{"id":2468,"date":"2010-12-23T10:22:38","date_gmt":"2010-12-23T10:22:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2468"},"modified":"2010-12-23T10:22:38","modified_gmt":"2010-12-23T10:22:38","slug":"cronicas-de-marcos-rey-fundamentos-do-oficio","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/cronicas-de-marcos-rey-fundamentos-do-oficio","title":{"rendered":"CR\u00d4NICAS DE MARCOS REY: FUNDAMENTOS DO OF\u00cdCIO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Edmundo Nonato (1925-1999) \u00e9 o cidad\u00e3o que assumiu o of\u00edcio de escritor por meio de seu principal personagem, Marcos Rey. Autor de extensa obra, de romances a contos, de novelas de TV a scripts para o cinema, de farta literatura infanto-juvenil a reportagens, ele agora tem reunido num belo volume as suas melhores cr\u00f4nicas. O lan\u00e7amento \u00e9 da Global Editora, que gentilmente me enviou um exemplar, j\u00e1 que fa\u00e7o parte do time de apresentadores com um trecho de resenha publicado na grande imprensa no auge do preconceito com Nonato (ele seria \u201ccomercial\u201d e n\u00e3o o que \u00e9 de verdade, um tremendo escritor). Estou bem acompanhado pelo meu querido Antonio Hohfeldt (um dos primeiros a resenhar meu livro de estr\u00e9ia), mais Leo Gilson Ribeiro, Wilson Martins e Fabio Lucas. Tima\u00e7o do qual me orgulho de fazer parte neste volume. A sele\u00e7\u00e3o e pref\u00e1cio s\u00e3o de Anna Maria Martins, de largos servi\u00e7os prestados \u00e0 cultura brasileira e \u00e0 literatura.<\/p>\n<p>Feitas as apresenta\u00e7\u00f5es, vamos \u00e0 festa. Tudo pode ser dito desta primorosa sele\u00e7\u00e3o de textos que se presta \u00e0s mais variadas an\u00e1lises, desde hist\u00f3ria do comportamento, mem\u00f3ria paulistana, vida errante de um autor pelas reda\u00e7\u00f5es e empregos em tr\u00eas quartos de s\u00e9culo, mais perfis variados de todo tipo de relacionamentos urbanos e conjugais. Sem falar na galeria de her\u00f3is, vil\u00f5es, beldades, empres\u00e1rios da noite e da comunica\u00e7\u00e3o, parentes, amigos, b\u00eabados em geral, amores v\u00e3os, tudo misturado num mural gigantesco da vida coletiva brasileira no s\u00e9culo 20. Uma preciosidade, como se v\u00ea, que d\u00e1 aulas sobre o Brasil que fomos e que se foi para sempre, fato que ele reporta e se transforma num dos oradores magistrais do funeral da na\u00e7\u00e3o maravilhosa, gentil, feliz, dolorosa e grandiosa que um dia fomos e talvez jamais voltaremos a ser.<\/p>\n<p>Tudo isso vale e quero que os estudiosos e leitores em geral tirem o m\u00e1ximo proveito de mais de 300 p\u00e1ginas de ouro que aqui aportam como um transatl\u00e2ntico numa ba\u00eda tormentosa, de onde saem as multid\u00f5es humanas que fazem parte da identidade do pa\u00eds. Mas eu prefiro abordar pelo que considero mais importante: Marcos Rey ensina os fundamentos da cr\u00f4nica. Ele praticamente entrega todos os lances e essa transpar\u00eancia faz deste livro um material de primeira grandeza para entendermos como se exerce esse g\u00eanero liter\u00e1rio t\u00e3o brasileiro, que desde os antigos cronistas evoluiu para a pena leve a maravilhosa de pessoas como Olavo Bilac, Machado de Assis, Jo\u00e3o do Rio, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Vin\u00edcius de Moraes, Manuel Bandeira, entre tantos outros.<\/p>\n<p>Um exemplo: algu\u00e9m sempre sugere que ele aproveite um fato para fazer uma cr\u00f4nica. Mas ele adverte que a cr\u00f4nica nada tem a ver com a realidade. Primeira li\u00e7\u00e3o: \u00e9 tudo t\u00e9cnica narrativa. Segundo: mais importante que o script s\u00e3o os personagens. E quais s\u00e3o eles, al\u00e9m dos citados acima? Fundamentalmente ele, o narrador, e a esposa, que ao longo dos textos adquire v\u00e1rios nomes, exatamente para mostrar que ela n\u00e3o passa de uma personagem, que se adapta ao tema adotado. Depois existem algumas figuras recorrentes, como o anjo Odilon, aquele que nunca aparece e lhe consegue empregos; o melhor amigo, Lorca, companheiro de farras e confid\u00eancias; o irm\u00e3o maios velho, Mario Donato, diretor de reda\u00e7\u00e3o que o introduz no jornalismo e lhe d\u00e1 aumento exigindo que ele \u201ccuide mais da mam\u00e3e\u201d. E finalmente, a principal personagem ,a cidade de S\u00e3o Paulo, descrita nos m\u00ednimos detalhes em d\u00e9cadas de vida plena.<\/p>\n<p>Definidos os personagens principais, s\u00e3o escolhidos os temas: o desemprego recorrente e sempre amea\u00e7ador, a aposentadoria vingativa, a mem\u00f3ria debochada e sem auto-complac\u00eancia, a vida profissional na televis\u00e3o, na publicidade, no jornalismo. E o que \u00e9 mais importante: cada cr\u00f4nica tem a dose certa de sacadas, de frases que complementam situa\u00e7\u00f5es, de desfechos que nos remetem ao in\u00edcio depois de o autor espairecer aleatoriamente sobre v\u00e1rios itens. Podem ser encarados como truques, mas \u00e9 puro conhecimento de como funciona a palavra sedutora que conquista o leitor desde a primeira frase.<\/p>\n<p>Lemos estas cr\u00f4nicas de Marcos Rey com alegria, com deslumbramento, com vontade de ficar para sempre sem nunca chegar \u00e0 \u00faltima p\u00e1gina. Uma vez encontrei-o numa feira do livro, me identifiquei, mas ele, no in\u00edcio, n\u00e3o lembrava muito de mim. Mas logo lembrou. Depois fiquei sabendo, por amigo que se deixou ficar um pouco mais no stand, que ficou aliviado por ter me reconhecido. \u201cViu s\u00f3?\u201d disse, orgulhoso, para sua companheira de feira, \u201ccomo eu lembrei daquele jornalista?\u201d Grande Edmundo Donato. Caio na tenta\u00e7\u00e3o e digo que esse seria um tema para mais uma de suas cr\u00f4nicas, j\u00e1 que o admirador sempre aspira ao status de personagem nas m\u00e3os de um mestre desta fic\u00e7\u00e3o que \u00e9 a vida real.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Edmundo Nonato (1925-1999) \u00e9 o cidad\u00e3o que assumiu o of\u00edcio de escritor por meio de seu principal personagem, Marcos Rey. 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