{"id":2592,"date":"2011-04-09T14:17:02","date_gmt":"2011-04-09T14:17:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2592"},"modified":"2011-04-09T14:17:02","modified_gmt":"2011-04-09T14:17:02","slug":"por-que-no-cinema-funciona","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/por-que-no-cinema-funciona","title":{"rendered":"POR QUE NO CINEMA FUNCIONA?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Os americanos se especializaram no \u201cit works\u201d, aquilo que funciona no cinema. \u00c9 quase uma identidade nacional: nenhum outro pa\u00eds a exerce com tanta regularidade e maestria. Talvez seja o diferencial decisivo, fruto de uma radicalidade cultural: a de que a representa\u00e7\u00e3o tem vida pr\u00f3pria e regras espec\u00edficas, que, se forem obedecidas podem inclusive ser mais significativas nas suas liga\u00e7\u00f5es com a realidade. \u00c9 um paradoxo: como a trai\u00e7\u00e3o ao real pode ser seu aliado? Talvez isso nem importe, pois de que vale a realidade se ela n\u00e3o tem a m\u00ednima gra\u00e7a? O que pega, talvez, \u00e9 o usufruto dessa arte, que faz do espet\u00e1culo algo inesquec\u00edvel e perene. Mesmo que seja uma bobagem como Midnight run.<\/p>\n<p><em>Fuga \u00e0 meia noite<\/em>, de 1988, dirigido por Martin Brest e escrito por George Gallo, com Robert Robert De Niro, Charles Grodin e Yaphet Kotto \u00e9 uma sequ\u00eancia de impossibilidades num roteiro batido, mas que funcionam maravilhosamente. \u00c9 um road movies fundado num anacronismo, o ca\u00e7ador de recompensas, que precisa levar o contador da M\u00e1fia, escondido e testemunha chave contra a bandidagem, de Nova York para Los Angeles. O truque \u00e9 impedir que eles fa\u00e7am uma viagem normal e cada perip\u00e9cia se transforme num transtorno divertido para os espectadores, e mortais para os protagonistas. Quais s\u00e3o as impossibilidades que funcionam?<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m revista o contador apesar de passar por v\u00e1rias m\u00e3os. Ele carrega 300 mil d\u00f3lares numa cinta colocada nos pa\u00edses baixos, que s\u00e3o repassados para seu algoz e depois salvador no desfecho da trama.No caminho, o mesmo sujeito que carregava uma fortuna passa fome porque n\u00e3o disp\u00f5e de um tost\u00e3o. Ao mesmo tempo, o perseguidor conta todo seu trajeto para seu empregador, sem desconfiar jamais que suas informa\u00e7\u00f5es estavam sendo repassadas para a m\u00e1fia. S\u00f3 cai a ficha quando acontece pela mil\u00e9sima vez.<\/p>\n<p>N\u00e3o faz sentido, mas a grana preta carregada pelo contador \u00e9 o pr\u00eamio que De Niro ganha no final, ele que tinha sido expulso da pol\u00edcia porque n\u00e3o tinha aceitado suborno e agora sai rico por aceitar o presente de sua ex-v\u00edtima. Ningu\u00e9m pergunta nada sobre essas contradi\u00e7\u00f5es. A cena final, em que recebe o dinheiro e implora troco para notas de mil d\u00f3lares para os taxis o levarem, \u00e9 emocionante. Se o cara tinha 300 paus o tempo todo, porque n\u00e3o subornou o outro ca\u00e7ador de recompensa, que fazia o mesmo servi\u00e7o por 25 mil? Porque a hist\u00f3ria perderia a gra\u00e7a, e portanto, o sentido.Os americanos s\u00e3o ciosos da fisga sobre o p\u00fablico e n\u00e3o abre m\u00e3o do que funciona para o filme fazer sucesso.<\/p>\n<p>Se o rel\u00f3gio estragou para sempre, por que De Niro vive mexendo com ele, tentado traz\u00ea-lo de volta \u00e0 vida? Porque \u00e9 um objeto de estima\u00e7\u00e3o e sua insist\u00eancia faz parte de sua identidade. N\u00e3o s\u00f3 psicol\u00f3gica, mas tamb\u00e9m visual, pois s\u00f3 no cinema um personagem \u00e9 caracterizado pelor sacudir intermin\u00e1vel do rel\u00f3gio de pulso enquanto fuma sem cessar. Lembrei de Lima Duarte fazendo o mesmo em Roque Santeiro. Mas a novela foi feita tr\u00eas anos do filme, portanto Duarte precede De Niro.<\/p>\n<p>Outra coisa que funciona \u00e9 a duplicidade \u00e9tica dos personagens. Charles Grodin (na foto acima sendo levado pelo cangote por De Niro), excelente como o perseguido, \u00e9 um contador honesto que queria pegar a m\u00e1afia no flagrante, mas dan\u00e7ou porque tinha policial corrupto no meio. Ou seja, \u00e9 um sujeito \u00e9tico no meio da bandidagem. Como prisioneiro, \u00e9 visto e tratado como um meliante, mas aos poucos vai se revelando honesto. S\u00f3 que, no meio da viagem, precisando de dinheiro, rouba uma birosca fingindo-se de agente do FBI. De Niro tamb\u00e9m rouba a identidade de um agente ( o magn\u00edfico Yaphet Kotto, que define seu persoangem com a disputa de um par de \u00f3culos escuros e alguns olhares sinistros), rouba carros pelo caminho, tudo pelo social: precisa da recompensa para montar uma lanchonete.<\/p>\n<p>Mas ele sabe que ir\u00e1 entregar a v\u00edtima para a morte, pois na pris\u00e3o a m\u00e1fia dar\u00e1 um jeito de apag\u00e1-lo. Essa contradi\u00e7\u00e3o acaba levando-o para a liberta\u00e7\u00e3o do prisioneiro, gesto que \u00e9 recompensado com grana do Mal guardado por sua v\u00edtima. Tudo funciona nessa sequ\u00eancia de impossibilidades. A rela\u00e7\u00e3o complicada e cheia de sintonias entre os dois, a briga pelos \u00f3culos escuros com o policial, a velha persegui\u00e7\u00e3o de helic\u00f3ptero contra um autom\u00f3vel na autoestrada e outros lugares comuns levaram muitos cr\u00edticos a torcer o nariz. Mas eu gostei. Achei no De Niro \u00f3timo, ator que n\u00e3o em agrada e costumo implicar bastante, pois conseguiu consenso fazendo careta demais para o meu gosto.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 isso. Queria falar sobre o filme que vi na Band no domingo passado e falei. Pronto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Os americanos se especializaram no \u201cit works\u201d, aquilo que funciona no cinema. \u00c9 quase uma identidade nacional: nenhum outro pa\u00eds a exerce com tanta regularidade e maestria. 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