{"id":2488,"date":"2011-01-15T12:35:05","date_gmt":"2011-01-15T12:35:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2488"},"modified":"2011-01-15T12:35:05","modified_gmt":"2011-01-15T12:35:05","slug":"o-avesso","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-avesso","title":{"rendered":"O AVESSO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nOs lugares comuns entregam tudo, pois funcionam pelo avesso. Quem gosta de dizer fora de s\u00e9rie, por exemplo, \u00e9 adepto da mesmice. Quem te convida para jogar conversa fora tem pouco a dizer, j\u00e1 que desperdi\u00e7ou tudo. Quem pergunta como vai essa for\u00e7a te considera fraco \u2013 e bate com veem\u00eancia nas costas para ver se ag\u00fcentas. Quem manda beijo no cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem nada na cabe\u00e7a. Quem te aben\u00e7oa sem ter cacife nem mandato para isso no fundo te deseja outra coisa. Quem faz quest\u00e3o de expressar respeito pela tua opini\u00e3o despreza solenemente qualquer coisa que digas.<\/p>\n<p>Vivemos no mundo pelo avesso, ou bizarro, como quer a cultura pop das com\u00e9dias televisivas americanas ou dos comics. Nossas palavras se viram contra n\u00f3s. Teus argumentos servem para te condenar. Tua biografia \u00e9 suspeita. O passado \u00e9 um c\u00e3o de tocaia. As amizades sinceras acabam em alguma manifesta\u00e7\u00e3o de gan\u00e2ncia. Isso gera uma tremenda demanda no imagin\u00e1rio social. Disso se alimentam as ONGs, as campanhas de boa vontade, as doa\u00e7\u00f5es e muitas vezes o voluntariado. H\u00e1 felicidade em servir o pr\u00f3ximo, vemos isso todos os dias. Mas o gesto em p\u00fablico muitas vezes contraria gestos dom\u00e9sticos, onde a mesquinharia impera enquanto na rua somos o exemplo de cidadania.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que essa postura pelo avesso d\u00e1 lucro e \u00e0s vezes \u00e9 quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia. Quantas vezes n\u00e3o assumimos, mesmo sem acreditar nelas, posi\u00e7\u00f5es que pertencem exclusivamente \u00e0s corpora\u00e7\u00f5es para as quais trabalhamos? Chegamos a dar n\u00f3 em pingo d\u00b4\u00e1gua da consci\u00eancia para justificar uma id\u00e9ia, uma iniciativa. Quando sa\u00edmos de um emprego que por longo tempo nos sustentou, podemos ver o quanto de n\u00f3s era parte herdada daquele ambiente. Basta algumas semanas para vermos que nada daquilo nos diz respeito. Mas precisamos seguir em frente. Qual a pr\u00f3xima empresa que deveremos defender, apoiar e dizer sim para termos uma remunera\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>O sonho do neg\u00f3cio pr\u00f3prio tem muito a ver com essa necessidade de se dizer o que se pensa, de nos reencontrar. Mas costuma ser mais uma ilus\u00e3o. Ao abrirmos uma portinha, ficamos \u00e0 merc\u00ea de fornecedores e clientes. Todos s\u00e3o nossos patr\u00f5es e gostam de dizer como a coisa funciona. Hoje, com a transpar\u00eancia das m\u00eddias sociais, h\u00e1 receio em se entregar totalmente, pois os empregadores ou parceiros gostam de saber o que voc\u00ea est\u00e1 aprontando ali. \u00c9 uma ditadura velada, essa de seguir os passos dos indiv\u00edduos para prejudic\u00e1-los no cen\u00e1rio coletivo. A \u00fanica solu\u00e7\u00e3o \u00e9 queimar os navios, botar para quebrar. A vida \u00e9 curta e os bandidos se aproveitam de nossos limites para nos manter na soga.<\/p>\n<p>Isso gera problemas, claro, como tudo. Mas se o s\u00f3cio, empres\u00e1rio ou colaborador souber algo sobre liberdade de express\u00e3o, ir\u00e1 de fato respeitar tuas coloca\u00e7\u00f5es, sabendo que somos contradit\u00f3rios e escassos e que podemos mudar de opini\u00e3o. E que n\u00e3o misturamos as coisas, pois podemos muito bem ajudar a expressar o que uma entidade precisa dizer sem que isso interfira no nosso direito de dizer tudo em outros f\u00f3runs.<\/p>\n<p>\u00c9 fundamental essa divis\u00e3o de \u00e1guas para deixarmos de lado o cinismo que no fundo \u00e9 o que gera o pesadelo da linguagem, o uso excessivo de lugares comuns.<br \/>\n<em><br \/>\nCr\u00f4nica publicada no jornal Momento de Uruguaiana<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Os lugares comuns entregam tudo, pois funcionam pelo avesso. Quem gosta de dizer fora de s\u00e9rie, por exemplo, \u00e9 adepto da mesmice. Quem te convida para jogar conversa fora tem pouco a dizer, j\u00e1 que desperdi\u00e7ou tudo. 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