{"id":2636,"date":"2011-05-04T21:41:04","date_gmt":"2011-05-05T00:41:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2636"},"modified":"2011-05-04T21:41:04","modified_gmt":"2011-05-05T00:41:04","slug":"socialismo-de-godard-o-desafio-de-entender","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/socialismo-de-godard-o-desafio-de-entender","title":{"rendered":"SOCIALISMO, DE GODARD: O DESAFIO DE ENTENDER"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Godard \u00e9 complicado e vive num mundo \u00e0 parte. Tem seus motivos para fazer um filme como Socialismo, apresentado em Cannes em 2010, que n\u00e3o s\u00e3o, obrigatoriamente, os nossos quando vemos a obra. N\u00e3o adianta especular sobre a complexidade da sua trama, incomensur\u00e1vel, sem nenhuma chance de compara\u00e7\u00e3o com qualquer outra coisa. N\u00e3o \u00e9 cinema, que est\u00e1 morto, como ele diz numa entrevista. \u00c9 literatura al\u00e9m da fic\u00e7\u00e3o. \u00c9 ensaio feito com colagens de discursos transcendentes proferidos em cenas banais. \u00c9 um trabalho de inser\u00e7\u00e3o da realidade na sua representa\u00e7\u00e3o, a arte. \u00c9 o que podemos ver n\u00e3o s\u00f3 pelo que mostra, mas pelo que esconde na sua algaravia espessa de imagens e sons n\u00e3o hierarquizados.<\/p>\n<p>O ensaio \u00e9 o patinho feio da erudi\u00e7\u00e3o. \u00c9 notadamente um escape do rigor, um recreio entre muros que s\u00e3o saltados de cal\u00e7as curtas e cabelos despenteados. Por isso \u00e9 desprezado pelos lentes que ficam confinados em salas te\u00f3ricas. Godard trabalha uma s\u00e9rie de subterf\u00fagios para instaurar alguma coisa na tela. Trata na\u00e7\u00f5es como criaturas coletivas com uma identidade, uma l\u00f3gica, o que vai contra a globaliza\u00e7\u00e3o. Fala em It\u00e1lia como Meca da pintura, a Fran\u00e7a como territ\u00f3rio do desamor, a R\u00fassia como algu\u00e9m em busca da felicidade. Tudo costurado por personagens que fazem um cruzeiro nas \u00e1guas comuns do Oriente e o Ocidente, o Mediterr\u00e2neo.<\/p>\n<p>Entender \u00e9 o que h\u00e1, diz algu\u00e9m no seu filme feito de estrutura de arte pop, em que cores e movimentos se sobrep\u00f5em cumprindo uma agenda de transgress\u00f5es.Um grupo precisa saber para onde foi uma parte do ouro desviado da Espanha para a Alemanha na II Guerra. Como se esse tesouro extraviado fosse a pista para entender o poder internacional da ind\u00fastria financeira hoje, que cultiva tubar\u00f5es predando cardumes num patrim\u00f4nio que deveria ser de todos, o dinheiro, representado pelo oceano sendo singrado por um navio de luxo. A origem do atual pesadelo \u00e9 l\u00e1 na II Guerra, nos diz Godard. \u00c9 preciso seguir o roteiro, decifrar a trama e entender como o mundo esfacelado da pol\u00edtica das na\u00e7\u00f5es reuniu-se em torno de uma impossibilidade, as Na\u00e7\u00f5es \u201cUnidas\u201d, entidade que apadrinha a divis\u00e3o territorial entre o individuo e as m\u00faltiplas nacionalidades, na \u00e1rea comum do capitalismo intensificado pela especula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Deve-se navegar at\u00e9 a origem, como se volta \u00e0 geometria, para entender porque migrantes d\u00e3o as costas para o lugar de onde vieram. N\u00e3o havia outra solu\u00e7\u00e3o, diz um personagem, justificando a fuga. No fundo, o cruzeiro mar\u00edtimo pelo Mediterr\u00e2neo \u00e9 uma circunvolu\u00e7\u00e3o, um rodar pela mundo dividido entre Oriente e Ocidente, sendo que essas fronteiras n\u00e3o s\u00e3o geogr\u00e1ficas, mas humanas e hist\u00f3ricas. Esse rodar por Barcelona, Odessa, Argel, que tem tudo para ser turismo de luxo servido \u00e1s massas despossu\u00eddas de cultura se transforma, pelas m\u00e3os de Godard, na busca de um mapa perdido. Ach\u00e1-lo \u00e9 fundamental, n\u00e3o que v\u00e1 mudar alguma coisa, mas para que as pessoas entendam seus pap\u00e9is, j\u00e1 est\u00e3o grudadas a eles sem poder enxerg\u00e1-los, ou seja, entend\u00ea-los.<\/p>\n<p>Descobrir o papel que desempenhamos buscando a raiz da atual situa\u00e7\u00e3o, aparentemente \u201cnatural\u201d ( e a c\u00e2mara de Godard, o tempo todo, denuncia o desconforto desse mundo imerso no caos) \u00e9 uma procura insana por meio de toda a arte difusa do espet\u00e1culo. A profus\u00e3o de imagens digitais, das c\u00e2maras de seguran\u00e7a, das m\u00e1quinas dos turistas, das lentes de fot\u00f3grafos profissionais \u00e9 apenas essa pesquisa para saber de onde viemos, onde estamos e para onde nos leva essa viagem. Sabemos que ela volta ao seu in\u00edcio, mas precisamos ver qual a sua natureza e que ouro \u00e9 esse desaparecido que precisa ser encontrado urgentemente por arque\u00f3logos dos bastidores de uma guerra ancestral que dizimou o mundo num tempo que n\u00e3o mais pertence \u00e0 Hist\u00f3ria, mas ao Mito. \u00c9 o rastreamento de um crime, que est\u00e1 na fonte do Mal vitorioso.<\/p>\n<p>Godard faz tudo isso \u00e0 sua maneira, ou seja, aborrecendo o espectador. Coloca falas transcendentes em cenas prosaicas, repete frases e faz cita\u00e7\u00f5es de todo o tipo que s\u00f3 com o Google poderemos saber exatamente de onde elas vieram. Godard \u00e9 um chute que desestabiliza o nosso olhar. Temos ganas de esgan\u00e1-lo a cada sequ\u00eancia, mas sa\u00edmos melhores do que entramos. Maldito mestre, que nos faz cavocar o que t\u00ednhamos escondido, achando que ningu\u00e9m estava vendo!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Godard \u00e9 complicado e vive num mundo \u00e0 parte. Tem seus motivos para fazer um filme como Socialismo, apresentado em Cannes em 2010, que n\u00e3o s\u00e3o, obrigatoriamente, os nossos quando vemos a obra. N\u00e3o adianta especular sobre a complexidade da sua trama, incomensur\u00e1vel, sem nenhuma chance de compara\u00e7\u00e3o com qualquer outra coisa. 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