{"id":2566,"date":"2011-03-04T20:11:34","date_gmt":"2011-03-04T20:11:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2566"},"modified":"2011-03-04T20:11:34","modified_gmt":"2011-03-04T20:11:34","slug":"a-impiedade-em-eli-wallach","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-impiedade-em-eli-wallach","title":{"rendered":"A IMPIEDADE EM ELI WALLACH"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Mau era o Jack Palance em Shane ou o Lee Van Cleef nos faroestes da It\u00e1lia ou da Am\u00e9rica. C\u00ednico era o Peter Ustinov em Nero. Histri\u00f4nico era o Anthony Quinn em Viva Zapata. Mas Eli Wallach, nascido em 1915 e ainda na ativa, \u00e9 tudo isso somado. Sua impiedade transcende a mera maldade. Ele n\u00e3o faz parte da humanidade: se coloca \u00e0 parte, para gozar, bem instalado em seu exoplaneta, os sofrimentos desses seres fr\u00e1geis e bizarros, os humanos. Basta v\u00ea-lo no papel do General em Lord Jim, como manobra com Peter O\u00b4Toole, tentando-o at\u00e9 a insanidade com sua l\u00f3gica mais do que perversa. Ou como se diverte fazendo o bandid\u00e3o Calvera em Magnificent Seven, quando tortura alde\u00f5es mexicanos e mata pistoleiros gringos. Ou como rouba o filme fazendo o papel do ladr\u00e3o Tuco em O Bom, o Mau e o Feio, de Sergio Leone, atirando de dentro da banheira cheia de espuma ou traindo Clint Eastwood em todas as sequ\u00eancias.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o \u00e9 deste mundo e se realiza colocando toda essa impiedade contra si mesmo, como acontece na cena antol\u00f3gica de O Poderoso Chef\u00e3o III em que se atira numa montanha de doces envenenados. Eli Wallach \u00e9 o personagem permanente que gera sentimentos al\u00e9m da raiva. Contra ele, apenas a perplexidade diante de sua ousadia, de contrariar o comportamento considerado normal de mocinhos ou vil\u00f5es. Ele \u00e9 um territ\u00f3rio hostil al\u00e9m do limite. Sua gargalhada \u00e9 uma epifania do Mal vitorioso, da voca\u00e7\u00e3o para a suprema vingan\u00e7a contra o equil\u00edbrio das emo\u00e7\u00f5es. Por isso surge do deserto como uma praga eg\u00edpcia. Provoca remorso sem remiss\u00e3o pois prova que n\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda para o horror de estar vivo.<\/p>\n<p>Seu olho cl\u00ednico fareja a inoc\u00eancia que se esconde em sociedades aparentemente perfeitas. \u00c9 uma curiosidade de \u00e1guia diante da alegria de destruir a presa antes de devor\u00e1-la. Ele se imp\u00f5e na tela como uma calamidade p\u00fablica onde n\u00e3o h\u00e1 mais espa\u00e7o para a omiss\u00e3o. Ele fascina porque inventou esse im\u00e3 que atrai as piores moscas da narrativa, l\u00e1 onde apodrecem as v\u00edtimas de sua inc\u00faria e de sua tirania. Quando surge, aos 95 anos, em Ghost Writer de Polanski, \u00e9 mais do que uma assombra\u00e7\u00e3o. Sua apari\u00e7\u00e3o assusta pois o consider\u00e1vamos morto, coisa do passado. Mas ele chega para derrubar a vers\u00e3o consagrada de um crime a aponta para as feridas do assassinato cometido no ermo. Temos medo n\u00e3o apenas desse velho que insiste em nos assombrar, mas pela dureza do mito, sua presen\u00e7a permanente e a prova de que n\u00e3o nos livraremos dele nunca.<\/p>\n<p>Enquanto os careteiros profissionais descambam em suas carreiras cretinas, Eli Wallach cada vez mais ocupa o lugar de honra das grandes personalidades do cinema. Em pap\u00e9is coadjuvantes em toda sua biografia,soube invadir o miolo do drama em personagens marcados para morrer ou serem desprezados.N\u00e3o podemos esquec\u00ea-lo nem fazer pouco do que nos traz \u00e0 tona: nossa precariedade infinita, mascarada por essa ilus\u00e3o de que somos especiais.Somos bichos predadores e queremos sangue, diz Eli Wallach que, assim, pelo avesso, nos devolve o que temos de mais leg\u00edtimo, a consci\u00eancia de nossa alma que enxerga com a lucidez dos que sabem que v\u00e3o morrer.<\/p>\n<p>Eli Wallach. A impiedade que n\u00e3o permite que o mundo se afogue na falsa imagem feita para o auto-consumo. Se somos aquela parede velha de uma birosca do M\u00e9xico, e sofremos a invas\u00e3o de malfeitores armados com todos os calibres, \u00e9 Eli Wallach que rebenta o tijolo e sai dele coberto de p\u00f3, com a cara transtornada de loucura, de rev\u00f3lver em punho, ao som do assobio inesquec\u00edvel de Enio Morricone. \u00c9 quando viramos os protagonistas de nossa imagina\u00e7\u00e3o, que estava prestes a afundar num charco de mediocridade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Mau era o Jack Palance em Shane ou o Lee Van Cleef nos faroestes da It\u00e1lia ou da Am\u00e9rica. C\u00ednico era o Peter Ustinov em Nero. Histri\u00f4nico era o Anthony Quinn em Viva Zapata. Mas Eli Wallach, nascido em 1915 e ainda na ativa, \u00e9 tudo isso somado. 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