{"id":246,"date":"2005-05-31T22:12:55","date_gmt":"2005-06-01T00:12:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=246"},"modified":"2009-12-20T21:03:43","modified_gmt":"2009-12-20T23:03:43","slug":"a-imposicao-artificial-dos-verbos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-imposicao-artificial-dos-verbos","title":{"rendered":"A IMPOSI\u00c7\u00c3O ARTIFICIAL DOS VERBOS"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Costumo enfrentar oposi\u00e7\u00e3o quando elimino o v\u00edcio, muito comum hoje nas reda\u00e7\u00f5es, de se usar quinhentas varia\u00e7\u00f5es para substituir o verbo dizer. Soube por importante jornalista amigo meu que ele tem aturado renitente defesa por parte dos adeptos dessa bobagem, que afasta leitores e torna intrag\u00e1vel qualquer texto. Compus ent\u00e3o uma argumenta\u00e7\u00e3o b\u00e1sica que pode ser brandida diante da mediocridade imponente que confunde babaquice com criatividade. Antes, um ataque frontal necess\u00e1rio \u00e0 atual impunidade dos publicit\u00e1rios que, sem oposi\u00e7\u00e3o, tomaram conta da m\u00eddia e precisam urgentemente levar um corretivo.<\/p>\n<p>FREEZER &#8211; A publicidade \u00e9 a redund\u00e2ncia levada \u00e0 exaust\u00e3o, mas os publicit\u00e1rios ganham mais porque vendem a imagem de seres especiais criativos. Recentemente tiraram um comercial de cerveja do ar que chupava cena de uma com\u00e9dia rom\u00e2ntica americana, em que um monte de pretendentes perseguia um pobre rapaz. Substitu\u00edram o noivo por um desses biotipos garanhentos execr\u00e1veis que servem de modelo para a virilidade ascendente, ou seja, barba por fazer, cal\u00e7a meia canela, camiseta fajuta, toca na cabe\u00e7a, cara de esperto. E as noivas por senhoras da terceira idade. O cara ent\u00e3o, para fugir ao ass\u00e9dio das velhinhas, se refugiava num freezer cheio da cerveja em quest\u00e3o, onde tomava contato com uma beldade milion\u00e1ria, dessas que ganham montes de dinheiro p\u00fablico para berrar e sacudir as carnes. Isso em lugar civilizado d\u00e1 cadeia no m\u00ednimo, mas aqui \u00e9 visto como uma gracinha. Tiraram tardiamente o comercial do ar, mas existem outros. As pessoas v\u00e3o comprar produtos de uma marca de sorvete e v\u00eaem l\u00e1 dentro do freezer algum gal\u00e3 ou beldade e a\u00ed se refugia no gelo para ter um pouquinho de sexo. Na ditadura em que vivemos, o sexo \u00e9 vedado para ser vendido virtualmente, aos borbot\u00f5es, linkados com todos os tipos de marcas, para a massa mal resolvida. Sem falar no celular que, ao ser comprado, te d\u00e1 direito a uma Cicarelli ou Bunchen. Para voc\u00ea cair na arapuca (que custa os tubos para ser usada) \u00e9 preciso que tentem te seduzir com o sexo que lhe negam. Em compensa\u00e7\u00e3o, os reis espanh\u00f3is chegam aqui, deslumbrados com a capacidade que temos de baixar as cal\u00e7as para eles (j\u00e1 que deitam e rolam na telefonia e nem tugimos nem mugimos) e s\u00e3o recebidos por macumba para turista na Bahia, com o nefando Carlinhos Brown faturando diante da nobreza, para mostrar como somos nativos ex\u00f3ticos cheios de amor (que na linguagem publicit\u00e1ria, \u00e9 o rabo) para dar. Esse \u00e9 o ambiente da na\u00e7\u00e3o de escravos que tenta dourar a p\u00edlula da narrativa jornal\u00edstica substituindo o verbo dizer por milh\u00f5es de pretensos sin\u00f4nimos.<\/p>\n<p>ASPAS &#8211; Quando a pessoa diz algo, sua fala \u00e9 reproduzida no texto entre aspas. Ela simplesmente diz. Se o texto se referir \u00e0 fala, citar a fonte sem colocar a frase dita entre aspas, ent\u00e3o ele pode garantir, destacar, definir, concluir. Como vivemos na \u00e9poca do jornalismo morto, a narrativa do rep\u00f3rter perdeu completamente a fun\u00e7\u00e3o. Os textos da m\u00eddia s\u00f3 servem como instrumentos de falas alheias, especialmente as corporativas. Os rep\u00f3rteres est\u00e3o proibidos de compor a pr\u00f3pria narrativa, o que sempre insuflou for\u00e7a ao jornalismo. Ent\u00e3o eles terceirizam e cada mat\u00e9ria fica cheia de frases entre aspas. Claro que se voc\u00ea colocar depois de cada aspa o verbo dizer ficar\u00e1 redundante. O problema n\u00e3o \u00e9 com o verbo dizer, \u00e9 com a estrutura do teu texto. Voc\u00ea colocou tudo nos ombros da fonte, inclusive a tua fun\u00e7\u00e3o, que \u00e9 escrever para jornal. \u00c9 a fonte que est\u00e1 montado no teu cangote, dizendo sem parar. Ent\u00e3o voc\u00ea tenta disfar\u00e7ar e depois de fechar aspas coloca um desses milhares de verbos que pretensamente substituem o dizer. J\u00e1 cortei coisas como suspira fulano. No fundo, a inven\u00e7\u00e3o artificial de substitutos ao verbo dizer significa, entre aspas, que os jornalistas est\u00e3o sendo criativos. N\u00e3o est\u00e3o. S\u00e3o apenas redundantes. Incorporaram os v\u00edcios da publicidade: repetir as mesmas f\u00f3rmulas at\u00e9 a o p\u00fablico optar pelo suic\u00eddio coletivo. Foi o que aconteceu com os incas quando viram os espanh\u00f3is chegar: se atiraram no abismo. L\u00e1 vem a telefonia castelhana! gritaram eles e se estatelaram nas pedras.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Costumo enfrentar oposi\u00e7\u00e3o quando elimino o v\u00edcio, muito comum hoje nas reda\u00e7\u00f5es, de se usar quinhentas varia\u00e7\u00f5es para substituir o verbo dizer. 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