{"id":2556,"date":"2011-03-04T20:04:47","date_gmt":"2011-03-04T20:04:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2556"},"modified":"2011-03-04T20:04:47","modified_gmt":"2011-03-04T20:04:47","slug":"pastelao-x-escatologia-conflitos-opostos-na-comedia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/pastelao-x-escatologia-conflitos-opostos-na-comedia","title":{"rendered":"PASTEL\u00c3O X ESCATOLOGIA: CONFLITOS OPOSTOS NA COM\u00c9DIA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Parece ser a mesma coisa, mas n\u00e3o \u00e9. E a diferen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 apenas a \u00e9poca em que cada g\u00eanero de com\u00e9dia foi hegem\u00f4nico: o pastel\u00e3o na primeira metade do s\u00e9culo 20 e a escatologia a partir dos anos 80. Um \u00e9 oposto do outro. Vamos ver porqu\u00ea.<\/p>\n<p>O pastel\u00e3o \u00e9 o deboche dos pobres em rela\u00e7\u00e3o ao desperd\u00edcio e \u00e0 opul\u00eancia dos ricos, e, portanto, uma forma de fazer justi\u00e7a. Acontecia em banquetes, festas, eventos, \u00e1gapes: a guerra das tortas e bolos era o resultado de um conflito entre algum penetra e os convidados, entre um outsider e os membros oficiais do acontecimento. Era luta de classes: o desempregado acabava desencadeando sem querer a guerra, por vingan\u00e7a, mal entendido ou algum outro equivoco. A briga se generalizava e contaminava todos os bem postos, que ca\u00edam assim na gandaia.<\/p>\n<p>Era tamb\u00e9m uma forma de romper com o formalismo da cerim\u00f4nia e de denunciar a superficialidade das rela\u00e7\u00f5es humanas. Aproximava os contendores e os despia de suas fantasias sociais. Todos se igualavam com a cara branca de cobertura a\u00e7ucarada. O resultado era o fim do artificialismo e o encontro dos sentimentos verdadeiros, o amor que resultava num casamento muito esperado, uma amizade que n\u00e3o se pautava pelo dinheiro ou simplesmente uma afirma\u00e7\u00e3o da alegria diante da opress\u00e3o social.<\/p>\n<p>A f\u00f3rmula \u00e9 eterna porque funciona (h\u00e1 liga\u00e7\u00f5es fortes com a realidade)e se tornou cl\u00e1ssica. \u00c9 um g\u00eanero de cinema e \u00e9 tamb\u00e9m um recurso muito comum na narrativa cinematogr\u00e1fica de todos os feitios (at\u00e9 mesmo da com\u00e9dia escatol\u00f3gica, que tenta se confundir com o velho pastel\u00e3o). Mas era pautada por princ\u00edpios sociais que se desvaneceram com as duas guerras mundiais. A barb\u00e1rie tomou conta e a excessiva concentra\u00e7\u00e3o de riqueza, oposta \u00e0 \u00e9poca de escassez do pastel\u00e3o, determinou uma mudan\u00e7a profunda. Surgiu a com\u00e9dia escatol\u00f3gica, cheia de nojeira, com as fun\u00e7\u00f5es fisiol\u00f3gicas e as partes pudendas em destaque, com anti-her\u00f3is que procuram fazer rir com todo tipo de porcaria. O in\u00edcio foi naquela s\u00e9rie do American Pie, em que universit\u00e1rios ricos se locupletavam na porcariada fisiol\u00f3gica.<\/p>\n<p>\u00c9 outro tipo de transgress\u00e3o. Simplesmente \u00e9 um deboche do excesso contra a escassez. Nada mais rid\u00edculo do que ser pobre, nerd, virgem, defeituoso. Ent\u00e3o as cenas com porcarias servem para quem tem debochar de quem n\u00e3o tem. H\u00e1 in\u00fameros exemplos. Os filmes \u201cEsqueceram de mim\u201d \u00e9 t\u00edpica.O menino abandonado numa viagem de f\u00e9rias \u00e9 a inoc\u00eancia da riqueza, que se defende contra a vilania de dois ladr\u00f5es pobres. A arma \u00e9 a nojeira: melecas de todos os tipos e calibres caem sobre os infelizes como a dizer que uma fortaleza de milion\u00e1rios, ou de classe m\u00e9dia alta, tudo pode contra o assalto dos despossu\u00eddos sem lei nem \u00e9tica.<\/p>\n<p>A escatologia, portanto, \u00e9 o avesso do pastel\u00e3o,pois promove a injusti\u00e7a e nela se baseia. N\u00e3o \u00e9 por nada que o pastel\u00e3o s\u00f3 nos deu g\u00eanios, de Chaplin a Stan Laurel e Oliver Hardy, enquanto a escatologia nos deu os execr\u00e1veis Ben Stiller e Adam Slander . \u00c9 uma quest\u00e3o de l\u00f3gica. Daqui a pouco ningu\u00e9m mais vai ag\u00fcentar v\u00f4mito, peido, arroto em cena. E voltaremos a alguma forma de guerra de bolos, quando r\u00edamos da riqueza injusta e ador\u00e1vamos os caras que enfrentavam esses poderes com talento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Parece ser a mesma coisa, mas n\u00e3o \u00e9. 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