{"id":2551,"date":"2011-03-04T20:01:17","date_gmt":"2011-03-04T20:01:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2551"},"modified":"2011-03-04T20:01:17","modified_gmt":"2011-03-04T20:01:17","slug":"um-balanco-da-longa-estrada-do-rock","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/um-balanco-da-longa-estrada-do-rock","title":{"rendered":"UM BALAN\u00c7O DA LONGA ESTRADA DO ROCK"},"content":{"rendered":"<p><em>Resgato alguns textos que publiquei em 1977 e 1978 na Folha de S. Paulo, na Ilustrada. Aproveito (gra\u00e7as a Miguel Ducl\u00f3s, que me repassou uma c\u00f3pia da sua pesquisa) que o jornal colocou \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o seu acervo de 90 anos. Na mat\u00e9ria a seguir, uma arqueologia pessoal: o que eu pensava sobre rock, m\u00fasica, juventude etc. Uma curiosidade: talvez seja meu \u00fanico elogio a Scorsese, cineasta que execro. Mas nada como o registro de tudo o que escrevemos e sentimos. Assim poderemos ter uma vis\u00e3o completa do que somos ao longo do tempo.<\/em><\/p>\n<p>NEI DUCL\u00d3S<\/p>\n<p>Folha de S. Paulo, Ilustrada, 13 de julho de 1978<\/p>\n<p>A longa estrada do rock teria chegado ao fim? Uma an\u00e1lise apressada do filme &#8220;The Last Waltz&#8221; ( &#8220;O \u00faltimo concerto de rock&#8221;, de Martin Scorsese, que vai estrear no Rio e em S\u00e3o Paulo na pr\u00f3xima segunda-feira) concluiria que sim. Mas para quem gosta de rock nenhum necrol\u00f3gio da m\u00e1 vontade poder\u00e1 enterrar um processo musical riqu\u00edssimo, que abriu multas frentes e por Isso mesmo garantiu sua sobreviv\u00eancia, em termos de cria\u00e7\u00e3o, por um longo tempo. O que acontece em &#8220;The Last Waltz&#8221; \u2014 um concerto do grupo &#8220;The Band&#8221;, que re\u00fane grandes astros, como convidados \u00e9 apenas uma despedida simb\u00f3lica, uma gera\u00e7\u00e3o do rock, que se retira do palco e abre passagem para artistas mais jovens.<\/p>\n<p>&#8220;Foi um gesto de grande dignidade&#8221;, comentou Erasmo Carlos, presente na pr\u00e9-estr\u00eaia do filme no cine Rian, no Rio, na segunda-feira.<\/p>\n<p>Curiosamente, a presen\u00e7a de Erasmo, um pioneiro do rock no Brasil, complementa esse esp\u00edrito simb\u00f3lico que transparece em todo o filme. Pois, na tela, est\u00e3o representados todos os grandes momentos do rock, atrav\u00e9s de estrelas superconsagradas que, juntas, participaram do concerto de seis horas realizado em novembro do ano passado no Winterland Arena, de San Francisco, na Calif\u00f3rnia.<\/p>\n<p>Estavam presentes Eric Clapton, um dos melhores guitarristas do mundo e que, numa amplia\u00e7\u00e3o, representaria o virtuosismo que o rock alcan\u00e7ou, contrariando os cr\u00edticos que viam nesse g\u00eanero apenas barulho e falta de imagina\u00e7\u00e3o; Bob Dylan, o maior poeta do rock, que tamb\u00e9m por amplia\u00e7\u00e3o representaria a profundidade dessa gera\u00e7\u00e3o que sintetizou o espirito do seu tempo, que explodia nas ruas e for\u00e7ava a barra para romper com o ran\u00e7o passadista e propor uma nova vis\u00e3o de mundo; Ringo Star, que deu uma canja r\u00e1pida na m\u00fasica &#8220;1 Shall Be Released&#8221;, acompanhando Bob Dylan, na bateria, representando com sua presen\u00e7a a grande virada do rock atrav\u00e9s dos Beatles; Muddy Waters, estrela maravilhosa do Blues el\u00e9trico, representando as ra\u00edzes do rock, cantando seu &#8220;Ma nlsh Boy&#8221; para del\u00edrio das duas plat\u00e9ias \u2014 a do filme e a do cinema; al\u00e9m de Dr. John e Ronnle Hawks, veteranos rockeiros de palco, o excelente Neil Young, o balofo Neil Diamond. Paul Butterfleld, Joni Mitchel, o decadente Van Morrison e tamb\u00e9m a cantora Emmylou Harris e o conjunto The Staples. Os dois \u00faltimos gravaram em est\u00fadio cenas que foram aproveitadas para o filme.<\/p>\n<p>Devido \u00e2 pouco compet\u00eancia de alguns artistas que se apresentaram no concerto e \u00e0 pr\u00f3pria &#8220;The Band&#8221;, que \u00ea mais um grupo de acompanhamento. sem multo carisma, \u00e0s vezes o filme fica um pouco arrastado. Mas a experi\u00eancia de Scorsese. respons\u00e1vel pelo musical &#8220;New York. New York&#8221; e pela edi\u00e7\u00e3o do filme &#8220;Woodstock&#8221;, torna &#8220;The Last Waltz&#8221; um dos melhores filmes de rock j\u00e1 feitos. O diretor levou em considera\u00e7\u00e3o a posi\u00e7\u00e3o do The Band no mundo rock: uma banda que, em 16 anos de turn\u00eas, acompanhou &#8220;as maiores influ\u00eancias musicais de toda uma gera\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>E por isso que os cortes do show para as cenas de entrevistas com os cinco componentes do grupo \u2014 Levon Helm (bateria e vocal solo), Rick Danko (baixo e vocal), Garth Hudson (\u00f3rg\u00e3o, sintetlzador, sax), Richard Manuel (plano e vocal) e Robble Robertson (guitarra solo e vocal) \u2014 enriquece o espet\u00e1culo com revela\u00e7\u00f5es \u00f3timas sobre os bastidores do rock.