{"id":2621,"date":"2011-04-09T14:46:16","date_gmt":"2011-04-09T14:46:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2621"},"modified":"2011-04-09T14:46:16","modified_gmt":"2011-04-09T14:46:16","slug":"a-grana-e-a-terra","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-grana-e-a-terra","title":{"rendered":"A GRANA E A TERRA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>De que maneira a ind\u00fastria do espet\u00e1culo anexa o homossexualismo como protagonista (e n\u00e3o mais como tema perif\u00e9rico e aned\u00f3tico) ao circuito do cinema comercial? A resposta \u00e9 The Kids Are All Wright, Os Filhos Est\u00e3o Bem, ou Est\u00e3o no Rumo Certo (o t\u00edtulo oficial no Brasil \u00e9 &#8220;Minhas M\u00e3es e Meu Pai&#8221;, que explora exatamente o que o filme condena, tratar a situa\u00e7\u00e3o como se fosse bizarra). Esse \u00e9 o objetivo do filme, dirigido por Lisa Cholodenko: mostrar que um casal gay de duas mulheres pode muito bem criar um casal de filhos \u201cnormais\u201d, ou seja, hetero e bem encaminhado para a faculdade. Est\u00e1 garantida a linhagem do imp\u00e9rio, a op\u00e7\u00e3o n\u00e3o amea\u00e7a a sobreviv\u00eancia. Ou: tanto faz, os filhos podem ser gays ou n\u00e3o, o importante \u00e9 que est\u00e3o bem criados.<\/p>\n<p>O que pega no relacionamento s\u00e3o os v\u00ednculos econ\u00f4micos. A chefe da fam\u00edlia \u00e9 Nicole (Annete Benning, indicada para o Oscar), m\u00e9dica bem sucedida e que prov\u00ea uma vida de classe m\u00e9dia alta para a fam\u00edlia; e a \u201cmulherzinha\u201d \u00e9 Jules (Juliane Moore, sempre um arraso de interpreta\u00e7\u00e3o), desviada de suas atividades profissionais para virar dona de casa. Fazem sexo inspiradas no cinema porn\u00f4 com atores masculinos e n\u00e3o se excitam com mulheres na tela porque normalmente s\u00e3o heteros que fingem ser gays (exatamente o que acontece no filme, j\u00e1 que Annete e Julianne n\u00e3o s\u00e3o do ramo que interpretam). \u00c9 o cinema oficial incorporando o cinema marginal como coadjuvante, como se faz com todo o boom de imagens digitais que assolam o mundo: a S\u00e9tima Arte do grande circuito comercial a tudo devora com seus bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>Ambas se defrontam, por obra dos filhos que foram busc\u00e1-lo, com o doador de esperma Paul (Mark Ruffalo, tamb\u00e9m indicado para o Oscar). Elas s\u00e3o intelectuais, e, por for\u00e7a da chefe da fam\u00edlia, ligadas ao grande mundo das roupas de griffe, casas espa\u00e7osas, restaurantes finos, escolas caras e outros luxos. Ele trabalha com a terra, ascendeu economicamente com a moda natureba depois de ter abandonado a faculdade (que acha in\u00fatil, para esc\u00e2ndalo das mulheres), tanto \u00e9 que tem n\u00e3o apenas um com\u00e9rcio de plantas como tamb\u00e9m um restaurante natural. O sexo das duas, feito de sutileza e imagina\u00e7\u00e3o (apesar da alta dose de crueza que permeia todas as cenas er\u00f3ticas), se contrap\u00f5e ao sexo bruto protagonizado pelo homem, em cenas de arrasa quarteir\u00e3o heterossexual.<\/p>\n<p>\u00c9 o clamor da terra se opondo \u00e0 superestrutura da classe social, a tradi\u00e7\u00e3o diante de sua ruptura. O cheiro da terra excita a amante negra e a \u201cesposa\u201d gay busca na jardinagem a sa\u00edda para sua situa\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica miser\u00e1vel. A luta de classes se manifesta n\u00e3o apenas pelo pouco caso \u00e0 ignor\u00e2ncia do homem, mas quando uma das mulheres \u00e9 flagrada transando na hora do trabalho pelo subalterno hisp\u00e2nico. O empregado \u00e9 demitido por ter estampado um sorriso de deboche. Jules sente culpa, mas n\u00e3o o readmite. Essa defasagem entre mundos economicamente \u00e0 parte e com forma\u00e7\u00f5es opostas (fonte dos preconceitos) \u00e9 colocada de maneira natural no filme, j\u00e1 que faz parte da vida americana.<\/p>\n<p>Quem usufrui da situa\u00e7\u00e3o de privil\u00e9gio s\u00e3o os filhos, que procuram suas origens e est\u00e3o cheios de d\u00favidas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida adulta. Joni (Mia Wasikowska , que fez Alice in Wonderland), procura desengessar fisicamente beijando o melhor amigo, numa iniciativa frustrada. O rapaz, Laser (Josh Hutcherson), que o pai biol\u00f3gico por engano chama de Laze (pregui\u00e7oso) tem uma rela\u00e7\u00e3o suspeita com um fort\u00e3o da sua idade que o introduz na coca\u00edna. Mas Laser \u00e9 hetero e acaba aconselhando as m\u00e3es a n\u00e3o romperem o longo casamento, j\u00e1 que est\u00e3o muito velhas (uma franqueza adolescente que arranca risos das duas).<\/p>\n<p>Trata-se de uma rela\u00e7\u00e3o antiga, que deitou ra\u00edzes na sociedade e que por isso merece ser tratada como qualquer outra, desde que se coloquem os par\u00e2metros que a contestam (para atrair as multid\u00f5es ainda com reservas) ou a confirmam (para se sintonizar com as multid\u00f5es que fizeram a mesma op\u00e7\u00e3o). O homem, que vendeu esperma por uma micharia e acabou n\u00e3o fazendo fam\u00edlia, tenta tirar em v\u00e3o o atraso. O casal gay, depois da crise de relacionamento (e como se discute rela\u00e7\u00e3o neste filme escrito e dirigido por mulher!) acaba mais firme do que nunca.<\/p>\n<p>O filme se saiu bem. Al\u00e9m das indica\u00e7\u00f5es para o Oscar mantem a escrita de drama familiar comum no cinema americano. Um grande contingente social foi adotado pelo imp\u00e9rio e ser\u00e1 considerado normal desde que n\u00e3o tente se transformar em obrigat\u00f3rio, achar que o arm\u00e1rio n\u00e3o est\u00e1 o vazio o suficiente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s De que maneira a ind\u00fastria do espet\u00e1culo anexa o homossexualismo como protagonista (e n\u00e3o mais como tema perif\u00e9rico e aned\u00f3tico) ao circuito do cinema comercial? 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