{"id":2659,"date":"2011-05-04T21:55:25","date_gmt":"2011-05-05T00:55:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2659"},"modified":"2011-05-04T21:55:25","modified_gmt":"2011-05-05T00:55:25","slug":"em-busca-do-canone","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/em-busca-do-canone","title":{"rendered":"EM BUSCA DO C\u00c2NONE"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>S\u00f3 para implicar, costumo dizer que a verdadeira cita\u00e7\u00e3o \u00e9 aquela feita de mem\u00f3ria, e que a ipsis litteris n\u00e3o passa de pl\u00e1gio. N\u00e3o \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o totalmente verdadeira, pois o filtro da mente pode acabar com a frase original. Mas a frase funciona. Serve para evitar a pior amea\u00e7a quando se fala de autores e livros: o aborrecimento. Porque nada mais chato do que escutar, s\u00edlaba a s\u00edlaba, o que foi dito por uma celebridade. Ou aturar a lista alheia dos livros favoritos feita para fazer pose. Nossa imagem depende das leituras que ostentamos, pelo menos \u00e9 assim que parece na ind\u00fastria do espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m isso n\u00e3o \u00e9 de todo verdade, pois o que gostamos de fato costuma coincidir com o que \u00e9 destacado normalmente em todas as sele\u00e7\u00f5es. Ter entre os favoritos Borges, Conrad, Carpentier, Proust, Rosa, Drummond, Cabral, Bandeira n\u00e3o \u00e9 privil\u00e9gio de ningu\u00e9m. Mas o c\u00e2none de cada um obedece \u00e0 personaliza\u00e7\u00e3o de nossa abordagem, \u00e0 maneira como tomamos conhecimento de livros fundamentais. O acervo real \u00e9 o que somamos \u00e0 nossa exist\u00eancia, nessa conflu\u00eancia estranha entre o \u00e9pico e o prosaico, o transcendente e o pag\u00e3o, o l\u00f3gico e o absurdo.<\/p>\n<p>Jean-Luc Godard \u00e9 mestre em mostrar essa jun\u00e7\u00e3o de opostos quando coloca grandes autores na fala de pessoas que est\u00e3o no banheiro escovando os dentes ou em frente a uma m\u00e1quina de jogar, como ele faz magistralmente no seu recente Socialismo. Mas n\u00e3o estamos aqui para falar de cinema, apesar de Godard ser um autor de colagens cl\u00e1ssicas e modernas em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 leitura confort\u00e1vel dos best-sellers. \u201cCheguei e vou dar trabalho\u201d, a m\u00e1xima do sambista Moreira Silva, serve tanto para Godard quanto para n\u00f3s, que estamos em busca de um c\u00e2none liter\u00e1rio.<\/p>\n<p>Para continuar implicando e aborrecer apenas os de m\u00e1-f\u00e9 ou excessivamente ing\u00eanuos (que se deixam levar por difama\u00e7\u00f5es), escolho Monteiro Lobato como meu escritor brasileiro predileto. De Reina\u00e7\u00f5es de Narizinho \u00e0 Chave do Tamanho, de O Comprador de Fazendas \u00e0 Paran\u00f3ia ou Mistifica\u00e7\u00e3o?, Lobato \u00e9 o escritor maior, eternamente perseguido. S\u00f3 sua inicia\u00e7\u00e3o ao mundo grego antigo j\u00e1 o justificaria como algu\u00e9m que radicalizou no of\u00edcio. Mas Lobato \u00e9 apenas um. Para n\u00e3o me estender na lista, destaco Joseph Conrad de Lord Jim traduzido por M\u00e1rio Quintana. Sim, precisa ser o Quintana, sen\u00e3o n\u00e3o funciona (j\u00e1 tentei ler outra tradu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o colou). Mas Conrad sobra: Cora\u00e7\u00e3o das Trevas, Agente Secreto etc. s\u00e3o uma intermin\u00e1vel cole\u00e7\u00e3o de maravilhas.<\/p>\n<p>Jorge Luis Borges nos encanta porque tem o visgo dos narradores que fundaram na\u00e7\u00f5es e a transgress\u00e3o de uma vanguarda fora de moda. Ele se alimenta do bizarro sem se entregar a maluquices e comp\u00f5e uma obra que mostra o caminho (e nem sei porque escrevem t\u00e3o mal se temos Borges como par\u00e2metro). Borges \u00e9 um dos poucos autores que releio.<\/p>\n<p>H\u00e1 Os Passos Perdidos, de Alejo Carpentier, que \u00e9 a reinven\u00e7\u00e3o do romance, quando o autor mergulha na sua origem para perd\u00ea-la, e volta ao mundo real para desmascar\u00e1-lo. Literatura \u00e9 maneira que temos de ver direito pelo lado avesso. \u00c9 uma viagem ao mundo do espelho quando descobrimos, abismados, que l\u00e1 tudo faz sentido. O lado de c\u00e1 ent\u00e3o adquire sua verdadeira ess\u00eancia: a falta do Absoluto, a morte certa. Literatura \u00e9 a certeza na vida eterna, que nos leva \u00e0 paz do esp\u00edrito.<\/p>\n<p>N\u00e3o a paz dos cemit\u00e9rios, mas a do cora\u00e7\u00e3o habitado. Aprendemos a amar primeiro nos livros. Depois, com as p\u00e1ginas abertas ao lado, damos o primeiro beijo, for\u00e7ando o olhar para ver se estamos fazendo direito. Esse \u00e9 o amor verdadeiro.<\/p>\n<p><em>Artigo publicado originalmente no Jornal Op\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s S\u00f3 para implicar, costumo dizer que a verdadeira cita\u00e7\u00e3o \u00e9 aquela feita de mem\u00f3ria, e que a ipsis litteris n\u00e3o passa de pl\u00e1gio. 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