{"id":2676,"date":"2011-05-30T13:20:24","date_gmt":"2011-05-30T16:20:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2676"},"modified":"2011-05-30T13:20:24","modified_gmt":"2011-05-30T16:20:24","slug":"aprender","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/aprender","title":{"rendered":"APRENDER"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Apesar de toda a demagogia que se faz em torno do assunto, a verdade \u00e9 que aprendemos pouco. H\u00e1 uma resist\u00eancia natural ao aprendizado chamado vaidade. Por isso s\u00e3o raros os momentos decisivos em que fomos pegos de surpresa e obrigados a baixar a guarda diante da contund\u00eancia de novos significados. O importante s\u00e3o aqueles impactos que mudam voc\u00ea para sempre, em que o aprendizado se faz de melhor forma, pela ruptura.<\/p>\n<p>Costumo definir como divisor de \u00e1guas a aula no curso de jornalismo da Ufrgs em que o professor nos leu Fernando Pessoa. Eu j\u00e1 tinha 19 anos e jamais ouvira falar no grande poeta. Foi como um tuf\u00e3o varrendo a praia. Fiquei pasmo com a eloq\u00fc\u00eancia da minha ignor\u00e2ncia. A partir daquele instante, descobri todo um tesouro liter\u00e1rio que eu n\u00e3o tinha descerrado, apesar de me achar bem formado, leitor de muitos autores. Nenhum deles, por\u00e9m, se manifestara com a for\u00e7a daquele poeta na manh\u00e3 de outono no distante 1968. Era diverso de tudo o que eu conhecia e t\u00e3o atual que parecia ter nascido ontem.<\/p>\n<p>Na vida profissional, nada se compara ao conv\u00edvio pr\u00f3ximo numa reda\u00e7\u00e3o com Mino Carta, o jornalista n\u00famero 1 do pa\u00eds. Ele contrariava tudo o que se referia ao mito. Primeiro, n\u00e3o \u201ctrabalhava\u201d no sentido burro do termo. Mino n\u00e3o se esfalfava em suores frios diante do deadline, n\u00e3o batucava furiosamente sua m\u00e1quina, n\u00e3o disparava ordens a cada segundo. Ele, aparentemente, deixava tudo andar. Colocava a responsabilidade total, absoluta, na m\u00e3o dos jornalistas da equipe, que eram ao mesmo tempo pauteiros, editores, rep\u00f3rteres, redatores.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, intervinha em todas as etapas, quase sem que fosse notada essa sua m\u00e3o de mestre. Na reuni\u00e3o de pauta, todos davam sugest\u00f5es e quem levantasse uma lebre era respons\u00e1vel por ela. Mas Mino colocava \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do jornalista a mina de fontes, o professor Luiz Gonzaga Belluzo, presidente do Conselho Editoral da Revista, que acorria com nomes, telefones, id\u00e9ias.<\/p>\n<p>Depois, desenhava p\u00e1gina a p\u00e1gina, na frente do editor da se\u00e7\u00e3o e via o in\u00edcio de cada mat\u00e9ria \u2013 e quando necess\u00e1rio, lia at\u00e9 o fim, mas era raro. Perguntava do que se tratava e pedia prioridades. A partir disso, o artista pincelava a diagrama\u00e7\u00e3o coluna a coluna. Quando vinha o resultado da gr\u00e1fica era uma festa. Ele jogava o ma\u00e7o de papel impresso na parede gritando:\u201d Isso chama-se matar uma revista!\u201d A uma pergunta tola, emudecia e olhava o interlocutor com espanto. Lendo um lugar comum, anunciava o erro para toda a reda\u00e7\u00e3o. Se algu\u00e9m se destacasse, colocava-o contra os outros, \u201cque nada faziam\u201d.<\/p>\n<p>Se ficasse realmente furioso, jogava sua pequena m\u00e1quina Olivetti no lixo. Tanta press\u00e3o gerava desconforto no aprendiz que era eu, que com ele soube como fazer uma revista a partir de quase nada, em todas as suas etapas. Na minha hora de decidir com ele, acabava ficando s\u00f3 diante das p\u00e1ginas em branco. Mandava ent\u00e3o seu fiel motorista, o D\u00f3, me buscar no bar. D\u00f3 vinha e me dizia: \u201cO Mino est\u00e1 te chamando\u201d.<\/p>\n<p>-Que espere!, dizia eu.<\/p>\n<p>Seis anos disso. Saudade? Toda a saudade do mundo.<\/p>\n<p><em>Cr\u00f4nica publicada no jornal Momento de Uruguaiana<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Apesar de toda a demagogia que se faz em torno do assunto, a verdade \u00e9 que aprendemos pouco. H\u00e1 uma resist\u00eancia natural ao aprendizado chamado vaidade. 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