{"id":2562,"date":"2011-03-04T20:08:56","date_gmt":"2011-03-04T20:08:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2562"},"modified":"2011-03-04T20:08:56","modified_gmt":"2011-03-04T20:08:56","slug":"sindrome-do-deslocamento","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/sindrome-do-deslocamento","title":{"rendered":"S\u00cdNDROME DO DESLOCAMENTO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nO gesto diz tudo na proje\u00e7\u00e3o ininterrupta promovida pela sociedade do espet\u00e1culo. Uma das tend\u00eancias atuais, cada vez mais intensa e hegem\u00f4nica, \u00e9 a s\u00edndrome do deslocamento. \u00c9 a t\u00e9cnica, ou a arte, de convencer o entorno de que n\u00e3o estamos exatamente naquele lugar em que nos encontramos. \u00c9 uma quest\u00e3o de l\u00f3gica, pois fazemos parte de uma aristocracia que ocupa espa\u00e7os inacess\u00edveis ao gentio, \u00e0s pessoas comuns, aos advent\u00edcios e a todos os grupos que precisam ser marginalizados para ocuparmos o papel de protagonistas.<\/p>\n<p>Vou dar um exemplo: celular no ouvido em frente a interlocutores usado de maneira compulsiva. \u00c9 a maneira de ostentar que jamais estamos dispon\u00edveis para a fala direta, que \u00e9 entrecortada pelas interrup\u00e7\u00f5es de gente do outro lado da linha, muito mais importante e digna de aten\u00e7\u00e3o. A pessoa jamais est\u00e1 acess\u00edvel para quem fica na sua frente. Ela est\u00e1 acima da situa\u00e7\u00e3o, conectado com algo maior, como os deuses do Olimpo, ou algo parecido. \u00c9 tamb\u00e9m a imposi\u00e7\u00e3o do ego e das coisas pessoais sobre a conviv\u00eancia com o coletivo.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitas formas de \u201cprovar\u201d que fazemos parte de um grupo selecionado e que n\u00e3o navegamos na mar\u00e9 alta da mesmice e das pessoas comuns. \u201cJ\u00e1 falo contigo\u201d, por exemplo, \u00e9 uma frase muito usada quando estamos acompanhados por algu\u00e9m invej\u00e1vel. \u00c9 uma forma de dar um chega para l\u00e1 em quem se aproxima, de desloc\u00e1-lo para a periferia para podermos continuar no centro do evento. \u00c9 tamb\u00e9m uma forma de deixar em suspenso o outro que quis dizer alguma coisa. Damos uma pausa nele, como se faz no teclado do micro. Congela o pr\u00f3ximo para que ele n\u00e3o ameace nossa presen\u00e7a, que n\u00e3o aceita concorr\u00eancia.<\/p>\n<p>Nos textos, a s\u00edndrome do deslocamento \u00e9 muito percept\u00edvel. \u201cIsso veremos mais adiante\u201d: mais do que um recurso acad\u00eamico, \u00e9 a maneira de dizer que a aten\u00e7\u00e3o do leitor \u00e9 inteiramente manipulada pelo autor, que assim fica amarrado ao fluxo anal\u00f3gico proposto. A advert\u00eancia n\u00e3o faz mais sentido com o hipertexto e o universo digital. Tudo ao mesmo tempo agora: n\u00e3o adianta anunciar um artigo para amanh\u00e3 porque n\u00e3o cola mais. P\u00f5e no ar e n\u00e3o incomode. Diga logo com todas as letras o que tem a dizer porque estamos ocupados demais para ficar esperando.<\/p>\n<p>Esses h\u00e1bitos obsoletos persistem mesmo que as inova\u00e7\u00f5es abram caminhos diversos. J\u00e1 vi gente escrever que os computadores estavam \u201ctrabalhando a todo vapor\u201d. Ou que dois marmanjos entraram numa \u201csaia justa\u201d, que \u00e9 uma coisa do tempo do vestido apertado nos joelhos, onde qualquer contratempo poderia jogar a beldade no ch\u00e3o. Hoje, com as cal\u00e7as, os vestidos largos e as saias rodadas, \u00e9 dif\u00edcil que a justeza de uma pe\u00e7a de roupa possa ser par\u00e2metro para uma situa\u00e7\u00e3o delicada. A n\u00e3o ser nos encontros verdadeiros, em que o casal resolve aderir a estilos antigos para reavivar aquela velha emo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Recapitulando: a s\u00edndrome do deslocamento trabalha com a postura ol\u00edmpica e marginaliza pelo gesto estudado e a fala sucinta. Al\u00f4, governador? Um momento&#8230;Ok, vou interromper a cr\u00f4nica. Depois falo contigo.<\/p>\n<p><em> Cr\u00f4nica publicada originalmente no jornal Momento de Uruguaiana, edi\u00e7\u00e3o 328.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s O gesto diz tudo na proje\u00e7\u00e3o ininterrupta promovida pela sociedade do espet\u00e1culo. 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