{"id":2585,"date":"2011-04-09T14:10:43","date_gmt":"2011-04-09T14:10:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2585"},"modified":"2011-04-09T14:10:43","modified_gmt":"2011-04-09T14:10:43","slug":"som-de-sino","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/som-de-sino","title":{"rendered":"SOM DE SINO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Um ru\u00eddo noturno insistente e de origem desconhecida vibra por toda parte. No quarto, na sala, no escrit\u00f3rio, ele toca metal ressonante, seguidamente, depois some por alguns momentos. De dia, n\u00e3o se manifesta. \u00c0 noite, quando estamos ainda despertos e fazendo alguma algazarra , tamb\u00e9m n\u00e3o se ouve. Mas basta um s\u00fabito sil\u00eancio, na noite alta, para reaparecer, sem que possamos atinar de onde vem.<\/p>\n<p>J\u00e1 ultrapassei minha fase m\u00edstica. N\u00e3o que n\u00e3o acredite em nada, mas entendi como funciona a armadilha da curiosidade sobre acontecimentos misteriosos: voc\u00ea se envolve, acredita e depois passa, esquece. Fica o dito pelo n\u00e3o dito. Essas percep\u00e7\u00f5es parecem fantasmas se forem relacionadas com conceitos, id\u00e9ias e h\u00e1bitos, firmes, que adquirimos na chamada vida real. A toda hora vejo not\u00edcias sobre a possibilidade de viajar no tempo, do teletransporte, do infinito n\u00famero de universos, mas j\u00e1 me acostumei ao que tenho ao redor e isso acaba se impondo.<\/p>\n<p>No fundo, acabo duvidando que esp\u00edritos possam existir de fato, a n\u00e3o ser como evid\u00eancia cultural, j\u00e1 que est\u00e3o presentes em todo o mundo e em todas as \u00e9pocas. N\u00e3o h\u00e1 civiliza\u00e7\u00e3o que despreze a exist\u00eancia do mundo dos mortos. Mas as contas a pagar, os projetos travados, as inunda\u00e7\u00f5es e o morma\u00e7o, as manifesta\u00e7\u00f5es de massa e a hist\u00f3ria verdadeira do in\u00edcio da Rep\u00fablica acabam me tomando toda a aten\u00e7\u00e3o e n\u00e3o tenho energia ou paci\u00eancia para ficar cuidando de coisas do al\u00e9m.<\/p>\n<p>Mas confesso que o som surdo de sino de toda noite me invoca. Seria um chamado? Estaria sendo produzido em algum recanto inacess\u00edvel da mat\u00e9ria escura? Seria para me lembrar das badaladas de igrejas ou do col\u00e9gio, quando \u00e9ramos convocados para a aula ou a missa? Ser\u00e1 o an\u00fancio espiritual do carnaval por chegar? Bong, bong, bong. Reviro arm\u00e1rios, gavetas, esquadrinho cantos, olho s\u00f3t\u00e3o, vou mil vezes ao quintal, ponho o ouvido na parede e nada. Fico ent\u00e3o imaginando coisas.<\/p>\n<p>Seria eu mesmo avisando que uma parte de mim est\u00e1 presa num corredor de sombras? Seria um n\u00e1ufrago no mar ignoto que, como \u00faltimo recurso, bate um peda\u00e7o de cobre que achou na praia deserta para onde foi empurrado e que o acompanha nessa viagem desesperada em busca de salva\u00e7\u00e3o? Ou seria apenas um vazamento, ou at\u00e9 mesmo implic\u00e2ncia dos vizinhos, t\u00e3o afeitos \u00e0 voca\u00e7\u00e3o de faze barulho por nada?<\/p>\n<p>N\u00e3o consegui desvendar o mist\u00e9rio e deixo para l\u00e1. Tem tanta coisa que n\u00e3o conseguimos entender. Por que colocam meia d\u00fazia de homens e mulheres cheios de sa\u00fade a deitar-se em frente \u00e0s c\u00e2maras se ro\u00e7ando ou falando besteira, ou pior, se condenando uns aos outros ao pared\u00e3o? Por que implicaram com o vestibular? Por que antigos corruptos voltam lampeiros \u00e0 cena do crime como se nada tivesse acontecido?<\/p>\n<p>Bong, bong, bong. Talvez seja um an\u00fancio do ju\u00edzo final, cada vez mais pr\u00f3ximo e evidente. Ou ent\u00e3o \u00e9 imagina\u00e7\u00e3o minha, com a mente exausta de tantas perguntas e que se entrega a algo indecifr\u00e1vel, talvez para ficar atento ao que possa existir embaixo do piso, na casa ao lado ou l\u00e1 no \u00faltimo c\u00e9u, onde anjos nos aguardam, com agog\u00f4s e tamborins, preparados para sairmos num bloco de sujo.<\/p>\n<p><em>Cr\u00f4nica publicada na edi\u00e7\u00e3o 329 do jornal Momento de Uruguaiana<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Um ru\u00eddo noturno insistente e de origem desconhecida vibra por toda parte. No quarto, na sala, no escrit\u00f3rio, ele toca metal ressonante, seguidamente, depois some por alguns momentos. De dia, n\u00e3o se manifesta. \u00c0 noite, quando estamos ainda despertos e fazendo alguma algazarra , tamb\u00e9m n\u00e3o se ouve. 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