{"id":2590,"date":"2011-04-09T14:15:50","date_gmt":"2011-04-09T14:15:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2590"},"modified":"2011-04-09T14:15:50","modified_gmt":"2011-04-09T14:15:50","slug":"tios","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/tios","title":{"rendered":"TIOS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s <\/strong><\/p>\n<p>A palavra tio perdeu o valor quando virou apelido de desconhecidos. Mas tive tios inesquec\u00edveis, personagens de uma literatura que roda pelo Brasil profundo. Com pai de origem muito pobre, conheci seus irm\u00e3os que gravitavam em torno da nossa vida. Ganharam nomes comuns na \u00e9poca, como Valdemar, que se aposentou como sargento da Brigada e n\u00e3o teve filhos, e Antenor, pescador de casamentos e proles inumer\u00e1veis. Alguns acontecimentos protagonizados pelos dois se tornaram cl\u00e1ssicos na fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Valdemar lutou em quatro guerras, de 1923 a 1932. Primog\u00eanito, precisou trabalhar desde cedo e encontrou a salva\u00e7\u00e3o na farda do ex\u00e9rcito estadual, onde era poss\u00edvel ter um soldo, rancho e at\u00e9 mesmo uma certid\u00e3o de nascimento, rara naqueles ermos. Grande cozinheiro, especializou-se em p\u00e3es saborosos e past\u00e9is de fechar o com\u00e9rcio. Como \u00e9ramos uma quadrilha de petizes vorazes a rondar o padeiro, que conseguia o ponto quando a primeira gota de suor ca\u00eda na massa, ele um dia prop\u00f4s um desafio.<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00eas vivem reclamando que fa\u00e7o pouco. Hoje vou fritar pastel at\u00e9 arrebentar\u201d. E come\u00e7ou a gincana. No mil\u00e9simo exemplar depositado na enorme bandeja e devorado em meio segundo, jogou tudo para o alto. \u201cN\u00e3o adianta. Voc\u00eas tem \u00e1cido de bateria no est\u00f4mago\u201d. \u00c9 c\u00e9lebre sua predile\u00e7\u00e3o pela carne de frango, que exigia nas campanhas militares, quando acampava com seu destacamento em s\u00edtios de cria\u00e7\u00e3o. \u201cTem galinha?\u201d era a senha que decidia o pernoite. Um dia resolveu cri\u00e1-las. Comeu tudo antes do lucro.<\/p>\n<p>Conto sempre as hist\u00f3rias de Valdemar e deixo de lado as perip\u00e9cias de Antenor, mais ausente, mas n\u00e3o menos folcl\u00f3rico. Jogou fora o fog\u00e3o presenteado por meu pai porque a comida tinha gosto de g\u00e1s. Morava em barracos ca\u00eddos e por muito tempo dispensou as portas. Costumava apertar os dedos nelas porque n\u00e3o estava habituado. Vivia na beira do rio desenredando linhadas. Quando foi contratado para cuidar do armaz\u00e9m montado no grande galp\u00e3o nos fundos da minha casa, acabava dormindo em cima da balan\u00e7a que pesava os sacos de mantimentos.<\/p>\n<p>\u201cV\u00e3o comprar no Mirotti\u201d, dizia para os fregueses insistentes, encaminhando-os para o bolicho mais pr\u00f3ximo. Virava-se para o lado e continuava a dormir. Grandes tios.<\/p>\n<p><em>Cr\u00f4nica publicada no dia 8 de mar\u00e7o de 2011, no caderno Variedades, do Di\u00e1rio Catarinense<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s A palavra tio perdeu o valor quando virou apelido de desconhecidos. Mas tive tios inesquec\u00edveis, personagens de uma literatura que roda pelo Brasil profundo. Com pai de origem muito pobre, conheci seus irm\u00e3os que gravitavam em torno da nossa vida. Ganharam nomes comuns na \u00e9poca, como Valdemar, que se aposentou como sargento da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2590"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2590"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2590\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2591,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2590\/revisions\/2591"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2590"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2590"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2590"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}