{"id":2570,"date":"2011-03-04T20:14:26","date_gmt":"2011-03-04T20:14:26","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2570"},"modified":"2011-03-04T20:14:26","modified_gmt":"2011-03-04T20:14:26","slug":"alem-da-vida-os-outros-sentidos-do-cinema","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/alem-da-vida-os-outros-sentidos-do-cinema","title":{"rendered":"AL\u00c9M DA VIDA: OS OUTROS SENTIDOS DO CINEMA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o importa ver, mas sentir. Para isso existem os outros sentidos, como o tato, que serve para o m\u00e9dium interpretado por Matt Damon conseguir conex\u00e3o com os esp\u00edritos; o paladar, como na cena em que o casal troca impress\u00f5es sobre molhos fazendo rod\u00edzio de olhos vendados; a audi\u00e7\u00e3o, em que se escuta os di\u00e1logos que est\u00e3o sendo ditos al\u00e9m da vida; e o olfato, da morte depois do tsunami, ou das flores no encontro final. A vis\u00e3o se desdobra com a luz que a pessoa enxerga ao cruzar o umbral e os vultos que lhe aparecem quando est\u00e1 flutuando fora do corpo.<\/p>\n<p>A vis\u00e3o do chamado mundo real, longe dos outros sentidos (pelo menos do uso livre da comercializa\u00e7\u00e3o), \u00e9 colocada como a pris\u00e3o do cinema. Talvez por isso o visual do novo filme HereAfter (2010) de Clint Eastwood seja t\u00e3o comum e recorrente. \u00c9 o que o eterno presente do consumo tem a oferecer: a not\u00edcia, o evento, a cobertura, a ind\u00fastria audiovisual, a sociedade do espet\u00e1culo, o turismo, as ruas, os pr\u00e9dios, os autom\u00f3veis. A rep\u00f3rter de TV (C\u00e9cile De France), ao ser colhida pelo tsunami, abre a percep\u00e7\u00e3o para o que h\u00e1 al\u00e9m do espelho ao qual est\u00e1 acostumada. N\u00e3o se trata mais de v\u00eddeo, mas de vida e ela n\u00e3o est\u00e1 mais dispon\u00edvel para a obviedade e a mesmice.<\/p>\n<p>Para romper o sil\u00eancio contra tantas revela\u00e7\u00f5es, a rep\u00f3rter resolve escrever um livro sobre o cerco aos relatos e experi\u00eancias da vida al\u00e9m da morte. A palavra reinstaura verdades omitidas pelo ilusionismo ao redor: esse enfoque \u00e9 ilustrado pela presen\u00e7a constante de Charles Dickens, paix\u00e3o liter\u00e1ria do m\u00e9dium, que atrav\u00e9s do c\u00e9lebre autor acaba encontrando o que sempre procurou, uma companheira para que seu dom deixe de ser uma maldi\u00e7\u00e3o. Porque o verdadeiro sofrimento \u00e9 a solid\u00e3o: do homem que n\u00e3o suporta seus poderes de contatar os mortos, do g\u00eameo que perde o irm\u00e3o, da m\u00e3e viciada sem a guarda do filho, da ex-famosa que se v\u00ea atirada na vala comum do desemprego.<\/p>\n<p>O selo da morte, a solid\u00e3o maior, \u00e9 rompido no momento extremo, quando a mente se liberta do corpo agonizante e penetra numa fantasmagoria de vis\u00f5es e sinais. O que de real h\u00e1 nesse mundo oculto e o que de ilus\u00f3rio h\u00e1 no mundo hegem\u00f4nico que nos rodeia s\u00e3o os elementos que comp\u00f5em a hist\u00f3ria, escrita pelo brilhante Peter Morgan (o mesmo de Frost\/Nixon, A Rainha e O \u00daltimo Rei da Esc\u00f3cia). Trata-se da dissemina\u00e7\u00e3o de um poder que est\u00e1 travado em todos, j\u00e1 que a jornalista tamb\u00e9m v\u00ea os mortos quando \u00e9 colhida pelas \u00e1guas do tsunami e o garoto interage com o irm\u00e3o que se foi ao capturar o bon\u00e9 perdido no metr\u00f4 e se salvando assim de um acidente.