{"id":2594,"date":"2011-04-09T14:19:42","date_gmt":"2011-04-09T14:19:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2594"},"modified":"2011-04-09T14:19:42","modified_gmt":"2011-04-09T14:19:42","slug":"o-falso-cinema-da-miseria","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-falso-cinema-da-miseria","title":{"rendered":"O FALSO CINEMA DA MIS\u00c9RIA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o vi filme sobre a mis\u00e9ria americana que acabasse mal. O \u00fanico que me assustou de verdade foi <em>Deliverance <\/em>(1972), de John Boorman. Ou o marginalizado filme de Hector Babenco , <em>Ironweed<\/em>, mas a\u00ed n\u00e3o vale, Babenco \u00e9 argentin&#8230;digo, brasileiro. Mas o que tenho visto \u00e9 sempre uma falsa abordagem. No fundo n\u00e3o \u00e9 sobre mis\u00e9ria, mas reden\u00e7\u00e3o. Sobre mis\u00e9ria \u00e9<em> Cidade de Deus<\/em> ou <em>Tropa de Elite<\/em>. Nisso somos profissionais. Mas os americanos sempre d\u00e3o um jeito de, sob o som sedutor do country ou do blues, fazer dos seus personagens arrebentados uma li\u00e7\u00e3o positiva de vida. Alguns se estropiam de verdade, mas nunca os protagonistas. Como acontece com <strong>Winter\u00b4s Bone<\/strong> (traduzido bregamente para <em>Inverno na Alma<\/em>), da diretora Debra Granik. Como filme \u00e9 recente, aviso que este texto cont\u00e9m spoilers. N\u00e3o leia se n\u00e3o viu ainda.<\/p>\n<p>Cinema, na m\u00e3o de alguns filmakers, n\u00e3o passa de vingan\u00e7a. Debra aborda mulheres e seus maridos malvados. Sozinhas, loucas, abandonadas ou em grupos que formam o har\u00e9m de um traficante, elas buscam\/escondem o mal de suas vidas, um pai omisso e drogado e delator desaparecido. A exposi\u00e7\u00e3o de baixarias n\u00e3o faz de nenhum filme um portento revolucion\u00e1rio. \u00c9 o caso aqui. A cena da serra el\u00e9trica \u00e9 digna da s\u00e9rie do mesmo nome e est\u00e1 no n\u00edvel dos tomates assassinos. Para vingar-se do mundo masculino, vale qualquer expediente.<\/p>\n<p>Leio as cr\u00edticas e elas s\u00e3o t\u00e3o confusas quanto o roteiro. As pessoas n\u00e3o sabem se devem gostar. Mas a charada se resolve facilmente: o plot \u00e9 interessante, mas a solu\u00e7\u00e3o da trama n\u00e3o convence, o roteiro se perde. Em O Terceiro Homem, Carol Reed mostra o desaparecido vivo (Orson Welles, inesquec\u00edvel). Faz sentido.Voc\u00ea n\u00e3o perde tempo vendo um suspense que patina em algo \u00f3bvio como a elipse total. Esconder um personagem precisa ser algo passageiro, n\u00e3o definitivo. \u00c9 o que funciona em cinema. Lembrem de Rastros de \u00d3dio. A garota seq\u00fcestrada estava viva? Todas as esperan\u00e7as se foram. De repente, o olhar de Jeffrey Hunter se incendeia. A \u00edndia que mostra os escalpos na tenda do cacique Scar&#8230;\u00e9 ela! S\u00e3o li\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas de cinema que Debra n\u00e3o assimila. Um mist\u00e9rio n\u00e3o pode aparecer morto. Ele deve pulsar para salvar o filme.Sen\u00e3o o universo perde a gra\u00e7a<\/p>\n<p>Para provar que a adolescente (a bela e excelente Jeeniffer Lawrence, na foto acima) n\u00e3o abandona suas responsabilidades e tem mais tutano do que toda a testosterona reunida no mundo, n\u00e3o precisava exibir uma sequ\u00eancia t\u00e3o inveross\u00edmel de maldade. A cena do barco \u00e9 de matar o espectador,pela bizarrice e apela\u00e7\u00e3o. E aqueles mal encarados n\u00e3o assustam ningu\u00e9m. S\u00e3o representa\u00e7\u00f5es do mal masculino, n\u00e3o o mal em si, como Jack Palance em Shane. S\u00e3o extremamente fr\u00e1geis em suas amea\u00e7as e no fim quem d\u00e1 um pau na v\u00edtima n\u00e3o s\u00e3o eles, \u00e9 o har\u00e9m \u2013 uma forma de mostrar igualdade de g\u00eaneros, uma preocupa\u00e7\u00e3o que ainda vai tomar o imagin\u00e1rio nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, j\u00e1 que estamos ainda come\u00e7ando (coragem!).<\/p>\n<p>Mas a verdade \u00e9 que as pessoas miser\u00e1veis desse filme tem recursos, patrim\u00f4nio, ganham uma bolada no final, resolvem suas vidas, acham o que procuravam e ainda tocam banjo para alegrar os cora\u00e7\u00f5es. \u00c9 um filme bonzinho, mas que se revela vazio apesar de toda a apar\u00eancia de densidade. Portanto, n\u00e3o h\u00e1 o que confundir. O filme n\u00e3o faz parte das obras cinematogr\u00e1ficas que valem a pena. Pode ser visto,mas depois n\u00e3o se queixe.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s N\u00e3o vi filme sobre a mis\u00e9ria americana que acabasse mal. 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