{"id":2678,"date":"2011-05-30T13:21:55","date_gmt":"2011-05-30T16:21:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2678"},"modified":"2011-05-30T13:21:55","modified_gmt":"2011-05-30T16:21:55","slug":"london-river-misterio-de-um-amor-de-transgressao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/london-river-misterio-de-um-amor-de-transgressao","title":{"rendered":"LONDON RIVER: MIST\u00c9RIO DE UM AMOR DE TRANSGRESS\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Para os marinheiros mercantes, o T\u00e2misa sempre foi o London River. Essa \u00e9 uma denomina\u00e7\u00e3o de quem vem de fora, de quem chega na capital inglesa. \u00c9 uma percep\u00e7\u00e3o de viajantes, dos migrantes que aportam em Londres, que tanto podem ser mu\u00e7ulmanos da \u00c1frica, quanto cidad\u00e3os brit\u00e2nicos que vivem fora da grande cidade. Eles enxergam outra realidade urbana, longe dos monumentos e dos cart\u00f5es postais. Habitam bairros contaminados pela complexa e ca\u00f3tica sociedade predat\u00f3ria, onde a sobreviv\u00eancia \u00e9 um jogo bruto de mobilidade, pequenos com\u00e9rcios, polui\u00e7\u00e3o visual e sentimento de desamparo.<\/p>\n<p>H\u00e1 um natural desenraizamento nessa situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria, escassa, provis\u00f3ria e datada. Pessoas que chegam de fora continuam viajando, agora pelas ruas de tr\u00e1fego intenso, em passarelas onde as paredes exibem rostos de desaparecidos. Viver nos fundos de um mercadinho tocado por um \u00e1rabe ou passar alguns dias num hotel do sub\u00farbio, caro para qualquer um que n\u00e3o esteja estabelecido como turista ou visitante rico, \u00e9 se deparar com as entranhas da sociedade, dividida em classes e violenta. Esse ambiente \u00e9 que alimenta tanto os que v\u00e3o engrossar as fileiras do estado nas interven\u00e7\u00f5es em pa\u00edses remotos como o Iraque, ou os insurgentes que explodem \u00f4nibus e metr\u00f4. A guerra est\u00e1 impl\u00edcita no caos urbano.<\/p>\n<p>\u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o de guerra \u2013 os atentados em Londres em 2005 contra a interven\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica no Iraque \u2013 que re\u00fane personagens desiguais em London River (Caminhos Cruzados, 2009), do franc\u00eas Rachid Bouchareb . De fam\u00edlia argelina, ele \u00e9 tamb\u00e9m diretor dos excelentes Dias de Gl\u00f3ria (2006, sobre a participa\u00e7\u00e3o argelina na II Guerra) e Foras da Lei (2010, mural hist\u00f3rico e ficcional sobre a os anos que precederam a independ\u00eancia da Arg\u00e9lia, filme indicado para Oscar de melhor filme estrangeiro este ano). Sua abordagem \u00e9 sobre uma transgress\u00e3o \u2013 o amor \u2013 entre pessoas d\u00edspares (o migrante africano, negro e mu\u00e7ulmano, e a mulher, branca, brit\u00e2nica e protestante). E de como essa rela\u00e7\u00e3o abriu os olhos dos pais, at\u00e9 ent\u00e3o ausentes, que representam a terra (ambos trabalham com plantas) marginalizada pela civiliza\u00e7\u00e3o que devora os filhos.<\/p>\n<p>O conflito entre diferen\u00e7as \u00e9tnicas, religiosas ou pol\u00edticas, que desencadeia o drama, n\u00e3o est\u00e1 em primeiro plano e sim esse despertar que a aproxima\u00e7\u00e3o familiar experimenta na dolorosa peregrina\u00e7\u00e3o em busca do casal desaparecido depois dos atentados. A religiosidade e o trato com a natureza aproxima a identidade do pai do africano (Sotigui Kouyat\u00e9, soberbo, o ator do diretor teatral brit\u00e2nico Peter Brook por 20 anos, nascido em Mali, e que morreu aos 75 anos depois das filmagens) e da m\u00e3e da garota inglesa (Brenda Blethyn, numa sofisticada interpreta\u00e7\u00e3o que transparece a caricatura, mas \u00e9 pura performance de quem domina plenamente o of\u00edcio). Os dois se descobrem enredados na mesma armadilha, e partem de suas diferen\u00e7as para diversas sintonias, que des\u00e1guam numa despedida antol\u00f3gica.<\/p>\n<p>O filme trabalha intensamente a elipse, o recurso de colocar o miolo do drama fora do quadro, do que vemos na tela. Sabemos apenas que o casal existe, mora junto e comprou passagens para Paris. O pai, que abandonou o filho quando este tinha seis anos, desconhece completamente a criatura que vai buscar, a pedido da ex-esposa, que ficou na Africa. A m\u00e3e, que mantinha uma rela\u00e7\u00e3o distante e indiferente com a filha, nada sabia de sua vida de estudante na capital. Ambos acabam no apartamento do casal, a compartilhar objetos deixados pela vida em comum. Essas pistas \u2013 as fotos, o instrumento musical antigo, as roupas, os m\u00f3veis, os livros &#8211; s\u00e3o a \u00fanica coisa que resta de fam\u00edlias destro\u00e7adas por uma sociedade hostil e um mundo em guerra permanente.<\/p>\n<p>O africano que queria preservar o olmo desiste de sua luta ambiental e a mulher que gosta de jardinagem tenta tirar algo mais do ch\u00e3o seco e pedregoso. In\u00fatil esfor\u00e7o. O filme \u00e9 fiel \u00e0 brutalidade da \u00e9poca e nos leva para a frente desse muro que foi interposto entre as pessoas. J\u00e1 sabemos disso, n\u00f3s, os habitantes do mesmo front. N\u00e3o precisar\u00edamos do cinema para tanto. Mas com a S\u00e9tima Arte podemos imaginar que algo mudaria radicalmente se as pessoas, em vez da viol\u00eancia, se entregassem a outra transgress\u00e3o, o amor, pautado pela espiritualidade, religiosa ou n\u00e3o, que est\u00e1 firmemente ancorada nas linguagens can\u00f4nicas.<\/p>\n<p>Tanto os livros sagrados quanto as conversas em tempos de paz tem esse poder. \u00c9 quando exercemos rituais de ora\u00e7\u00f5es ou sentamos na cal\u00e7ada a compartilhar uma fruta e rimos do Mal que nos fizeram. \u00c9 a chance que temos de continuar vivos, de cruzar o rio do desespero e os limites de nossas vidas, para chegarmos intactos, ainda humanos, num porto amig\u00e1vel e n\u00e3o mais dilacerado pelo \u00f3dio e a vingan\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Para os marinheiros mercantes, o T\u00e2misa sempre foi o London River. 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