{"id":2496,"date":"2011-01-15T12:41:55","date_gmt":"2011-01-15T12:41:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2496"},"modified":"2011-01-15T12:41:55","modified_gmt":"2011-01-15T12:41:55","slug":"somewhere-o-incesto-da-memoria","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/somewhere-o-incesto-da-memoria","title":{"rendered":"SOMEWHERE: O INCESTO DA MEM\u00d3RIA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>O problema de usar certas palavras na internet \u00e9 que atrai todo tipo de tara. Lembro de uma resenha que precisei tirar porque falava de menores e isso desencadeou a busca dos sem-no\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o h\u00e1 como escapar da palavra incesto quando se trata de <em>Somewhere <\/em>(Um Lugar Qualquer), o premiado filme de Sophia Coppola, que me provocou um surto de f\u00faria no Twitter. Aos poucos fui voltando ao normal, j\u00e1 que me ocorreu uma s\u00e9rie de considera\u00e7\u00f5es sobre essa obra autista, onde a cineasta d\u00e1 voltas sem fim \u00e0s suas obsess\u00f5es e car\u00eancias e filma a vidinha a que est\u00e1 acostumada, cercada de luxo e aquelas preocupa\u00e7\u00f5es que pareciam fora de moda, como a incomunicabilidade, a solid\u00e3o, o vazio, coisas do cinema dos anos 50 e 60.<\/p>\n<p>O filme, claro, \u00e9 sobre cinema: os bastidores da vida de um ator c\u00e9lebre (Stephen Dorff, no papel exemplar do paspalho que parece ser), dividido entre festan\u00e7as, surubas, entrevistas, premia\u00e7\u00f5es, viagens e eventos variados. A mat\u00e9ria-prima de um cinema de espet\u00e1culo, que por motivos misteriosos atrai multid\u00f5es. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o do pai ausente de Sophia, o g\u00eanio Francis Ford Coppola, que carregava os filhos pelos hot\u00e9is afora enquanto fazia obras-primas. N\u00e3o tinha tempo para a fam\u00edlia, mas at\u00e9 hoje paga o tributo, j\u00e1 que precisa render-se \u00e0 sua voca\u00e7\u00e3o de italiano, apesar de ser essencialmente um americano (aquele tipo que expulsa os filhos de casa mal saem da puberdade). Ele \u00e9 a presen\u00e7a constante dos filmes da filha, que j\u00e1 nos deu grandes obras como Lost in Translation.<\/p>\n<p>Para onde leva esse cinema que d\u00e1 voltas sobre si mesmo? Para o vazio ou para gestos pretensamente libertadores (por que, em vez de abandonar sua Ferrari no deserto depois de fechar a conta no hotel de luxo, o bobalh\u00e3o n\u00e3o me d\u00e1 as chaves do carro e do apartamento enquanto ele torra no sola\u00e7o? Ora, porque tudo n\u00e3o passa de fic\u00e7\u00e3o da pior qualidade). Trata-se de uma den\u00fancia ou de uma entrega? Acho que as duas coisas. Sophia j\u00e1 tinha escrito um conto de fadas da menina que era filha de pais separados ricos e a deixavam vivendo com um mordomo num hotel (\u201cA vida sem Zoe\u201d, epis\u00f3dio dirigido pelo pai na obra coletiva de New York Stories). Lost in translation tamb\u00e9m se passa num hotel. Ou seja, ela n\u00e3o sai do reduto onde foi criada.<\/p>\n<p>Um hotel \u00e9 o lugar que causa alegria na chegada, mas logo em seguida d\u00e1 vontade partir, disse Sophia numa entrevista. S\u00f3 que ela, pelo menos no cinema, sai de uma su\u00edte para outra. Deveria carpir um lote para romper o c\u00edrculo autista. Mas o que a prende \u00e9 a mem\u00f3ria de um incesto n\u00e3o consumado. Um pai jovem e magro vive com uma garota de 11 anos (Ellen Fanning, fazendo filmes desde beb\u00ea)que, ao contr\u00e1rio dos amores fortuitos que desfilam na cama paterna, cozinha e prepara refei\u00e7\u00f5es no capricho. Esp\u00e9cie de fantasia adolescente com um homem mais velho, a rela\u00e7\u00e3o mantem-se no n\u00edvel do compartilhamento de futilidades, como tomar sol na piscina ou pedir todos os sorvetes na madrugada.<\/p>\n<p>N\u00e3o significa que haja pervers\u00e3o. \u00c9 pura fantasia da mem\u00f3ria, uma maneira de Sophia revisitar seus fantasmas, enquanto projeta uma vis\u00e3o crua da profiss\u00e3o familiar. Ela pertence a uma linhagem do grande cinema e j\u00e1 provou ser cineasta de primeiro time. Mas Somewhere peca pela sedu\u00e7\u00e3o do vazio que tenta denunciar. No fundo, \u00e9 uma celebra\u00e7\u00e3o, pois a maior parte do filme \u00e9 a curti\u00e7\u00e3o prazerosa de uma vida mansa e sem obst\u00e1culos. Os conflitos s\u00e3o fortuitos: mensagens no celular de um relacionamento que cobra sem aparecer; ou o choro sem sentido para a ex, confiss\u00e3o sem maiores conseq\u00fc\u00eancias e sem o m\u00ednimo de credibilidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o gostei, disse eu no Twitter. Agora digo por qu\u00ea. Mas talvez o que me incomoda sejam, no fundo, as qualidades do filme. Nunca se sabe. O cinema \u00e9 cheio de mist\u00e9rios.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s O problema de usar certas palavras na internet \u00e9 que atrai todo tipo de tara. Lembro de uma resenha que precisei tirar porque falava de menores e isso desencadeou a busca dos sem-no\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o h\u00e1 como escapar da palavra incesto quando se trata de Somewhere (Um Lugar Qualquer), o premiado filme de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2496"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2496"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2496\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2497,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2496\/revisions\/2497"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2496"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2496"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2496"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}