{"id":26,"date":"2005-05-13T21:16:03","date_gmt":"2005-05-13T23:16:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=26"},"modified":"2009-12-20T23:52:19","modified_gmt":"2009-12-21T01:52:19","slug":"edgar-vasques-a-verdade-pode-berrar","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/edgar-vasques-a-verdade-pode-berrar","title":{"rendered":"Edgar Vasques: A verdade pode berrar"},"content":{"rendered":"<p><img src=\"..\/..\/..\/neiduclos\/imagens\/icons\/vasques.jpg\" alt=\"\" align=\"left\" \/>A dela\u00e7\u00e3o \u00e9 a sombra e, muitas vezes, o \u00e1libi perfeito do heroismo. Nutre-se do asco que provoca e, cercada pelo mist\u00e9rio, cresce com o tempo. Lan\u00e7a lama sobre biografias enquanto fica polindo a ef\u00edgie do her\u00f3i tra\u00eddo e assim legitimado. No cinema, do Zapata de Elia Kazan ao Billy the Kid de Arthur Penn, o delator \u00e9 a pe\u00e7a chave para a morte gloriosa do her\u00f3i &#8211; e, portanto, para a sua perman\u00eancia. Dificilmente ele \u00e9 como o Garganta Profunda do caso Watergate, uma interven\u00e7\u00e3o a favor da Justi\u00e7a. \u00c9 mais um instrumento do Mal e com o Mal \u00e9 punido, como acontece nas vingan\u00e7as da M\u00e1fia.<\/p>\n<p>No romance policial &#8220;Sottovoce &#8211; a morte fala baixo&#8221;, a dela\u00e7\u00e3o \u00e9 a fonte da trama de um autor que jamais abdica dos fantasmas que parecem dele, mas que s\u00e3o de todos n\u00f3s. A fome de Edgar Vasques \u00e9 de justi\u00e7a, jamais saciada num pa\u00eds que finge mudar para tudo permanecer o mesmo. Por isso ele tem o tra\u00e7o rouco e a voz poderosa do inconformismo.<\/p>\n<p>Na Porto Alegre deste livro, o horror se manifesta primeiro no cen\u00e1rio: os edif\u00edcios opostos ao casario revelam a ascend\u00eancia do crime sobre a passividade dos cidad\u00e3os; e os espa\u00e7os p\u00fablicos envelhecidos acobertam pesadelos da consci\u00eancia. Manifesta-se tamb\u00e9m na postura f\u00edsica dos personagens: a testemunha espremida pelos bal\u00f5es do interrogat\u00f3rio, a gigantesca caratonha dos assassinos compondo a fuligem da viol\u00eancia, o rosto do jornalista crispado pela tens\u00e3o, o olhar p\u00e1lido da inoc\u00eancia diante do estupro, tudo conspira para criar um clima de delegacia abandonada de sub\u00farbio.<\/p>\n<p>Costurando a investiga\u00e7\u00e3o, a presen\u00e7a de um personagem do carnaval veneziano. Algu\u00e9m fantasiado de Sottovoce, duende que aparece na madrugada anunciando a morte por meio de rastros &#8211; um enigma, um ditado, uma m\u00fasica &#8211; desencadeia uma sucess\u00e3o de ajustes de contas. Os crimes remetem ao tempo da ditadura civil\/militar dos anos 70, quando o excesso de sofrimento amadureceu amargamente uma gera\u00e7\u00e3o de guerreiros exaustos.<\/p>\n<p>Edgar Vasques faz parte dessa humanidade que, ao denunciar, se exila. Pois parece n\u00e3o ser mais moda lembrar que o Brasil ainda est\u00e1 na mesma situa\u00e7\u00e3o, numa nova roupagem, com um discurso requentado e o sil\u00eancio montando guarda. O criador, com a ira justa, n\u00e3o compactua com o segredo e vai revelando o fio dessa meada disforme que pinga sangue.<\/p>\n<p>Sua pena aponta para a esquizofrenia &#8211; mais pol\u00edtica do que psicanal\u00edtica &#8211; que reparte her\u00f3is e vil\u00f5es num mesmo quadro. A palavra deturpada tenta fugir do sussurro da morte, que vem em seu socorro. A reportagem caminha em espiral em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 mem\u00f3ria e o passado, insepulto, assoma nos riscos sujos do dia. A revela\u00e7\u00e3o \u00e9 que o filho do torturado expressa a debilidade mental dos despossu\u00eddos \u00e0 for\u00e7a, enquanto seu ant\u00edpoda, o filho do delator, assume a carga n\u00e3o resolvida da inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m sai vencedor nesta novela policial gr\u00e1fica, que \u00e9 literatura de primeira \u00e1gua. A n\u00e3o ser, \u00e9 claro, o autor, criador do l\u00facido faminto Rango. Ele soma \u00e0 sua galeria de anti-her\u00f3is personagens como Parola, o jornalista free-lance que sonha com o duende mascarado jogando a v\u00edtima &#8211; ele mesmo &#8211; no abismo. Representando a palavra como par\u00f3dia &#8211; o jornalismo cercado pelo esquecimento &#8211; Parola encarna uma decep\u00e7\u00e3o coletiva: quando n\u00e3o h\u00e1 mais perguntas, a certeza ataca no escuro, mascarada para matar. Investigar esse enigma pode levar \u00e0 descoberta de raz\u00f5es ocultas, transformadas em doen\u00e7a.<\/p>\n<p>O artista\/escritor lanceta a ferida aparentemente fechada, pois n\u00e3o acredita em mal incur\u00e1vel. Para ser escutado, ele precisa que a consci\u00eancia deixe, enfim, de ser surda. A morte &#8211; representa\u00e7\u00e3o da verdade- vai ent\u00e3o se revelar pelo berro.<\/p>\n<p><em>resenha publicada na revista &#8220;BRAVO!&#8221;, de mar\u00e7o de 1999<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No romance policial &#8220;Sottovoce &#8211; a morte fala baixo&#8221;, a dela\u00e7\u00e3o \u00e9 a fonte da trama de um autor que jamais abdica dos fantasmas que parecem dele, mas que s\u00e3o de todos n\u00f3s. 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