{"id":2654,"date":"2011-05-04T21:52:39","date_gmt":"2011-05-05T00:52:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2654"},"modified":"2011-05-04T21:52:39","modified_gmt":"2011-05-05T00:52:39","slug":"confronto-entre-narracao-e-design","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/confronto-entre-narracao-e-design","title":{"rendered":"CONFRONTO ENTRE NARRA\u00c7\u00c3O E DESIGN"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>A cena \u00e9 famosa. Em primeiro plano, o tenente ingl\u00eas T. E. Lawrence est\u00e1 ao lado de um po\u00e7o com seu guia \u00e1rabe. Ele \u00e9 o protagonista do foco narrativo tradicional, a hist\u00f3ria do militar especialista em Oriente M\u00e9dio em miss\u00e3o especial de reconhecimento das for\u00e7as do pr\u00edncipe Fai\u00e7al. Ao fundo, no horizonte da imagem tomado pela areia e a luz branca formada pela uni\u00e3o do deserto e do c\u00e9u. desenha-se a linha fina de um vulto negro. \u00c9 um pequeno rasgo na paisagem que vai se expandindo conforme o personagem que ele representa se aproxima.<\/p>\n<p>O confronto entre a narra\u00e7\u00e3o, a representa\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria tida como real, e o design, a fantasmagoria, \u00e9 a charada proposta pelos signos desse trecho da obra, no caso o filme de David Lean, Lawrence da Arabia (1962). Dois mundos que n\u00e3o se tocam pelo desconhecimento e o gap civilizat\u00f3rio e geogr\u00e1fico encontram o ponto focal, o desenlace de um desencontro. A perspectiva que se avulta n\u00e3o \u00e9 um aperto de m\u00e3o, mas um tiro. Pois o guia reconhece na lista negra que balan\u00e7a e se contorce por efeito dos reflexos do sol sobre a areia, o advers\u00e1rio tribal que impedir\u00e1 o acesso dos dois \u00e0 \u00e1gua do po\u00e7o. Para se precaver, o homem vai at\u00e9 sua montaria para retirar o rev\u00f3lver que tinha ganho de presente na noite anterior do pr\u00f3prio tenente, mas n\u00e3o consegue disparar.<\/p>\n<p>A t\u00fanica negra atira antes com um rifle e o guia cai com um buraco mortal na cabe\u00e7a. \u00c9 ent\u00e3o que Omar Sharif assoma no cinema mundial como o Sherif Ali, com seu sotaque rasteiro, suas frases certeiras e curtas e sua determina\u00e7\u00e3o em n\u00e3o deixar que ningu\u00e9m usufrua do patrim\u00f4nio da sua tribo, fator de sobreviv\u00eancia naquele lugar hostil. O jogo bruto da diferen\u00e7a \u00e9 todo decidido sem di\u00e1logos. As palavras n\u00e3o importam e quando elas surgem \u00e9 apenas para marcar o territ\u00f3rio j\u00e1 deflagrado pela apari\u00e7\u00e3o, a amea\u00e7a e a rea\u00e7\u00e3o decisiva. That\u00b4s is my friend., diz Lawrence. I know read and right, diz a apari\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea matou um amigo. Tenho forma\u00e7\u00e3o: duas frases se entrecruzam na ferocidade da diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Mas o fator principal aqui n\u00e3o \u00e9 a nacionalidade, a ra\u00e7a, a posi\u00e7\u00e3o na guerra . E sim a linguagem, que define os pap\u00e9is de cada um. O tenente, a partir desse momento, cruza o umbral de sua pr\u00f3pria percep\u00e7\u00e3o e penetra no reino improv\u00e1vel dos povos n\u00f4mades. Ele estava firmemente arraigado em sua na\u00e7\u00e3o, mesmo debru\u00e7ado culturalmente sobre a terra que estudava com tanto fervor. Ele fazia parte de um discurso e buscava outro, mas foi surpreendido por algo diferente, uma imagem em movimento.<\/p>\n<p>O espectador tamb\u00e9m d\u00e1 esse passo al\u00e9m do extremo e parte junto para o terreno ignoto das tendas, das preces, do vento sobre as dunas. L\u00e1 onde as roupas, os gestos, os princ\u00edpios, as id\u00e9ias subvertem o mundo conhecido e desenham uma realidade diversa para os ocidentais. Esse novo mundo fecha o cerco sobre Lawrence, que se envolve at\u00e9 a medula na guerra que n\u00e3o era sua, mas ficou sendo. E s\u00f3 \u00e9 rompido quando, depois de cruzar o Sinai, v\u00ea o topo de um navio cruzando o deserto. A vis\u00e3o do canal de Suez \u00e9 o caminho de volta para casa, para a infelicidade de voltar a ser o mesmo, a reassumir o discurso. Por isso \u00e9 aterradora sua fu\u00e7a tomada pelo p\u00e2nico de pertencer ao que de todos desconhecem. Ele est\u00e1 irreconhec\u00edvel. Seu rosto de cera ilustra o olhar opaco de quem viu demais.<\/p>\n<p>O narrador foi colhido pelo corte profundo da paisagem rasgada por aquele fiapo de sombra que deu um tiro mortal. A narra\u00e7\u00e3o confrontou o design. E o mundo se transformou para sempre. \u201cEles n\u00e3o vir\u00e3o pelo \u00e1rabes, nem pelos ingleses, nem pelo ouro ou pelas armas,\u201ddiz o tenente em del\u00edrio para seu general. \u201cEles vir\u00e3o por mim\u201d. Pois foi ele que viveu aquele confronto e \u00e9 ele, portanto, quem decide a parada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s A cena \u00e9 famosa. Em primeiro plano, o tenente ingl\u00eas T. E. Lawrence est\u00e1 ao lado de um po\u00e7o com seu guia \u00e1rabe. Ele \u00e9 o protagonista do foco narrativo tradicional, a hist\u00f3ria do militar especialista em Oriente M\u00e9dio em miss\u00e3o especial de reconhecimento das for\u00e7as do pr\u00edncipe Fai\u00e7al. 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