{"id":2611,"date":"2011-04-09T14:39:28","date_gmt":"2011-04-09T14:39:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2611"},"modified":"2011-04-09T14:39:28","modified_gmt":"2011-04-09T14:39:28","slug":"pajaritos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/pajaritos","title":{"rendered":"PAJARITOS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9ramos pregos, a mais baixa qualidade humana no col\u00e9gio dominado pelos adultos. Por isso nos coube o p\u00edfaro, o estranho e insignificante instrumento da banda que estava sendo formada. Era um canudo preto cheio de furinhos. N\u00e3o tivemos chance na disputa por bumbo, tarol, tuba, clarim, surdo. Por impossibilidade f\u00edsica, n\u00e3o brilhar\u00edamos na bateria ou no sopro nobre das afiadas cornetas, a que assustava os p\u00e1ssaros e as av\u00f3s. Cabia a n\u00f3s soprar melodias mel\u00edfluas e an\u00f3dinas para o deboche da bagacerada que n\u00e3o tinha aderido \u00e0 moda, ou da turma de desocupados que se postava na rua para se divertir n\u00e3o apenas com o rififi do p\u00edfaro como do uniforme de gala espalhafatoso, que inclu\u00eda cal\u00e7a branca, casaco brilhante azul e um quepe com penacho amarelo, parecido com as imagens dos bonecos das latas de flit, o inseticida da \u00e9poca.<\/p>\n<p>Hoje todos cuidam para n\u00e3o traumatizar os petizes. Naquele tempo n\u00e3o havia miseric\u00f3rdia. At\u00e9 dentro de casa sofr\u00edamos com a gargalhada dos mais velhos, vizinhos inclusive. Compadres, irm\u00e3os, tias e pais de riso solto tiravam sua lasca. Como nossa m\u00fasica recorrente, a \u00fanica que aprendemos de verdade, dizia \u201ccanta canta pajarito\u201d, minha m\u00e3e apelidou a turma pr\u00e9-adolescente dos trinados m\u00ednimos de pajaritos. Era cruel demais. O pior \u00e9 que em pouco tempo cresci mais do que meus companheiros de infort\u00fanio e arquei com dose extra de anedotas, pois n\u00e3o adiantava me curvar sobre o instrumento para disfar\u00e7ar: minha altura j\u00e1 batia no teto e eu media o dobro em rela\u00e7\u00e3o ao meu entorno.<\/p>\n<p>Implorei a migra\u00e7\u00e3o para a ala das cornetas, no que fui atendido depois de amea\u00e7ar deixar a banda, o que causaria uma trag\u00e9dia, pois ningu\u00e9m mais queria ter o privil\u00e9gio de participar da troupe. Pior para eles, pois nos divert\u00edamos nas excurs\u00f5es, onde meninas de Libres ou Alegrete aglomeravam-se para ver os bravos rapazes da banda uruguaianense, garbosos em seus uniformes e arrancando suspiros generalizados.<\/p>\n<p>Quando minha amea\u00e7a deu certo, me deparei com novo problema: eu n\u00e3o sabia tocar aquele tro\u00e7o, o clarim. N\u00e3o tinha pulm\u00e3o, n\u00e3o conseguia tirar uma nota sequer, que dir\u00e1 um dobrado. Jamais chegaria aos p\u00e9s dos bambas da \u00e1rea, verdadeiros virtuoses que sustentavam todo o esplendor sonoro daquele grupo de alunos sem talento e improvisados de m\u00fasicos. Mas como diz o ditado, \u201cn\u00e3o tem tu, vai tu mesmo\u201d, acabei ficando, sem deixar de ser um enganador nessa fase obscura de minha vida escolar. N\u00e3o fazia mais parte dos competentes int\u00e9rpretes do canta canta pajarito que, mal ou bem, j\u00e1 era um hit na cidade. Tentava desempenhar minha nova fun\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o dava nem para o gasto.<\/p>\n<p>Um dia me invoquei e resolvi enfrentar o impasse. Numa solenidade importante, decidi que extrairia o som mais espetacular, fruto do meu esfor\u00e7o e voca\u00e7\u00e3o sem reconhecimento. Foi baixarem a baliza para eu sair mandando mecha no bocal. Mas tive sorte. N\u00e3o saiu um pio, como era natural, o que me salvou de um vexame, pois o sinal era para o bumbo, n\u00e3o para n\u00f3s, do sopro.<\/p>\n<p>Depois dessa, encerrei minhas atividades de m\u00fasico. Decidi tocar apenas r\u00e1dio. Nisso, sempre fui um especialista.<\/p>\n<p><em>Cr\u00f4nica publicada no jornal Momento de Uruguaiana.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s \u00c9ramos pregos, a mais baixa qualidade humana no col\u00e9gio dominado pelos adultos. Por isso nos coube o p\u00edfaro, o estranho e insignificante instrumento da banda que estava sendo formada. Era um canudo preto cheio de furinhos. N\u00e3o tivemos chance na disputa por bumbo, tarol, tuba, clarim, surdo. 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