<\/p>\n<p>Os indiv\u00edduos entregues \u00e0 pr\u00f3pria sorte enfrentam a demiss\u00e3o num sistema econ\u00f4mico excludente e gerador de mis\u00e9ria . Os sinais dessa exclus\u00e3o podem ser lidos na publicidade, quando os posters da profissional agora desempregada s\u00e3o substitu\u00eddos por outra modelo. Os sinais exteriores de mis\u00e9ria espiritual est\u00e3o por toda parte, enquanto as pessoas tateiam suas sensa\u00e7\u00f5es cercados pela press\u00e3o contra o espiritualismo, ou pela dilui\u00e7\u00e3o proporcionada pelo charlatanismo. Clint\/Morgan trabalham o tema com cuidado, para n\u00e3o incorrer na vala comum dos preconceitos. Cercam as viv\u00eancias por meio de performances s\u00f3lidas dos atores encarnando protagonistas intensos e com um script que, se n\u00e3o aprofunda o tema, pelo menos n\u00e3o o desmerece.<\/p>\n<p>\u201c Al\u00e9m da vida\u201d \u00e9, como todos (desculpem a insist\u00eancia), sobre cinema: quando olhar n\u00e3o \u00e9 suficiente, \u00e9 preciso apelar para os outros sentidos, t\u00e3o fora da ordem quanto as experi\u00eancias com a morte. O sabor de uma culin\u00e1ria aprendida com um mestre ou o toque revelador de outros mundos levam vidas imersas na mediocridade visual e sensorial para o choro, o desespero e finalmente o amor. Num mundo padronizado, que aprisionou o olhar, as pessoas escapam pelo que ainda est\u00e1 oculto, a leg\u00edtima experi\u00eancia sensorial da vida fora da vida. \u00c9 a met\u00e1fora do que devemos perseguir: algo que transcenda o mundano e assim fa\u00e7a surgir um caminho mais pr\u00f3ximo da nossa riqueza cultural, sufocada pelo com\u00e9rcio e a indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Pois n\u00e3o h\u00e1 consolo neste universo duro: o garoto que perde o contato da m\u00e3e n\u00e3o encontra conforto espiritual nem no espiritismo nem no catolicismo; o m\u00e9dium que tenta recompor a vida sem exercer seu dom acaba sempre sendo envolvido pelo interesse das pessoas em querer saber o que se passa com elas; o irm\u00e3o do m\u00e9dium que quer enriquecer com a consultas \u00e9 o retrato do descompasso permanente entre o status e a necessidade de ascens\u00e3o social; e a jornalista bem sucedida acaba se enredando na exclus\u00e3o quando tenta ser sincera. Para resgatar o que perdemos, e que se situa al\u00e9m dos cinco sentidos, \u00e9 preciso recuper\u00e1-los, mas transformados pela decis\u00e3o pessoal e a coragem.<\/p>\n<p>O melhor \u00e9 que tudo isso n\u00e3o \u00e9 contado com bons sentimentos, mas com a compet\u00eancia de Clint, hoje um dos cineastas mais importantes do mundo. Ok, \u00e9 um projeto comercial que aborda um tema que est\u00e1 fazendo sucesso. Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. Na regi\u00e3o confusa da morte em vida, nasce a possibilidade de reencontrar o que foi para sempre perdido. Nosso olhar liberto de tanta tralha, talvez. Nossos sentidos recuperados e prontos para interagir mais com as coisas que deixamos de lado. N\u00e3o mais a m\u00e1xima zen do aqui e agora, mas o aqui e depois (HereAfter), pois s\u00f3 assim nos libertamos da presentifica\u00e7\u00e3o imposta e poderemos palmilhar outras paragens com nossa transcend\u00eancia.<\/p>\n<p>Grande Clint. Sempre um bom filme para nos fazer companhia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s N\u00e3o importa ver, mas sentir. 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