, do pr\u00f3prio romance, que revisita e atualiza, sem se enredar, os modelos de hero\u00edna da literatura (da cl\u00e1ssica mulher de Ulisses, passando pela rom\u00e2ntica Dama das Cam\u00e9lias ou a brasileira Luc\u00edola). E o que \u00e9 mais significativo: o segredo da boa literatura que circula, de maneira pessoal, entre paradigmas dos mestres do of\u00edcio (dos russos aos franceses), conduzidos para dentro da trama, que por sua vez \u00e9 pontuada por ora\u00e7\u00f5es recorrentes do catolicismo &#8211; uma religiosidade que usa a liturgia das palavras da missas para celebrar o amor imposs\u00edvel e definitivo.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 pouco para uma autora que chega com toda a humildade da estreante, mas com a seguran\u00e7a que surpreende e liga imediatamente logo no in\u00edcio. Confesso que tenho in\u00fameros livros na cabeceira, que vou lendo conforme as demandas do dia. Volumes pela metade, tramas ainda sem solu\u00e7\u00e3o, propostas que acabam desviando minha aten\u00e7\u00e3o, cada vez mais prec\u00e1ria devido \u00e0 sedu\u00e7\u00e3o de outros meios, mais luminosos e r\u00e1pidos. Mas com este livro aconteceu o contr\u00e1rio. Deixei-o na estante por um tempo, sob o \u00e1libi de que precisava terminar o que tinha come\u00e7ado primeiro. Mas ao me decidir enfim pelas primeiras linhas, em pouco tempo me vi emocionado no ep\u00edlogo.<\/p>\n<p>Passei voando pelo romance como num galope. N\u00e3o que a hist\u00f3ria de Helena seja leve e divertida, como num livro que se l\u00ea para depois esquecer. Mas porque as solu\u00e7\u00f5es encontradas para compor a hist\u00f3ria revelam uma estrutura bem acabada, com alicerce s\u00f3lido, paredes honestas, telhado firme e janelas que d\u00e3o para v\u00e1rios mundos. Aqui a viagem \u00e9 um deslumbre n\u00e3o apenas para os conterr\u00e2neos, os uruguaianense como eu, que reconhecem em cada detalhe (as casas, os col\u00e9gios, os campos de futebol, as ruas e avenidas, as fazendas) nossa identidade. Mas todo leitor pode enxergar com clareza o que \u00e9 uma hist\u00f3ria bem contada, nesta \u00e9poca de tanta literatura envergonhada, onde se procura torturar o leitor sem lhe oferecer o principal, um motivo para se chegar ao final.<\/p>\n<p>Tudo est\u00e1 aqui, neste livro primoroso. A tradi\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias ancestrais, solidamente instaladas na propriedade da terra, no com\u00e9rcio bem sucedido, num cosmopolitismo de quem convive com na\u00e7\u00f5es estrangeiras na porta e, ao mesmo tempo, que se refugia na platitude de um status secular. Os carnavais, as reuni\u00f5es dan\u00e7antes, as festas, as formaturas, os vestidos, os ternos, os coques, as melenas. Tamb\u00e9m os namoros, os casamentos feitos e desfeitos, os filhos leg\u00edtimos ou fora do esquema, as av\u00f3s afetivas, as concorrentes maldosas. As pequenas e grandes trai\u00e7\u00f5es, as brigas de vida ou morte, as viagens sem volta, as culpas e as anistias. Temos a terra, o cavalo, o passeio, os m\u00f3veis, os casar\u00f5es, os barracos, o rio, as sangas. E o amor profundo e sem rem\u00e9dio, a indiferen\u00e7a e a crueldade, o hero\u00edsmo e a vilania.E de quebra, os lugares e monumentos de Paris, o ex\u00edlio, o desenraizamento, a dist\u00e2ncia. Tudo na medida certa, sem sobras, num texto enxuto, numa composi\u00e7\u00e3o de orquestra de c\u00e2mara que soa como os acordes de uma banda an\u00f4nima num restaurante inesquec\u00edvel.<\/p>\n<p>Digo isso n\u00e3o por ser suspeito, pois meu nome est\u00e1 nos agradecimentos, generosos e exagerados, da autora, que trocou comigo alguns e-mails antes de publicar. Conversamos animadamente sobre o livro, mas eu n\u00e3o tinha no\u00e7\u00e3o exata do que se tratava. H\u00e1 muita procura por conselhos neste mundo hostil da literatura p\u00e1tria e costumo atender com prazer as solicita\u00e7\u00f5es. \u00c0s vezes me escapa a grandeza do que est\u00e1 sendo feito. Mas basta ter a obra nas m\u00e3os para ver que a autora, embora preste tanto tributo a seus professores de narrativa, tem a voca\u00e7\u00e3o poderosa e o talho certo para t\u00e3o complicado trabalho. Poderia ter trocado os p\u00e9s pelas m\u00e3os, poderia ter errado a maior parte do romance. Mas acertou em cheio e por isso merece ser celebrado como a grande estr\u00e9ia da literatura brasileira de 2010.<\/p>\n<p>Digo sem medo de errar. Que minha percep\u00e7\u00e3o n\u00e3o estrague a surpresa nem abra a guarda para desconfian\u00e7as, j\u00e1 que aqui n\u00e3o h\u00e1 bairrismo nem predile\u00e7\u00f5es. Leio com olhos livres e s\u00f3 me reporto ao que sei e sinto. Helena de Uruguaiana tem a fisga dos romances cl\u00e1ssicos, mas sem ser um deles, pois as t\u00e9cnicas de narrativa de todas as idades se somam, sem que possamos perceb\u00ea-las. Esse \u00e9 o sinal mais evidente de compet\u00eancia: quando a autora revela os segredos sem cair na tenta\u00e7\u00e3o dos truques.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s O romance de estr\u00e9ia Helena de Uruguaiana ( Dublinense, 109 pgs.), de Maria da Gra\u00e7a Rodrigues, conta alguns segredos. Primeiro, da personagem, a adolescente que seduziu o primo rico, por ele sofreu a vida toda, foi m\u00e3e solteira e correu o mundo antes de se decidir pelo que realmente queria. 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