{"id":2560,"date":"2011-03-04T20:07:51","date_gmt":"2011-03-04T20:07:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2560"},"modified":"2011-03-04T20:07:51","modified_gmt":"2011-03-04T20:07:51","slug":"a-vida-e-uma-palavra","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-vida-e-uma-palavra","title":{"rendered":"A VIDA \u00c9 UMA PALAVRA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>No campo de futebol do Col\u00e9gio Santana, o professor nos colocou nas escadarias para observar e descrever a paisagem. Na \u00e9poca, os alunos, muito espertos, achavam aquilo uma besteira, j\u00e1 que a poesia, a narrativa celebrativa da natureza, era o lugar comum da literatura acess\u00edvel. N\u00e3o t\u00ednhamos contato com os modernistas ainda. S\u00f3 fui descobrir que existia Mario e Oswald de Andrade aos 19 anos, quando entrei no curso de Jornalismo da Ufrgs e fui apresentado,pelos professores, ao que tinha sido feito n\u00e3o apenas no s\u00e9culo 20 no Brasil, mas a preciosidades como poemas de Fernando Pessoa e Garcia Lorca.<\/p>\n<p>O mundo pode explodir \u00e0 sua volta ou desmanchar-se em encantamentos, mas se n\u00e3o existe um mestre para apontar o caminho tudo nos passa lotado. Foi isso o que realmente aprendi no tempo longo em que passei comparecendo aos bancos escolares. Al\u00e9m de ter feito aquela trajet\u00f3ria completa de pr\u00e9-prim\u00e1rio, prim\u00e1rio, gin\u00e1sio e cient\u00edfico, ainda entrei em tr\u00eas faculdades at\u00e9 me acertar com Hist\u00f3ria, que completei na Universidade de S\u00e3o Paulo. Tateei o conhecimento at\u00e9 chegar a algumas conclus\u00f5es, que n\u00e3o s\u00e3o definitivas, mas ajudam neste dif\u00edcil conv\u00edvio com as palavras.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que, lendo os parnasianos ou recitando Castro Alves e sem tomar conhecimento das revolu\u00e7\u00f5es culturais, eu sentia que faltava algo na literatura brasileira. Ter ido para Porto Alegre salvou a humanidade de um movimento liter\u00e1rio que seria liderada pelo poeta iniciante da fronteira. Lembro que no in\u00edcio da minha vida universit\u00e1ria meus versos tinham a pomposidade do s\u00e9culo 19, um excesso que aprendi a desbastar radicalmente nos anos posteriores. Foi um processo r\u00e1pido. Em contato com a Praxis e o Concretismo e na conversa com meus pares, enxuguei at\u00e9 o osso o que se derramava pelo espa\u00e7o em branco. At\u00e9 ver, finalmente, que tudo n\u00e3o passa de vogais (a alma da linguagem) e consoantes (suas ferramentas mais resistentes).<\/p>\n<p>Mas o que tenho de mais valioso levei da escola \u00e0 beira do rio Uruguaiana. O gosto pelo estudo, o h\u00e1bito de se concentrar para aprender, prestar aten\u00e7\u00e3o em aula, fazer os deveres de casa s\u00e3o coisas que me acompanham at\u00e9 hoje. Sou um cdf juramentado e nem a dispers\u00e3o natural da \u00e9poca da juventude levou embora esse patrim\u00f4nio arduamente conquistado em muitos anos de estudo.<\/p>\n<p>Em frente \u00e0 paisagem que se oferecia numa manh\u00e3 bonita de c\u00e9u azul e tempo firme, desses que n\u00e3o acontecem com tanta freq\u00fc\u00eancia hoje, fui encarregado, junto com os outros colegas, de dizer alguma coisa sobre o rio, as nuvens, os p\u00e1ssaros, as casas, o pa\u00eds vizinho que v\u00edamos, absortos, de caneta na m\u00e3o. Naquele momento, fiquei avesso \u00e0s brincadeiras de jogar papel uns nos outros. Descobri ali a chance de fazer literatura apoiada pelos adultos. Eles queriam quem eu escrevesse! N\u00e3o estava s\u00f3 naquele sonho louco de colocar palavras no papel. Existia um professor atento \u00e0s letras que tomavam forma diante do dia luminoso.<\/p>\n<p>Grande li\u00e7\u00e3o, inesquec\u00edvel. D\u00edvida impag\u00e1vel que temos com os que vieram antes e que parecem ter a sabedoria adquirida no nascimento.<\/p>\n<p><em>Cr\u00f4nica publicada na edi\u00e7\u00e3o 327 do jornal Momento de Uruguaiana. <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s No campo de futebol do Col\u00e9gio Santana, o professor nos colocou nas escadarias para observar e descrever a paisagem. Na \u00e9poca, os alunos, muito espertos, achavam aquilo uma besteira, j\u00e1 que a poesia, a narrativa celebrativa da natureza, era o lugar comum da literatura acess\u00edvel. 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