{"id":2457,"date":"2010-12-23T10:15:12","date_gmt":"2010-12-23T10:15:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2457"},"modified":"2010-12-23T10:15:12","modified_gmt":"2010-12-23T10:15:12","slug":"pretensoes","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/pretensoes","title":{"rendered":"PRETENS\u00d5ES"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s <\/strong><\/p>\n<p>A diferen\u00e7a da \u00e9poca atual \u00e9 que as pretens\u00f5es, que existiam em ambiente restrito, ganharam foros de c\u00e2none. Era dif\u00edcil romper as fronteiras impostas \u00e0 soberba, pois as pessoas n\u00e3o tinham ainda atingido o n\u00edvel de m\u00eddia internacional, como acontece hoje na internet. Com o e-mail, os blogs e os twitters da vida, a toda hora nos deparamos com novos e infind\u00e1veis reis da cocada de todas as cores.<\/p>\n<p>O sujeito escreve alguma coisa, manda uma mensagem e no mesmo instante voc\u00ea \u00e9 tratado como leitor, mesmo que n\u00e3o consiga chegar ao fim do texto. Pior: agora o receptor come\u00e7a a fazer parte de um plural que, em tese, segue compulsoriamente o autor das mal tra\u00e7adas. \u201cObrigado, leitores\u201d, diz. \u00c9 tamb\u00e9m hil\u00e1rio o h\u00e1bito, tornado obsoleto com a simultaneidade digital, de anunciar algo fazendo suspense. \u201cLeia amanh\u00e3 no meu site\u201d. Ora, coloque logo no ar e n\u00e3o fa\u00e7a marola, pois isso de ver depois \u00e9 coisa do tempo antigo. \u201cDaqui a pouco falo contigo, isso veremos mais adiante\u201d.<\/p>\n<p>Nas m\u00eddias sociais, h\u00e1 o recurso de adicionar algu\u00e9m para seu grupo de conversa. O sujeito anexa e voc\u00ea, pessoa educada, retribui. Pois imediatamente o que batia na porta vira anfitri\u00e3o: \u201cBem vindo ao clube!\u201d diz, como se fosse um privil\u00e9gio ser membro de t\u00e3o exclusivo ambiente, que \u00e9 o seu ego. Tamb\u00e9m \u00e9 costume disseminar ordens para desconhecidos: \u201cVisite meu post, fa\u00e7a um coment\u00e1rio, d\u00ea RT.\u201d Sem querer, somos anexados a um Ex\u00e9rcito Imperial onde o augusto an\u00f4nimo \u00e9 o legislador e o manda-chuva absoluto.<\/p>\n<p>Como as pessoas est\u00e3o separadas de maneira aparentemente segura pelo vidro do monitor, ent\u00e3o tudo \u00e9 permitido. \u201cGoethe disse e eu digo agora\u201d, escreveu algu\u00e9m, comparando-se ao Olimpo que, como todos sabem, \u00e9 apenas o precursor de t\u00e3o not\u00f3ria exist\u00eancia. \u00c9 um espanto. Fica dif\u00edcil conviver com celebridades coalhando cada metro quadrado do mundo em lota\u00e7\u00e3o completa. Ainda mais sabendo que diante da multid\u00e3o de estrelas no palco iluminado, voc\u00ea \u00e9 o \u00fanico que est\u00e1 na plateia.<\/p>\n<p>Eles est\u00e3o prontos a dar aut\u00f3grafos. Voc\u00ea ent\u00e3o \u00e9 brindado por garranchos em pleno dom\u00ednio da letra impressa. \u00c9 uma concess\u00e3o que fazem, quando transformam o resto da humanidade em alvo desse of\u00edcio majest\u00e1tico, que \u00e9 redigir uma dedicat\u00f3ria com assinatura equivalente a um selo real.<\/p>\n<p><em><br \/>\nCr\u00f4nica publicada no dia\u00a0 7 de dezembro de 2010, no caderno Variedades, do Di\u00e1rio Catarinense<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s A diferen\u00e7a da \u00e9poca atual \u00e9 que as pretens\u00f5es, que existiam em ambiente restrito, ganharam foros de c\u00e2none. 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