{"id":260,"date":"2005-06-03T22:26:16","date_gmt":"2005-06-04T00:26:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=260"},"modified":"2009-12-20T22:49:09","modified_gmt":"2009-12-21T00:49:09","slug":"visita-ao-planeta-terra","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/visita-ao-planeta-terra","title":{"rendered":"VISITA AO PLANETA TERRA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p><\/strong><\/p>\n<p>Tra\u00e7os de nuvens um pouco roxas, montanhas verdes, mar calmo apesar do frio, ar por o\u00adnde entra a mem\u00f3ria, de t\u00e3o puro. Quando foi que perdemos a pista daquele territ\u00f3rio que o caos urbano engoliu? PAISAGENS &#8211; Vejo daqui o mar. o\u00adnde estava eu este tempo todo, longe da \u00faltima paisagem sem dono, o gigantesco mar que nos abra\u00e7a, fonte da poesia que sempre nos escapa? Vejo daqui o c\u00e9u. Existem estrelas acima do Brasil, lua de dia, calma entre as pessoas, p\u00e1ssaros diferentes de pardais, v\u00f4os rasantes, c\u00e3es tranq\u00fcilos. Voc\u00ea passa por um lugar, parece que nada acontece nele. Chega mais perto e v\u00ea: descortina-se o mundo perdido. Todos est\u00e3o l\u00e1, intensificados em seus dias estendidos ao sol. Voc\u00ea passava ao largo, nem enxergava nada. O bom do Brasil \u00e9 que o territ\u00f3rio \u00e9 sempre maior do que conseguimos formatar em nossa escassa imagina\u00e7\u00e3o. O planeta \u00e9 infinito, n\u00f3s \u00e9 que o tornamos limitado. O pa\u00eds \u00e9 outro e ainda existe. Voc\u00ea pisa na areia limpa e esquece o que aprontam no outro lado do mar. Por que me envolver com tantas coisas que nada me dizem respeito? \u00c0 tarde, o sil\u00eancio \u00e9 t\u00e3o profundo que chega a ser inveross\u00edmil. Voc\u00ea ro\u00e7a a alma no ch\u00e3o de um tempo que ainda est\u00e1 aqui, descansa at\u00e9 o osso, recupera-se da loucura. Lembro os quintais da minha inf\u00e2ncia. Eram in\u00fameros, todos reunidos num s\u00f3. Num quintal de praia, aos nove anos, o rio Tramanda\u00ed oferecia botos com corcovas \u00e0 mostra, em movimento. Num outro, caixotes de madeira eram carruagens. Um rev\u00f3lver de madeira estava escondido junto com uma pedra muito fina, de todas as cores. Ainda estar\u00e1 l\u00e1 esse tesouro? Ser\u00e1 que encontraram, taparam aquele lugar o\u00adnde escondi meu cora\u00e7\u00e3o de menino? Bastaria tirar o entulho do final da parede que descia diretamente no p\u00e1tio, para descobrir o que ainda pulsa como lembran\u00e7a e faz barulho de lata. PALMAS &#8211; Algu\u00e9m bate palmas no quintal. Faz\u00edamos teatro, com cortinas que eram colchas, todos fantasiados de palha\u00e7os, a derrubar bancos de madeira, a exibir carantonhas para a plat\u00e9ia familiar, que gargalhava. Dois cachorros perdigueiros e um policial atrapalhavam-se por toda parte, in\u00fateis quando n\u00e3o havia ca\u00e7a, deslocados do seu ambiente verdadeiro, o longo deserto do pampa, que encerrava um susto atr\u00e1s de tufos de capim. O matraquear das asas do p\u00e1ssaro cruzava a surpresa do ca\u00e7ador. O faro acompanhava o v\u00f4o junto com os dois canos da arma azeitada. O tiro \u00e0s vezes se perdia. E devolvia em eco o nosso espanto grudado no vidro da porta do carro. \u00cdamos juntos no saf\u00e1ri paterno, n\u00e3o pela ca\u00e7a, mas pela algazarra. O grande acontecimento era o fiambre enrolado em pap\u00e9is de p\u00e3o. A vida garoava na volta e est\u00e1vamos exaustos em nosso esp\u00edrito desarmado. Tom\u00e1vamos caf\u00e9 \u00e0s quatro e meia da tarde, junto com mil vizinhos. Todos queriam compartilhar a mesa, nem sempre farta, mas pontual como um rel\u00f3gio de quartel. Vida que resgato agora, diante do infinito mar. Paisagem do litoral, o\u00adnde o Brasil come\u00e7a e do qual jamais devemos nos afastar demais. Aprendemos aqui os passos mi\u00fados e profundos do amor. Para o\u00adnde me levam esses passos, palavras que jogo na rede para pousar no cora\u00e7\u00e3o de quem sabe do que se trata? \u00c9 o Brasil, situado no planeta Terra. O \u00fanico lugar do mundo o\u00adnde poderia haver felicidade. Longe da amargura que tomou conta de n\u00f3s, ou de mim, que se esvai finalmente depois de tanto embate. Decido chegar perto da vit\u00f3ria que me carregou para longe, o\u00adnde descobri o s\u00e9culo, o futuro, a eternidade, palavras que nada valem diante de um p\u00e1ssaro equilibrado num fio. Mas nosso corpo agradece, caindo como pluma no travesseiro morno da imensid\u00e3o do pa\u00eds. Quem somos n\u00f3s a n\u00e3o ser criaturas de alma imortal, a ro\u00e7ar a superf\u00edcie do universo como se estiv\u00e9ssemos brincando de esconder? Um, dois, tr\u00eas, te peguei. Pague a prenda: me diga um ol\u00e1, acene do outro lado da rua, me convide para um passeio. Do c\u00e9u pinga a maravilha de estar vivo.<\/p>\n<p><em>Cr\u00f4nica publicada no caderno Donna, do Di\u00e1rio Catarinense, no dia 14\/08\/05)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tra\u00e7os de nuvens um pouco roxas, montanhas verdes, mar calmo apesar do frio, ar por o\u00adnde entra a mem\u00f3ria, de t\u00e3o puro. Quando foi que perdemos a pista daquele territ\u00f3rio que o caos urbano engoliu? (Cr\u00f4nica publicada no caderno Donna, do Di\u00e1rio Catarinense, no dia 14\/08\/05).  <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[5],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/260"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=260"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/260\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1452,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/260\/revisions\/1452"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=260"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=260"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=260"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}