{"id":2605,"date":"2011-04-09T14:36:19","date_gmt":"2011-04-09T14:36:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2605"},"modified":"2011-04-09T14:36:19","modified_gmt":"2011-04-09T14:36:19","slug":"remorso","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/remorso","title":{"rendered":"REMORSO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Remorso \u00e9 necessidade de perd\u00e3o. O tempo lava, mas n\u00e3o elimina. H\u00e1 sempre aquele sobressalto na mem\u00f3ria, o murm\u00fario de autocr\u00edtica, o espanar de lembran\u00e7as. S\u00f3 me arrependo do que n\u00e3o fiz, costuma dizer a arrog\u00e2ncia, faltando com a verdade. Pode acontecer, uma oportunidade perdida corroer o es\u00f4fago por d\u00e9cadas. Mas normalmente \u00e9 sobre o que fazemos que o sentimento azedo se manifesta. O que dissemos na hora errada, o erro que insistimos em cometer apesar dos avisos, a exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica de algo que nem deveria existir.<\/p>\n<p>Remorso est\u00e1 normalmente vinculado \u00e0 covardia. Quando nos prevalecemos de algu\u00e9m, fomos duros com quem n\u00e3o podia se defender, quando debochamos da inoc\u00eancia. Fantasiamos nossa coragem enquanto fugimos dela repetindo as mesmas maldades. Mas a consci\u00eancia que nos esclarece sobre esses eventos tr\u00e1gicos \u00e9 a porta para reverter tudo. Se somos capazes de nos arrepender, ent\u00e3o temos potencial. Poderemos evitar algumas cat\u00e1strofes e no fim usufruir de um balan\u00e7o a nosso favor. Nunca vi voc\u00ea cometer um deslize, dir\u00e3o os amigos, generosos e esquecidos.<\/p>\n<p>Mas sabemos que a imperfei\u00e7\u00e3o \u00e9 a regra e a nossa vontade de acertar um jogo de cabra cega. \u00c9 como aquela brincadeira das reuni\u00f5es familiares e anivers\u00e1rios, quando algu\u00e9m de olhos vendados, armados de um porrete, tenta acertar uma alvo que se mexe, pendurado no teto. Fracassamos miseravelmente, mas \u00e0s vezes podemos atingir o alvo. \u00c9 quando detonamos nossas falsidades, orientados por uma percep\u00e7\u00e3o oculta, uma voca\u00e7\u00e3o ainda em repouso, uma vontade louca para se manifestar. Somos criaturas misteriosas que precisam habitar o esp\u00edrito t\u00e3o crivado de setas como aquele santo de olhar para o teto.<\/p>\n<p>Lembro de todos os epis\u00f3dios em que me arrependi no minuto seguinte e com mais intensidade dos que n\u00e3o pude remendar imediatamente. H\u00e1 ainda os que passam por n\u00f3s sem que a gente perceba e s\u00f3 nos damos conta anos mais tarde, quando tudo se esfumou nas ruas baldias do tempo. \u00c9 quando tentamos remendar o mal feito e reatar as amizades rompidas \u00e0 toa, por obra de nossa desaten\u00e7\u00e3o, pressa ou simplesmente precariedade humana. Costuma dar certo. Os antigos conhecidos podem assim come\u00e7ar a amizade antiga, passar por cima do passado e compartilhar novos tesouros.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso que o remorso seja a baliza, o par\u00e2metro, para que possamos errar menos. Isso n\u00e3o acontece naturalmente. \u00c9 preciso forma\u00e7\u00e3o. A consci\u00eancia n\u00e3o existe por acaso, ela \u00e9 fruto da semeadura \u00e1rdua que os adultos exercem sobre a tabula rasa dos seres que chegam do Outro Lado. Trazemos no ber\u00e7o a marca das ilumina\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, mas elas precisam ser despertadas. Sen\u00e3o viramos bichos, sem ningu\u00e9m para trabalhar a alma aberta para todas as possibilidades.<\/p>\n<p>Precisamos da experi\u00eancia, dos mestres, das leis, da tradi\u00e7\u00e3o, das ousadias, dos vislumbres, das artes, das in\u00fameras literaturas, dos g\u00eanios e de todos os anjos que habitam a terra, que nos cercam desde a inf\u00e2ncia e lamentam o que fazemos de errado, mas celebram quando, estocados pelo remorso, corremos para evitar um mal maior.<\/p>\n<p><em>Cr\u00f4nica publicada na edi\u00e7\u00e3o 332 do jornal Momento de Uruguaiana<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Remorso \u00e9 necessidade de perd\u00e3o. O tempo lava, mas n\u00e3o elimina. H\u00e1 sempre aquele sobressalto na mem\u00f3ria, o murm\u00fario de autocr\u00edtica, o espanar de lembran\u00e7as. S\u00f3 me arrependo do que n\u00e3o fiz, costuma dizer a arrog\u00e2ncia, faltando com a verdade. 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