{"id":2623,"date":"2011-04-09T14:47:18","date_gmt":"2011-04-09T14:47:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2623"},"modified":"2011-04-09T14:47:18","modified_gmt":"2011-04-09T14:47:18","slug":"a-etica-e-branca","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-etica-e-branca","title":{"rendered":"A \u00c9TICA \u00c9 BRANCA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Inf\u00e2ncia \u00e9 sobreviv\u00eancia. Do povo, do pa\u00eds, da esp\u00e9cie. No Brasil \u00e9 artigo descart\u00e1vel, vai para o lixo. N\u00e3o apenas pelo massacre do Realengo, no Rio, mas pela destrui\u00e7\u00e3o do sistema de ensino, a desconstru\u00e7\u00e3o familiar pelas imposi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e anti-culturais. Al\u00e9m das dezenas de milhares assassinatos por ano, de todas as formas, pela omiss\u00e3o, viol\u00eancia pura e simples, desencaminhamentos, explora\u00e7\u00e3o, corrup\u00e7\u00e3o. Outros pa\u00edses tem vis\u00e3o diferente. Encaram a inf\u00e2ncia e a adolesc\u00eancia com seriedade, n\u00e3o como brincadeira. A Dinamarca, por exemplo, onde foi feito In a Better World, de Susanne Bier, ganhador do Oscar de Melhor filme estrangeiro em 2011.<\/p>\n<p>Os dinamarqueses s\u00e3o competentes, civilizados e simp\u00e1ticos. Pena que considerem a \u00e9tica algo exclusivo da ra\u00e7a branca, se formos tomar a parte (a obra cinematogr\u00e1fica em quest\u00e3o) pelo todo (a na\u00e7\u00e3o). No filme, os filhos dos brancos s\u00e3o problem\u00e1ticos, fazem parte de dramas familiares, ligados \u00e0 separa\u00e7\u00e3o ou morte dos pais e a consequente radicaliza\u00e7\u00e3o no enfrentamento de problemas como bullying ou outros tipos de rejei\u00e7\u00e3o (como ter sotaque sueco, por exemplo). Os filhos dos negros, que est\u00e3o na regi\u00e3o do campo de refugiados onde o protagonista dinamarqu\u00eas exerce a medicina solid\u00e1ria, est\u00e3o perdidos, fazem parte de uma trag\u00e9dia insol\u00favel. S\u00e3o arrancados a frio do ventre das m\u00e3es pelos algozes em jogos de azar, ou abandonados aos montes em acampamentos.<\/p>\n<p>Os adultos brancos s\u00e3o compreensivos, d\u00e3o a outra face para bater, e corretos, se arrependem do tratamento dado aos filhos, fazem trabalhos comunit\u00e1rios e acompanham a prole nos estudos e nos passeios. Os adultos negros s\u00e3o vingativos, pegam a unha o bandid\u00e3o que tirava beb\u00eas das barrigas da m\u00e3e, deixando o m\u00e9dico politicamente correto impotente. S\u00e3o negros, que se entendam. Enquanto os suecos s\u00e3o discriminados pelo sotaque, mas usufruem de todas as comodidades da sociedade dinamarquesa, as tribos africanas inimigas se dilaceram num territ\u00f3rio sem lei, onde ao \u00fanico sinal de espiritualidade \u00e9 o sorriso exausto do m\u00e9dico branco que todos os dias cumpre sua miss\u00e3o de salvar vidas, para agradecimento humil\u00edssimo dos africanos.<\/p>\n<p>Assim, a piedade, a autocr\u00edtica e o cabelo loiro s\u00e3o capazes de dar a volta por cima do drama e consertar tudo. Os garotos que escorregavam para o crime e o terrorismo voltam ao seio familiar e tudo acaba bem. Quanto as negros, esses preocupam: abandonados junto com os adultos, correm atr\u00e1s dos bem nascidos para conseguir algumas esmolas, como a bola de futebol e o eterno sorriso do bem. Se, por exemplo, num assomo de lucidez, a diretora mandasse seus personagens caucasianos carpir um lote na freguesia da mis\u00e9ria europ\u00e9ia, cheia de exclus\u00e3o e viol\u00eancia, n\u00e3o haveria essa musiquinha de fundo com tanta comisera\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao mundo africano.<\/p>\n<p>Mas branco, por ser detentor da \u00e9tica, n\u00e3o carpe lote. Ele \u00e9 m\u00e9dico e pede aux\u00edlio para enfermeiras negras para tirar o seu jaleco cheio de sujeira e sangue. Trata-se de um her\u00f3i do politicamente correto, num filme super bem feito, com excelentes atores e um script que prende a aten\u00e7\u00e3o o tempo todo. H\u00e1 grande poder de sedu\u00e7\u00e3o em filmes assim. Como todos nos sentimos brancos, mesmo sendo pardos,pretos ou amarelos, tamb\u00e9m emitimos aquele sorriso alvar do cara que vem do conforto para recuperar os ferimentos de ra\u00e7as subalternas.<\/p>\n<p>Talvez umas chibatadas em p\u00fablico fariam cair a ficha dos dinamarqueses, t\u00e3o bem postos em sua posi\u00e7\u00e3o a cavaleiro no mundo. Talvez por serem assim t\u00e3o excludentes se esfor\u00e7am tanto para parecerem perfeitos. Ser\u00e1 o medo do boi da cara preta?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Inf\u00e2ncia \u00e9 sobreviv\u00eancia. Do povo, do pa\u00eds, da esp\u00e9cie. No Brasil \u00e9 artigo descart\u00e1vel, vai para o lixo. N\u00e3o apenas pelo massacre do Realengo, no Rio, mas pela destrui\u00e7\u00e3o do sistema de ensino, a desconstru\u00e7\u00e3o familiar pelas imposi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e anti-culturais. 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