{"id":2596,"date":"2011-04-09T14:20:57","date_gmt":"2011-04-09T14:20:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2596"},"modified":"2011-04-09T14:20:57","modified_gmt":"2011-04-09T14:20:57","slug":"a-catedral-de-cada-um","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-catedral-de-cada-um","title":{"rendered":"A CATEDRAL DE CADA UM"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Cada pessoa constr\u00f3i uma ab\u00f3boda virtual onde trafega, exposta para a observa\u00e7\u00e3o alheia ou recolhida em si mesma. Gost\u00e1vamos da igrejinha da bossa nova, do u\u00edsque do Vin\u00edcius e das conversas do Tom. Viv\u00edamos encantados com a secura e o mau humor de Drummond de Andrade, pois a cada momento poderia surgiu um jardim, brotar uma rosa na sua poesia avessa. Quisemos um dia morar no texto de Saint-Exupery e viramos fi\u00e9is dos assombros de Borges. Seguimos os passos de Carpentier e Conrad tomando notas. Fizemos parte da roda de Sim\u00f5es Lopes Neto e Guimar\u00e3es Rosa. Mas esses exemplos s\u00e3o raros. O que temos \u00e9 uma overdose de ofertas na ind\u00fastria do espet\u00e1culo ou fora dela, que circulam em personalidades toscas.<\/p>\n<p>O mais not\u00f3rio desperd\u00edcio de tempo \u00e9 ficar prestando aten\u00e7\u00e3o nos diversos pseudog\u00eanios que tentam tomar o lugar dos grandes mestres. Temos sobrando Goethes, Gabos e Nerudas, mas nenhuma migalha de gente mesmo, de sua precariedade n\u00e3o vaidosa, a leg\u00edtima, que encara a humanidade manifesta em si e nos outros com desprendimento, sem querer fazer disso literatice ou auto-ajuda. Recebo e-mail ou visito p\u00e1ginas de pessoas previs\u00edveis, com suas sugest\u00f5es de filmes, livros, frases e artes, suas not\u00edcias sempre grudadas em algum objetivo ideol\u00f3gico. O aparelhamento do imagin\u00e1rio talvez seja a grande trag\u00e9dia atual, quando tudo tem a ver com a mesquinharia de mundinhos. Pior s\u00e3o essas celebridades que vendem caro seus selinhos e rebolados.<\/p>\n<p>N\u00e3o d\u00e1 para confiar em quem vem com conversa sobre algum evento ou acontecimento se essa pessoa est\u00e1 cem por cento alinhada com determinada corrente pol\u00edtica. Tudo o que fizer ou disser se reporta sempre ao mesmo n\u00facleo. \u00c9 como drogado, s\u00f3 pensa naquilo, por mais que voc\u00ea tente desviar a aten\u00e7\u00e3o para outras paragens. A pessoa sorri complacente, espera voc\u00ea acabar e retoma a conversa onde parou: \u201cEnt\u00e3o&#8230;\u201d, diz, se servindo de algum produto que fixa a percep\u00e7\u00e3o no seu foco indevass\u00e1vel. Pode ser qualquer coisa: sexo, crack, tucano-petismo-emedebosta, aquecimento global etc. H\u00e1 droga para tudo.<\/p>\n<p>Somos ref\u00e9ns da nossa catequese. Queremos fazer a cabe\u00e7a dos infi\u00e9is. No fundo, exercemos uma guerra santa contra os que nos contrariam. J\u00e1 sabemos o que todos pensam, o que cada jornal dir\u00e1, cada personalidade far\u00e1. J\u00e1 tra\u00e7amos o mapa desse rolo. Qual a sa\u00edda? Entregar-se ao poder da surpresa. Principalmente as que s\u00e3o oferecidas por pessoas aparentemente sem import\u00e2ncia, os que n\u00e3o possuem capital simb\u00f3lico, aqueles que voc\u00ea enquadrou h\u00e1 d\u00e9cadas e n\u00e3o tiveram mais nenhuma chance de mostrar o que existe fora dessa gaveta. Amor aos contempor\u00e2neos e rigor aos malfeitores: acredito quem seja esse o rumo.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m temos nossas catedrais pessoais e elas incomodam muita gente. Vasculhar a ab\u00f3boda em busca de predadores, abrir janelas inacess\u00edveis, refor\u00e7ar os tons desmaiados de nossos sonhos: h\u00e1 muito o que fazer nos templos, religiosos ou n\u00e3o, da nossa vida imersa em pensamentos e pulsa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Cada pessoa constr\u00f3i uma ab\u00f3boda virtual onde trafega, exposta para a observa\u00e7\u00e3o alheia ou recolhida em si mesma. Gost\u00e1vamos da igrejinha da bossa nova, do u\u00edsque do Vin\u00edcius e das conversas do Tom. 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