<\/p>\n<p>Quem mais fala sobre esse mundo escondido das grandes plat\u00e9ias \u00e9 o guitarrista Robble Robertson, tamb\u00e9m produtor do filme e do \u00e1lbum triplo, trilha sonora do filme, lan\u00e7ado pela WEA, e que j\u00e1 est\u00e1 sendo vendido nas lojas. S\u00e3o dele as palavras de explica\u00e7\u00e3o sobre esse \u00faltimo trabalho do The Band \u2014 que depois do concerto se dissolveu, com cada participante seguindo seus pr\u00f3prios caminhos musicais: &#8220;A estrada foi nossa escola. Ela nos ensinou tudo o que sabemos. Estivemos oito anos pelos sub\u00farbios e oito anos pelas cidades. N\u00e3o posso dizer que tenho estado na estrada por 20 anos. Sou jovem demais para carregar isso nas costas. E pode parecer uma supersti\u00e7\u00e3o, mas a estrada nos levou grandes nomes, como Ottis Redding, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Elvis Presley. E imposs\u00edvel viver dessa maneira&#8221;.<\/p>\n<p>De todos os entrevistados, entretanto, \u00e9 o tecladista Rlchard Manuel o mais significativo nas suas declara\u00e7\u00f5es, n\u00e3o s\u00f4 pelo que ele diz, mas pelo que revela atrav\u00e9s de express\u00f5es, de gestos, que dizem muito mais do que as hist\u00f3rias que conta.<\/p>\n<p>Falando sobre os roubos do grupo nos supermercados na \u00e9poca de mis\u00e9ria, analisando, ao seu modo, a \u00e9poca &#8220;pslcod\u00e9lica&#8221;, ou contando a experi\u00eancia da banda nos shows de madrugada pelas &#8220;bocas&#8221; do Interior, Rlchard Manuel \u00e9 um documento vivo dessa transforma\u00e7\u00e3o no comportamento, que foi radical n\u00e3o s\u00f3 para uma gera\u00e7\u00e3o, mas para todo mundo.<\/p>\n<p>\u2014 As pessoas achavam, complementa Robertson, que os requebros de Elvis, por exemplo, tinham surgido do nada. Mas as escolas dos grupos de rock foram exatamente essas sess\u00f5es noturnas, que apresentavam artistas locais com esse tipo de comportamento no palco. Foi ai que surgiram as encena\u00e7\u00f5es comuns das bandas, que revelaram esse comportamento para o resto do mundo.<\/p>\n<p>O filme \u2014 e tamb\u00e9m o disco \u2014 vale por essas informa\u00e7\u00f5es fundamentais, desconhecidas do grande p\u00fablico, pela conten\u00e7\u00e3o da narrativa, pelo virtuosismo das c\u00e2maras e, pelo menos, pelas apari\u00e7\u00f5es de Bob Dylan \u2014 uns 15 minutos de charme e beleza musical \u2014 e de Muddy Waters. Infelizmente com um acompanhamento bastante Inferior, em &#8220;Manish Boy&#8221;, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 grava\u00e7\u00e3o original, no seu disco &#8220;Hard Agaln&#8221;, onde toca e canta junto com Johnny Winter e James Cotton.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode. entretanto, dizer que este \u00ea o fim de uma gera\u00e7\u00e3o nas suas apari\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. Depois de amanh\u00e3, por exemplo, o pr\u00f3prio Bob Dylan far\u00e1 um show em Londres junto com Eric Clapton. Essa estrada, na verdade, n\u00e3o termina nunca, pois o rock, que soube se enriquecer assimilando o jazz, a m\u00fasica erudita e a m\u00fasica oriental, entre outros g\u00eaneros \u2014 e tamb\u00e9m ajudando a transformar a m\u00fasica no resto do mundo nos salvou de uma fatalidade da civiliza\u00e7\u00e3o: envelhecer com amargura, &#8220;criar Ju\u00edzo&#8221; e odiar a Juventude. Na sua m\u00fasica &#8220;Forever Young&#8221;, a melhor do filme, Bob Dylan praticamente nos aben\u00e7oa, pedindo que &#8220;todos os nossos desejos se realizem&#8221; e repetindo um refr\u00e3o bel\u00edssimo, onde nos mobiliza para um sentimento maior: o da &#8220;eterna Juventude&#8221;, que \u00e9, no final das contas, o esp\u00edrito de toda a m\u00fasica redentora.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Resgato alguns textos que publiquei em 1977 e 1978 na Folha de S. 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