{"id":2607,"date":"2011-04-09T14:37:16","date_gmt":"2011-04-09T14:37:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2607"},"modified":"2011-04-09T14:37:16","modified_gmt":"2011-04-09T14:37:16","slug":"tias","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/tias","title":{"rendered":"TIAS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Tia Maria era professora de escola prim\u00e1ria do sub\u00farbio. Dura, vestia-se com extrema sobriedade e jamais sorria. Solteira a vida toda, morava em um apertado quarto de hotel, completamente tomado por vidros e caixas. Todos com tampa. \u201c\u00c9 para quando a gente precisar\u201d, dizia ela. Mestra tradicional, n\u00e3o dava colher para aluno, mas a proximidade com a mis\u00e9ria a emocionava. Contava sempre a hist\u00f3ria do garoto problema que um dia estava absorto. \u201cO que te aconteceu?\u201d, perguntou Tia Maria. \u201cHoje estou feliz por causa que eu comi\u201d, respondeu o aluno. O detalhe era o \u201cpor causa que\u201d, proibido naqueles tempos, quando o rigor do ensino n\u00e3o permitia defec\u00e7\u00f5es. O defeito carregava ainda mais o drama da confiss\u00e3o espont\u00e2nea.<\/p>\n<p>Tia Sarinha era a que tomava o pileque tradicional de Natal e acabava dizendo o que ningu\u00e9m deveria ouvir, principalmente as crian\u00e7as. O esc\u00e2ndalo datado e dom\u00e9stico n\u00e3o provocava grandes conseq\u00fc\u00eancias, mas era aguardado com entusiasmo, principalmente pela gurizada, que adorava rebuli\u00e7o. Por muito tempo trabalhou no Pal\u00e1cio Piratini. \u201cO Perachi \u00e9 t\u00e3o lindo!\u201d costumava dizer nos saraus et\u00edlicos permitidos, declarando o amor plat\u00f4nico pelo seu chefe, o folcl\u00f3rico governador que veio da Brigada Militar.<\/p>\n<p>Tia Ceci, ao contr\u00e1rio das outras, dividia o mesmo teto conosco. N\u00e3o construiu uma biografia muito evidente, apenas mem\u00f3rias de um noivado desfeito com o vendedor ambulante e galanteador popularmente conhecido como \u201cSapato Perfumado\u201d. O tal escafedeu-se e deixou a noiva s\u00f3 e agregada .<\/p>\n<p>Na sua avoa\u00e7\u00e3o vocabular, Tia Ceci era capaz de grandes feitos. Ensinou palavr\u00f5es para nossa caturrita, a Lorita, enquanto tomava mate na varanda. Tamb\u00e9m foi o primeiro ser humano pr\u00f3ximo que nos falou na mudan\u00e7a das esta\u00e7\u00f5es, provocada \u201cpelos russos e os americanos com suas bombas at\u00f4micas\u201d. Dizia tamb\u00e9m que os discos voadores eram coisas deles e isso chegou quase a ser comprovado em v\u00e1rios v\u00eddeos que descrevem experi\u00eancias com naves espaciais desde a \u00e9poca dos nazistas. Suas profecias eram devidamente celebradas como del\u00edrios e por isso, talvez, tenha sido uma precursora das teorias conspirat\u00f3rias.<\/p>\n<p>Havia ainda a Tita, uma gera\u00e7\u00e3o acima das demais. Ela n\u00e3o me contava a hist\u00f3rias dos meus av\u00f3s, que nunca conheci \u2013 e as pistas que nos deixaram sobre eles s\u00e3o muito nebulosas. Mas me chamava carinhosamente de meu poeta. Morava numa casa t\u00edpica italiana com grande quintal forrado de uvas. Para l\u00e1 \u00edamos, compensar nossa vontade de devorar o mundo. O local estava \u00e0 altura: era o espa\u00e7o gastron\u00f4mico mais amplo que conhec\u00edamos.<\/p>\n<p>A fala carinhosa, o tom professoral, a l\u00edngua solta tinham assim representantes que ajudaram a me formar. De todas, Tia Maria foi a mais importante. Era minha madrinha num batizado clandestino, sem padrinho. Foi preciso jogar \u00e1gua benta no pag\u00e3o j\u00e1 taludo, com tr\u00eas anos, mas de maneira que o pai, ateu, n\u00e3o desconfiasse. Ele permitia a religi\u00e3o da esposa e filhos, desde que a prole n\u00e3o fosse batizada, como se isso fosse poss\u00edvel. Por muitos anos, debocharam do relato que fiz depois da cerim\u00f4nia, imitando meu gesto inocente e a boca mole, no tom afetivo a que fui acostumado com tanta mulher adulta ao redor, contrapondo a presen\u00e7a maci\u00e7a do mundo masculino, feito de encontr\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Tia Maria era professora de escola prim\u00e1ria do sub\u00farbio. Dura, vestia-se com extrema sobriedade e jamais sorria. Solteira a vida toda, morava em um apertado quarto de hotel, completamente tomado por vidros e caixas. 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