{"id":2666,"date":"2011-05-04T21:58:24","date_gmt":"2011-05-05T00:58:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2666"},"modified":"2011-05-04T21:58:24","modified_gmt":"2011-05-05T00:58:24","slug":"toy-story-3-a-infancia-nao-descartavel","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/toy-story-3-a-infancia-nao-descartavel","title":{"rendered":"TOY STORY 3: A INF\u00c2NCIA N\u00c3O DESCART\u00c1VEL"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>O terceiro filme da s\u00e9rie Toy Story (2010, de Lee Unkrich) brinca de cinema. S\u00e3o not\u00f3rias as cita\u00e7\u00f5es a v\u00e1rios filmes, a come\u00e7ar por Cool Hand Luke (Rebeldia Indom\u00e1vel, 1967) em que Buzz, o boneco astronauta, reprogramado pelos bandidos, faz uma rela\u00e7\u00e3o de proibi\u00e7\u00f5es aos encarcerados, caindo sempre na palavra Box (solit\u00e1ria) no final das frases. \u00c9 inesquec\u00edvel essa fala do ator Strother Martin na pris\u00e3o onde Paul Newman fez hist\u00f3ria. H\u00e1 refer\u00eancias aos filmes de terror, inclusive os que usam bonecos sinistros, e aos faroestes (a cl\u00e1ssica cena do mocinho que se agarra, por fora, no piso da carruagem), incluindo a\u00ed uma sacada do Luiz Carlos Merten quando, no desfecho, h\u00e1 uma refer\u00eancia \u00e0 despedida entre o cowboy e o menino, no estilo de Shane, de George Stevens.<\/p>\n<p>\u00c9 a marca registrada de grandes obras e autores: nada surge por acaso, tudo \u00e9 soma, a come\u00e7ar pela inf\u00e2ncia. Ela passa, mas n\u00e3o pode ser descartada. Esquec\u00ea-la, j\u00e1 disse Sartre na cita\u00e7\u00e3o batida mas verdadeira, est\u00e1 na fonte da trag\u00e9dia humana. Toy Story 3 rema contra a o descarte da inf\u00e2ncia, por meio da determina\u00e7\u00e3o,do la\u00e7o afetivo, da mem\u00f3ria, da aventura, do desprendimento e do amor. \u00c9 disso que se trata. Os brinquedos que n\u00e3o querem ir para o lixo, ou descobrem que a creche \u00e9 uma pris\u00e3o capitaneado por um urso de pel\u00facia malvado, representam a necessidade de se manter viva a mem\u00f3ria da inf\u00e2ncia, passaporte para o sentimento de perten\u00e7a \u00e0 humanidade. Fora disso \u00e9 a barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>A civiliza\u00e7\u00e3o do pl\u00e1stico, que j\u00e1 faz parte da natureza americana, n\u00e3o pode ser desprestigiada pelo sucateamento da invas\u00e3o chinesa. Pelo menos para roteiristas, atores e cineastas envolvidos no projeto. Isso fica bem claro no filme. Os brinquedos que buscam a salva\u00e7\u00e3o s\u00e3o os cl\u00e1ssicos da Am\u00e9rica, como provam os personagens como o cowboy, o astronauta, os Ets. S\u00e3o brinquedos que revelam as modifica\u00e7\u00f5es da vida americana, desde os que s\u00e3o animados por molas ou cordas at\u00e9 os movidos a pilha. Todos sabem usar o computador, o que atualiza a brincadeira, pois tira o sentido obsoleto de cada produto. Nada se pode descartar quando tanta carga de civiliza\u00e7\u00e3o existe naquelas representa\u00e7\u00f5es do mundo infantil.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma diferen\u00e7a entre a cita\u00e7\u00e3o e a reprodu\u00e7\u00e3o pura e simples, a cria\u00e7\u00e3o a partir de uma base e o clich\u00ea. Toy Story 3 \u00e9 o anti-clich\u00ea e isso fica expl\u00edcito na sem cerim\u00f4nia com que trata o casal Barbie e Kent. Este, chamado de metrossexual, usa roupas fabricadas na China que Barbie, para tortur\u00e1-la e obter uma confiss\u00e3o, come\u00e7a a rasgar. Outra pista \u00e9 o que os vil\u00f5es fazem com Buzz: para tirar sua personalidade a favor dos companheiros, fazem-no regredir ao estado de ind\u00fastria, ou seja, \u00e0 personalidade que tinha na f\u00e1brica e que \u00e9 uma sucess\u00e3o de clich\u00eas a favor da tirania. S\u00f3 a m\u00e3o da crian\u00e7a para mudar esse perfil. Quando a inf\u00e2ncia interfere, o produto industrial transcende e se transforma na encarna\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios trazidos do ber\u00e7o: a inoc\u00eancia, a credulidade, a solidariedade, o esp\u00edrito aventureiro, o afeto.<\/p>\n<p>Buzz tamb\u00e9m extrapola nas modifica\u00e7\u00f5es e consegue chegar a um status de fuga, que \u00e9 seu comportamento latino. Para os americanos, o mundo \u00e9 uma cidade. O bordel fica com os latinos, a lei e a ordem com eles, os servi\u00e7os e com\u00e9rcio com os orientais. \u00c9 assim que funciona. \u00c9 admir\u00e1vel como o cinema americano consegue tanta liberdade para abordar seus temas, e ao mesmo tempo ficam t\u00e3o fi\u00e9is \u00e0s suas origens (ou ao que eles definem como origem). Toy Story 3 aborda a Am\u00e9rica como tendo uma base comum, eterna. Os brinquedos podem ser fr\u00e1geis, mas jamais descart\u00e1veis. A inf\u00e2ncia pode passar, mas nunca poder\u00e1 ser esquecida. As pessoas mudam, mas dentro de cada garoto h\u00e1 um cowboy. As meninas se tornam adultas, mas n\u00e3o abrem m\u00e3o do amor e da emo\u00e7\u00e3o diante de uma demonstra\u00e7\u00e3o dos sentimentos.<\/p>\n<p>Toy Story 3: melhor do que os outros dois, que s\u00e3o \u00f3timos. Mas este j\u00e1 nasceu um cl\u00e1ssico (ganhou neste ano o Oscar de melhor filme de anima\u00e7\u00e3o). A inf\u00e3ncia que muda de m\u00e3os, passa para a nova gera\u00e7\u00e3o e \u00e9 levada como lembran\u00e7a, refer\u00eancia, mem\u00f3ria para a vida adulta \u00e9 como um filme maravilhoso: guardamos como um tesouro e sempre que for poss\u00edvel, o revisitamos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s O terceiro filme da s\u00e9rie Toy Story (2010, de Lee Unkrich) brinca de cinema. S\u00e3o not\u00f3rias as cita\u00e7\u00f5es a v\u00e1rios filmes, a come\u00e7ar por Cool Hand Luke (Rebeldia Indom\u00e1vel, 1967) em que Buzz, o boneco astronauta, reprogramado pelos bandidos, faz uma rela\u00e7\u00e3o de proibi\u00e7\u00f5es aos encarcerados, caindo sempre na palavra Box (solit\u00e1ria) no [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2666"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2666"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2666\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2667,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2666\/revisions\/2667"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2666"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2666"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2666"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}