{"id":2652,"date":"2011-05-04T21:51:23","date_gmt":"2011-05-05T00:51:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2652"},"modified":"2012-04-28T12:52:41","modified_gmt":"2012-04-28T15:52:41","slug":"raf-e-pingo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/raf-e-pingo","title":{"rendered":"RAF E PINGO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s <\/strong><\/p>\n<p>Pingo foi um cachorro lend\u00e1rio no folclore dom\u00e9stico por ter sido o melhor perdigueiro que meu pai teve. Quando foi atropelado na frente de casa, o homem duro que jamais chorava encerrou-se no quarto para solu\u00e7ar, com l\u00e1grimas que ningu\u00e9m viu, a perda de um parceiro do primeiro time nas andan\u00e7as pelos campos, paix\u00e3o de toda uma vida do ex-combatente que s\u00f3 pegava em armas para matar perdiz. Em homenagem a esse exemplar jamais igualado, todos os cachorros que tivemos com aquelas pintas marrons ou pretas no pelo branco ganharam o mesmo nome de batismo. \u00c0s vezes, quando eram dois, o outro era chamado de Duque.<\/p>\n<p>A cachorrada sobrava em casa, pois, fora da sua miss\u00e3o principal, a ca\u00e7a, n\u00e3o serviam para nada, a n\u00e3o ser para tomar espa\u00e7o na casa de muitos moradores. Nela conflu\u00edam todas vidas da \u00e9poca e hoje, todos os vetores da mem\u00f3ria. S\u00f3 quando havia barulho de cartucheira, de cheiro de p\u00f3lvora, de movimento de jipe cheio \u00e9 que eles se alvoro\u00e7avam para algo que transcendia aquela modorra.<\/p>\n<p>\u00c9 quando sa\u00edam para os espa\u00e7os infinitos dos campos, onde, quando eram mo\u00e7os, afastavam toda e qualquer ave que estivesse por l\u00e1, para desespero dos ca\u00e7adores. S\u00f3 depois de muito treino e algumas surras eles conseguiam fazer o servi\u00e7o corretamente, n\u00e3o sem antes passar pelo obrigat\u00f3rio ritual de estragar a ca\u00e7a. Trazer o bicho na boca sem mastig\u00e1-lo e depositar aos p\u00e9s ou nas m\u00e3os do dono era uma arte que talvez s\u00f3 o primeiro Pingo dominava com perfei\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o s\u00f3 de perdigueiros era feita a fauna canina.<\/p>\n<p>T\u00ednhamos o Raf, policial que fazia a seguran\u00e7a, j\u00e1 que seus colegas de quatro patas eram uns moleir\u00f5es e festejavam quem se aproximasse. Raf tinha o porte do sujeito preocupado com os intrusos e respeitava as crian\u00e7as como se dele fossem. Ou n\u00e3o. J\u00e1 n\u00e3o lembro direito. Talvez fosse t\u00e3o inoportuno quanto os outros e ajudavam a fazer a algazarra que deixava os adultos loucos e competia com o barulho da crian\u00e7ada.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia naquele tempo essa paix\u00e3o pelos pets, pelo menos de nossa parte, ferozes petizes indom\u00e1veis. Os cachorros faziam parte da rotina, misturados \u00e0 bagun\u00e7a geral. Eram tratados, escovados, vacinados e tudo mais. Mas tamb\u00e9m sofriam com a indiferen\u00e7a geral daquela vida urbana t\u00e3o pr\u00f3xima da natureza. T\u00ednhamos o rio perto demais, o campo em todo fim-de-semana, as \u00e1rvores em carreira pelas cal\u00e7adas, a maioria cinamomos que davam frutinhas \u00f3timas para usar no bodoque e acertar os vira-latas que passavam.<\/p>\n<p>Essa experi\u00eancia, de tantos cachorros fazendo presen\u00e7a nos nossos espa\u00e7os, me deixou um pouco avesso a ter hoje um em casa. J\u00e1 tive, n\u00e3o quero mais. A gente se apega, eles envelhecem e acabam morrendo. Ainda mais que a morte de Raf me deixou traumatizado. No galp\u00e3o vazio, ele finou-se e l\u00e1 ficou at\u00e9 o recolherem. Foi trazido de arrasto por algu\u00e9m e depois colocado numa carro\u00e7a para ser enterrado longe. Nosso quintal n\u00e3o tinha lugar para c\u00e3es mortos. Nem nosso cora\u00e7\u00e3o, duro como o animal que era carregado.<\/p>\n<p>N\u00e3o choramos, como fez nosso pai quando perdeu o primeiro Pingo. Mas ficou um travo amargo do c\u00e3o policial que se foi de maneira t\u00e3o ingl\u00f3ria, diante dos nossos olhos abismados com a primeira manifesta\u00e7\u00e3o da morte.<\/p>\n<p><em>Cr\u00f4nica publicada no jornal Momento de Uruguaiana.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Pingo foi um cachorro lend\u00e1rio no folclore dom\u00e9stico por ter sido o melhor perdigueiro que meu pai teve. 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